A vida


Nascemos completamente inocentes. Precisamos de colo, no primeiro momento. Dependemos dos pais para comer, para vestir, para tomar banho e nos limparmos, por não sabermos fazer as necessidades. Aprendemos a comer. Surgem nossos primeiros dentes. Aprendemos a engatinhar, a andar trôpegos, a andar, a correr. Aprendemos, aos poucos, a tomar banho e a fazer nossas necessidades. Começamos a falar. No início palavras soltas. Depois frases. Finalmente, pensamentos bem articulados.

Começamos a sair de casa, a passeio. Vamos para a escola, aprendemos a escrever, fazemos novos amigos, começamos a nos relacionar. Acumulamos paixões platônicas de criança, tão efêmeras quanto intensas. Tornamo-nos adolescentes, e começamos a concretizar essas paixões. Passamos a tentar compreender o mundo, e a sentir que o mundo não nos compreende. Que as pessoas não nos compreendem. Constatamos que o mundo não faz sentido.

Construímos nossas vidas. Saímos de casa de nossos pais, em definitivo. Montamos nossos impérios. Fazemos suas escolhas. Nos sentimos fortes, altivos, independentes. Geramos frutos, sejam eles filhos ou amigos.

O tempo passa. Nossos pais e amigos começam a ir embora. Nos sentimos fracos, impotentes, dependentes. Não fazemos mais nossas escolhas. Passamos nossos impérios para frente. Voltamos pra casa, a passeio. Olhamos para a vida que construímos.

Constatamos que o mundo não faz sentido. As pessoas não nos compreendem. Não conseguimos mais compreender o mundo. Não há mais prazer em concretizar as paixões, e começamos a nos alimentar de paixões platônicas, por quem nos trata com respeito. Deixamos de nos relacionar. Perdemos nossos amigos. Desaprendemos a escrever, não queremos mais aprender. Voltamos pra casa de nossos filhos, em definitivo.

Não conseguimos mais articular bem os pensamentos. Não conseguimos mais articular as frases, não conseguimos mais falar algo que tenha sentido. Perdemos a capacidade de tomar banho sozinhos, e precisamos de ajuda para fazer nossas necessidades. Deixamos de correr, paramos aos poucos de andar, passamos a andar trôpegos, não conseguimos mais andar. Perdemos nossos últimos dentes. Perdemos nossa coordenação, e precisamos dos filhos para comer, para vestir, para nos dar banho e para limpar as necessidades que fazemos. Precisamos de colo, no último momento. Morremos completamente inocentes.

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2 respostas para A vida

  1. Myriam disse:

    É uma visão romântica e triste ao mesmo tempo. Confesso que tenho muito medo de envelhecer…

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