A Maior de Todas as Viagens


I.            

A espécie humana sempre teve atração pelo infinito. Sempre se sentiu incomodada em superar seus limites. Em enxergar mais longe, ir mais longe, estar em lugares onde ninguém esteve.

O inconformismo com a finitude fica evidente nas construções sociais do ser humano. O desejo pelo infinito e pela eternidade impulsionou a humanidade por toda a sua história. Boa parte dos rastros deixados por nossos antepassados, que permitiram compreender a história desde a antiguidade, diz respeito à morte e às expectativas decorrentes dela. Esse foi um dos questionamentos essenciais para o surgimento das religiões e para o desenvolvimento científico e tecnológico. Uma das molas propulsoras da humanidade é o medo da morte.

Com o tempo e o aumento da compreensão humana sobre o Universo, a irrelevância de nossa espécie tornou-se mais evidente. Antes, a Terra era o centro do Universo. Depois, conjecturou-se que ela girava ao redor do Sol. Com o tempo, descobriu-se que o próprio Sol é apenas mais uma estrela entre bilhões, na Via Láctea, uma galáxia espiral como tantas outras no Universo.

Quando tudo isso foi verificado, passamos a buscar explicações e possibilidades. Os questionamentos acerca de vida extraterrestre, por exemplo, aumentaram exponencialmente a partir do momento em que a sociedade aceitou a ideia de que a Terra é apenas mais um, entre bilhões de planetas, espalhados em bilhões de galáxias por aí.

II.

Imagine que você e mais algumas pessoas partiram para uma viagem rumo ao desconhecido, sem saber se vocês terão a chance de voltar. Alguns meses depois, encontram um povo que ninguém nunca imaginou que existisse de fato. Um povo com características muito diferentes, como os pelos no corpo, o formato do rosto e a cor da pele. Um povo que fala uma língua completamente estranha. Em um cenário de dicotomia entre o bem e o mal, há dúvidas se eles são humanos, humanóides ou outra espécie.

Poderíamos estar falando do encontro com alienígenas, se esse encontro não tivesse ocorrido de fato. Foi em 12 de outubro de 1492, quando Cristóvão Colombo chegou à Ilha de San Salvador, nas Bahamas, e encontrou os Lucayans, habitantes originais da região.

A inserção de todo um continente na realidade européia, até então dominada pelos mitos da Idade Média e sem consenso nem mesmo de que a Terra era redonda, foi responsável direta pela maior mudança de pensamento da história da humanidade. A existência de um novo continente impulsionou não apenas as grandes navegações, mas todo o Renascimento, com efeitos diversos. Entre eles, podemos enumerar a consolidação de novas rotas comerciais, a ascensão do colonialismo, a Reforma Protestante e a consolidação dos regimes absolutistas na Europa.

Quando Colombo atracou na Ilha de San Salvador e avistou seus habitantes, deve ter tido a mais estranha das sensações. A sensação de que todas as fantasias medievais de paraísos perdidos e locais fascinantes cheios de monstros e preciosidades eram verdadeiras.

Só que a sensação de “invasão alienígena” não era só de Colombo. A expedição de Colombo era de exploradores, e, no fundo, sabia que poderia encontrar alguma coisa. A sensação de perplexidade é dos Lucayans. Foram eles que que sofreram a “invasão alienígena” do Império Espanhol. Devem ter se perguntado: afinal, quem são eles? O que eles querem de nós? Eles são bons? O estranhamento foi muito maior da parte de quem não esperava a visita. Depois, todas essas perguntas foram respondidas. Da forma mais trágica possível para os Lucayans e para todos os povos pré-colombianos que habitavam as Américas.

III.

Em 05 de setembro de 1977, a nave Voyager I partiu do Cabo Canaveral. Até hoje, segue como o artefato humano mais distante da Terra. Está a aproximadamente 18,3 bilhões de quilômetros de nosso planeta. Isso representa 122 vezes a distância entre a Terra e o Sol, mas é pouco menos do que 1/500 de um ano-luz. No ritmo atual, viajando a pouco mais de 17 mil Km/h, a nave deve demorar mais 17.557 anos para percorrer um ano luz. Para se ter idéia, Próxima Centauri, a estrela mais próxima do Sol, está a 4,6 anos luz de distância. A Voyager I deve demorar 74.438 anos para percorrer essa distância.

Na prática, a Voyager I nos mostra que a máxima capacidade humana em percorrer distâncias não consegue dar conta nem de uma pequena parte de nossa vizinhança no Universo. A nave vai demorar quase 75 mil anos para percorrer a distância entre a Terra e a mais próxima das 200 bilhões de estrelas que formam a Via Láctea. Que, por sua vez, é apenas uma dentre as bilhões de galáxias existentes.

A Voyager II, lançada 15 dias antes, está um pouco mais próxima que a Voyager I, por viajar mais lentamente. As sondas Voyager foram lançadas não apenas para testar os limites da humanidade, mas para aumentar o conhecimento em relação ao Sistema Solar. A Voyager I passou pelos arredores do asteróide Belt, de Júpiter e de Saturno. A Voyager II passou perto de Júpiter, de Saturno, de Urano e de Netuno.

As sondas Pioneer 10 e 11, lançadas entre 1972 e 1973, também fazem esse mesmo percurso rumo aos limites do Sistema Solar.

IV.

No final, a descoberta da América e as missões Voyager e Pioneer são reflexos de um sentimento só: o inconformismo com o fim das coisas. A incompreensão e o inconformismo com a irrelevância do ser humano nos levam a desenvolver técnicas e a correr riscos para chegar onde ninguém esteve.

Esse inconformismo atinge a humanidade de duas maneiras: individualmente e coletivamente. Individualmente, queremos prolongar ao máximo nossa vida, desenvolvendo a cura de doenças, melhorando as condições de saneamento, tentando tornar nossa vida menos sofrível. Coletivamente, tentamos chegar mais longe, conhecer mais, habitar lugares nunca habitados, planejando passos mais ousados a cada geração.

A maior de todas as viagens é a da humanidade. Em um Universo desconhecido, que já existia muito antes de nós, contamos os nossos dias, junto com um pequeno Planeta, que gira em torno de uma estrela média, na periferia de uma galáxia espiral relativamente normal. Tentamos sobreviver, sem compreender a imensidão que nos cerca. Assim como os Lucayans, não compreendemos o que está ao nosso redor. Não fazemos ideia se o Universo que nos cerca é bom ou ruim.

No final, só sabemos uma coisa: que, no final de todas as coisas, só teremos alguma chance de sobreviver se andarmos juntos. Se não sucumbirmos à tentação fácil do individualismo e da intolerância. Se soubermos, ao mesmo tempo, olhar para o espelho e para fora, com a mesma sabedoria. Não como Leonardo, José, Maria, brasileiro, angolano, judeu, cristão, muçulmano ou qualquer outra coisa. Essa não é a nossa identidade. A nossa identidade, antes de qualquer outra, é a que dividimos com todos os outros: a de sermos humanos.

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2 respostas para A Maior de Todas as Viagens

  1. Vinicius Intrieri disse:

    Não posso deixar de lembrar do “Pálido Ponto Azul”, de Carl Sagan. Ótimo texto…

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