O Feminismo e o Ponto de Vista


O Femen é um movimento feminista, originado na Ucrânia e famoso no mundo todo pelos frequentes protestos de ativistas seminuas. Recentemente, conquistou uma ativista brasileira, Sara Winter, alvo de polêmica acerca de suas posições políticas, especialmente entre as demais feministas brasileiras.

O feminismo brasileiro, predominantemente de esquerda, condena o fato de que Sara escreveu contra a “Marcha das Vadias”, um ano atrás, e se definia como “direita nacionalista” em seu perfil pessoal.

O feminismo, no Brasil, sempre esteve ligado aos movimentos de esquerda. Durante  toda a segunda metade do século XX, quando os movimentos feministas se organizaram, o governo no país era de direita, incluindo aí 21 anos de uma ditadura autoritária. O feminismo nada mais é, nesse contexto, que uma luta contra o status quo machista (e muitas vezes sexista) existente nos mais diversos setores da sociedade. Para as militantes feministas, o governo de direita era um dos promotores da desigualdade de gênero no país, e, nesse contexto, nada era mais natural do que abraçar os valores da esquerda. nesse contexto, soa natural a crítica ao fato de Sara Winter se julgar de “direita nacionalista”.

Não é o objetivo desse texto defender ou atacar as posições de uma ou de outra parte, e sim mostrar outro ponto de vista. Quando estamos acostumados com uma realidade não conseguimos analisar a realidade alheia, o contexto histórico alheio e as motivações alheias. No caso do Femen, em específico, falaremos da política ucraniana e do contexto histórico do país.

A Ucrânia e o Femen

Antes de analisar o Femen, é bom entender que a história recente da política ucraniana é muito diferente da brasileira. Ao contrário dos brasileiros, historicamente acostumados aos governos de esquerda, a Ucrânia viveu por 70 anos debaixo de uma ditadura comunista. As manifestações sociais eram duramente reprimidas e o livre mercado se tornou o grande objetivo da oposição política do país (a que sobreviveu, ao menos).

No caso específico da Ucrânia, havia um agravante: além da repressão às manifestações sociais, havia forte repressão às manifestações nacionalistas. Vale lembrar que a Ucrânia foi anexada contra a vontade pela União Soviética, em 1922, após a repressão de um forte movimento nacionalista. No período em que ficou sob o governo soviético, os ucranianos sofreram com a fome artificial promovida pro Stálin entre 1932 e 1933, o Holodomor, que matou milhões de pessoas. Foi invadida pela Alemanha de Hitler. Sofreu com a contaminação nuclear de Chernobyl. E tinha papel crucial no regime soviético, sendo o principal provedor de alimentos da Cortina de Ferro.

Tal cenário fez com que, logo após o colapso soviético e a independência do país, em 1991, fossem formados dois grupos políticos distintos, que disputam o poder no país até hoje: o dos nacionalistas ucranianos, localizados na região oeste do país, que defendem maior integração com os EUA e a União Européia e o afastamento da Rússia, e dos ucranianos pró-Rússia, que residem na região oriental do país e defendem a reaproximação com os russos (alguns defendem até a reanexação do país).

Esses grupos são inconciliáveis, por preservarem diferenças culturais e políticas imensas. Em cidades como Kharkhiv, ao leste da Ucrânia, a influência russa é tão grande que o idioma oficial é o russo, e não o ucraniano. E regiões separatistas, como a Criméia, contam com forte apoio russo (a Rússia manteve uma base militar em Sevastopol, no Mar Negro. O acordo, renovado recentemente, vai até 2026).

O grupo pró-Rússia, que passou a maior parte do tempo no poder mesmo após a independência ucraniana, ainda é vinculado ao antigo regime comunista. O grupo nacionalista, por sua vez, conta com duas grandes personalidades políticas: Viktor Yushchenko, que ascendeu à presidência da Ucrânia após a Revolução Laranja (quando a eleição presidencial foi refeita, em dezembro de 2004, após indícios de fraudes por parte dos pró-russos, que estavam no poder), e Iulia Timochenko, que foi primeira-ministra do país em 2005 e entre 2007 e 2010.

