Poder e Humildade


João nasceu em uma família humilde. A mãe ganhava uns trocados como diarista. O pai, quase sempre bêbado, trabalhava em uma oficina mecânica. Pra onde começou a levar o filho aos 12 anos de idade, “porque homem tem que começar a trabalhar cedo pra fazer a vida”.

Em meio aos calendários com mulheres nuas, aprendeu sobre a vida da maneira mais rude. Gostava do que fazia e queria aprender mais. Fez um curso de mecânica, queria abrir uma oficina própria. Com 17 anos, viu seu pai morrer ali, naquela oficina, num infarto fulminante. Ele saiu de casa e foi viver sozinho. Ele, os carros, e o hábito de beber,  ensinado pelo seu pai.

Ficou dependente do álcool. Mas, incrivelmente, isso não atrapalhava tanto. Com o tempo, juntou algum dinheiro e abriu sua própria oficina. Levou um colega da oficina antiga e dois aprendizes. Como sempre trabalhou direito, o negócio começou a crescer. A oficina se transformou em retífica e começou a fazer serviços mais especializados. João, contra tudo e contra todos, vinha tendo sucesso.

Algum tempo depois, conheceu Carla. Se apaixonou. Ela era filha de um comerciante da região, que exigiu que ele desse a melhor vida possível pra ela. Exigiu que ele parasse com o álcool, e ele frequentou até os alcoólicos anônimos para isso.

Deu certo. Eles casaram, tiveram uma filha, e a retífica começou a render um bom dinheiro, a ponto dele abrir mais duas pela cidade. Movido pela história de vida humilde, ele conversou com a diretora e começou a distribuir cestas básicas pros alunos pobres da escola do bairro. Também contratava alguns alunos da escola pra ensinar a profissão, como estagiários, fora do horário de aula.

Um belo dia, um sujeito apareceu na retífica de João e sugeriu um acordo. Ele queria ser prefeito, e queria que João fosse vereador. Falou que João era o maioral, que João era um vencedor, que todos o amavam. João disse que não investiria nenhum dinheiro na campanha, que só faria ela conversando com os amigos.

Começou a campanha. Todos ficaram felizes sabendo que João estava concorrendo. Confiaram nele, confiaram no candidato a prefeito. Os dois se elegeram. De fato, todos amavam João. Ele fazia as pessoas ao seu redor mais felizes.

Começou o mandato. João recebia a todos em seu gabinete. Era um gabinete simples, sem luxo, uma mesa com um computador só. Uma secretária do lado de fora, velha conhecida da família, recebendo os cidadãos. Tudo parecia bem.

Daí ele começou a aparecer nos jornais da região, junto com o prefeito. Começou a ser elogiado por todos. Atraiu o olhar de empresários poderosos da cidade, que ofereceram mundos e fundos pra ele. Recusou uma vez, duas. Na terceira, começou a se perguntar “o que há de tão ruim nisso, afinal?” Tinha deixado a mulher à frente da Retífica, mas ela não aguentou. Mandou um assessor e a secretária pra lá, pra administrar o negócio. Contratou uma nova secretária, de “boa aparência”.

Não resistiu e começou a ter um caso com a secretária. Separou-se da mulher. Os diversos eventos sociais fizeram ele voltar a beber compulsivamente. Já não recebia mais ninguém em seu gabinete a não ser os tais empresários que ajudaram a corrompê-lo. Começaram a falar mal dele, sem ele saber. Não havia nem como, ele não estava mais ao lado do povo para saber.

Tentou se reeleger. Dessa vez, tinha muito mais dinheiro, espalhou faixas e carros de som pela cidade. As propagandas ecoavam: “João é honesto, nele você pode confiar”. As pessoas desconfiaram: como alguém outrora tão humilde gastava tanto dinheiro para se reeleger? A desilusão se confirmou: ele tinha virado apenas mais um.

Não teve nem um terço dos votos da eleição anterior. Cortou as cestas básicas pros alunos da escola, parou de contratá-los. Continuou com as duas Retíficas (a terceira ele vendeu pra  ajudar na campanha frustrada da reeleição). Mas passou a pagar cada vez menos os funcionários, a fazer serviços cada vez piores, a pensar em ter o máximo de lucro com o mínimo de trabalho.

Vendeu as duas retíficas, que já não se pagavam. Pegou algum dinheiro, que gastou rapidamente com a bebida e os luxos que dava para sua amante. Ela logo o largou, quando viu que o poder tinha acabado e o dinheiro começou a minguar.

João estava sozinho, sem dinheiro e sem perspectiva. Voltou a trabalhar na mesma oficina em que trabalhava como mecânico quando tinha 12 anos. Mexendo com cabeçotes e eixos virabrequins, entendeu, da pior forma, como o poder entorpece as pessoas, mina a humildade, corrompe os valores. Quis ser esquecido por todos. E, ali, sozinho, de volta ao lugar onde tudo começou, bebendo aguardente ao invés de Whisky, reaprendeu a ser humilde e feliz.

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2 respostas para Poder e Humildade

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