É justamente na figura de Iulia Timochenko que reside a inspiração para o início do Femen. Iulia sempre foi considerada um símbolo do sucesso feminino na fase pós-comunista da Ucrânia. O país viveu um forte empobrecimento na década de 90 (o PIB ucraniano de 200 era 40% do PIB ucraniano de 1991), e a repressão às mulheres, largamente praticada durante o regime comunista, ganhou contornos de mercado. Além dos constantes relatos de agressões, a prostituição passou a ser comum no país, especialmente nas periferias das grandes cidades, como Kyiv, Lviv e Dnipropetrovsk.

O destaque político de Iulia Timochenko e seu viés capitalista e nacionalista (antes de ser política, Iulia já era uma das maiores empresárias do país na indústria de petróleo e gás) inspirou toda uma geração de ucranianas em busca de independência financeira, nos moldes das mulheres de qualquer grande metrópole ocidental. No entanto, a cultura da discriminação, impregnada no regime comunista, continuava presente. Mulheres eram discriminadas no mercado de trabalho e vistas como objetos sexuais.

No entanto, desde quando assumiu como primeira-ministra em 2007, tem sido acusada de corrupção pelos pró-russos. Embora tenha virtualmente eliminado a corrupção do setor de gás natural e aumento o investimento industrial vertiginosamente na Ucrânia, foi formalmente acusada de abuso de poder em 2008 e afastada do poder em 2010. Permanece presa desde 2011, no que muitos ativistas e líderes ocidentais, como Angela Merkel, qualificam como perseguição política.

Iulia Timochenko, saindo da prisão em Kharkhiv para um tratamento de saúde (Fonte: http://www.dn.pt)

Nesse contexto, um grupo de mulheres nacionalistas, revoltadas contra os abusos sofridos pelas mulheres, fundou o Femen, em 2008. Os protestos do grupo se acirraram a partir de 2010, quando Iulia Timochenko foi deposta, e ganharam fama internacional. Mas não pela orientação política, e sim pelo fato de que é inusitado ver um grupo de mulheres protestando com os seios de fora. De uma maneira paradoxal, elas acabam ganhando fama em cima da atitude machista de admirar mulheres seminuas, protestando justamente contra a cultura consolidada que vê a mulher como mero objeto sexual.

As posições políticas

Por tudo isso, o Femen não é de esquerda. O Femen não tem grandes ambições ideológicas além da luta pelo direito feminino na Ucrânia (e agora em outros países também). É um desses movimentos que surgem naturalmente, de forma reativa a uma situação de opressão insustentável.

No entanto, sua inspiração veio da ala nacionalista e capitalista ucraniana. Veio da luta contra a discriminação, que era herança do regime soviético. O que nos mostra que nem sempre lutas sociais similares surgem do mesmo lado do espectro político.

Isso explica muita coisa. Explica, por exemplo, como o Femen considera normal ver em suas fileiras, usando o nome do grupo, alguém que se considera de “direita nacionalista”. Por mais que, no Brasil, “direita nacionalista” seja definida como o integralismo de Plínio Salgado, que por aqui é jogado no esgoto da história.

Cada povo tem sua própria história, e acaba tendo seu comportamento condicionado por suas experiências prévias. Luta contra o que historicamente lhe causou opressão. As ideias das feministas brasileiras e ucranianas podem ser semelhantes em muita coisa, mas não é por isso que a posição política delas será a mesma.

Ambos os grupos, ao perceberem tamanhas diferenças, se olharão com a mesma estranheza, a princípio. O que se espera é que eles percebam, ao fim, que a luta feminista, no Brasil e na Ucrânia, é a mesma: contra a opressão e a desigualdade de gêneros.

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