Todos Perdem Quando Política e Religião se Misturam


O Estado Laico

Nos últimos anos, um movimento na política nacional ganhou relevância entre diversos grupos políticos: a inserção da ideologia de grupos religiosos, especialmente católicos e evangélicos, nas campanhas políticas.

Católicos e evangélicos têm longa história no país. O catolicismo foi a religião oficial no Brasil durante todo o período de colonização portuguesa e também durante os reinados de Dom Pedro I e Dom Pedro II.

Na Constituição de 1891, promulgada após a Proclamação da República, o Estado brasileiro passou a ser laico. Já trabalhei a definição de Estado laico nesse espaço, é bom relembrar:

Estado Laico

O Estado brasileiro é considerado laico desde a Constituição de 1891. Isso quer dizer que, desde 1891, são admitidos cultos e manifestações de todas as religiões no país.

Atentem para a definição de Estado Laico: o laicismo não é conceituado como a ausência de religião na sociedade, mas como a independência entre o governo e os assuntos religiosos. A religião não interfere nos assuntos governamentais, e o governo não interfere nas manifestações religiosas. O laicismo tem origem o termo francês laissez, que significa “deixar, permitir, não interferir”. É esse o papel do Estado Laico.

A demanda por Estados Laicos nasceu na Europa do século XVIII, depois de uma longa história de influência da igreja na administração dos Estados Nacionais. E é um dos principais pilares da religião moderna, uma vez que pressupõe a liberdade religiosa e a igualdade de tratamento entre todas as religiões.

O Crescimento Evangélico no Brasil

A partir do início do século XX, as igrejas protestantes começaram a apresentar expressivo crescimento no número de fiéis. Em 1911, os missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg fundaram a Assembléia de Deus no Brasil. Era a primeira igreja pentecostal em solo nacional, juntando-se às tradicionais igrejas protestantes Batistas, Presbiterianas, Luteranas e Metodistas, com congregações no Brasil desde o século XIX.

O movimento evangélico tornou-se mais forte no país nas décadas de 50 e 60, com o estabelecimento de outras igrejas pentecostais no país. As mais notórias delas são a Igreja Quadrangular, a Brasil Para Cristo e a Igreja Deus é Amor. Elas compartilhavam muitos costumes da doutrina da Assembléia de Deus, como o ascetismo (a recusa religiosa do prazer)  e a busca por sensações associadas à espiritualidade. Em 1970, os evangélicos já eram 5,2% da população.

Foi então que surgiu o movimento que mudaria a composição religiosa do país. O neopentecostalismo provocou uma mudança essencial no paradigma das igrejas evangélicas brasileiras. Surgido em um cenário de repressão política, na década de 70, as igrejas neopentecostais pregam, essencialmente, a mesma busca por sensações associadas à espiritualidade das igrejas pentecostais. No entanto, reformulam o ascetismo, conferindo ao mesmo um tom materialista: enquanto as igrejas pentecostais apregoavam o ascetismo como forma de ir para o céu, as neopentecostais têm no ascetismo uma forma de conseguir “bênçãos”.

As principais igrejas neopentecostais são a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Apostólica Renascer em Cristo, a Igreja Internacional da Graça de Deus e a Igreja Mundial do Poder de Deus. Todas elas contam com uma característica em comum: o pesado investimento em mídia. Todas essas igrejas contam com programas de TV e rádio e um pesado portfólio de investimento em marketing. O objetivo? Demonstrar a grandeza das igrejas e como as pessoas são “abençoadas” ao frequentá-las, e atrair mais fiéis. Programas como o “Fala que eu te escuto”, transmitido nas madrugadas da Rede Record, são referenciais nesse tipo de propaganda.

Os nomes opulentos são estretégicos. A impressão de grandeza é um atrativo a mais para o público que essas igrejas querem alcançar: em geral pessoas com pouco estudo, residentes nas regiões periféricas das grandes cidades, com uma sensação histórica de menosprezo por parte do poder público.

É mais fácil acreditar na promessa de uma mudança de vida rápida quando você não tem nenhum outro alento. E também é inegável o fato de que muitas dessas igrejas (e não só as neopentecostais) desenvolvem uma admirável rede de ajuda mútua aos seus membros, que conta, muitas vezes, com a distribuição de cestas básicas e com visitas aos lares das pessoas com maiores dificuldades.

Não há condenação nenhuma no exercício de uma crença religiosa. A crença em qualquer divindade (ou a não-crença) é uma prerrogativa individual, que deve ser respeitada em qualquer ocasião. O problema começa quando as entidades religiosas tentam determinar o funcionamento da sociedade.

Religião e Política

Os nomes megalomaníacos das igrejas neopentecostais não são casuais. São uma estratégia bem articulada de marketing. As igrejas devem parecer infalíveis e “poderosas” para que as pessoas se sintam assim dentro dos templos. É esse o conteúdo da maioria das pregações religiosas: você vai ser vitorioso e bem sucedido, seus problemas vão acabar, você será curado de quaisquer enfermidades. Não entrando no mérito da validade de tais promessas, o fato é que, no cerne da filosofia dessas igrejas, está um estilo de vida individualista e voltado ao consumismo. Um estilo de vida em que os ensinamentos de amor e de compaixão da Bíblia cedem lugar, em muitos momentos, a uma lógica competitiva, concorrencial, retomando a velha máxima weberiana de que o sucesso na Terra reflete o sucesso da relação do fiel com Deus.

Reuniões de empresários ou de profissionais liberais são comuns nesses templos. É natural que, por trás de uma ideologia que prega o sucesso individual, em um ambiente coletivo ocorram discussões políticas e haja a gênese de um projeto de poder. Foi o que aconteceu com as igrejas neopentecostais.

Ainda na década de 90, alguns membros dessas igrejas concorreram a cargos eletivos, com o argumento de “resguardar os direitos dos evangélicos”. Sim, a preocupação essencial era em relação à liberdade de culto, afinal, na década de 90, ainda havia uma sombra de “perseguição” aos evangélicos por parte da maioria católica do país.

O ponto de virada dessa filosofia ocorreu entre 1998 e 2002, quando o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho concorreu à Presidência da República, tentando angariar para si o voto dos evangélicos. Não havia uma campanha organizada, apenas um uso da “marca” evangélico como forma de angariar votos. Nessa mesma época, Carlos Apolinário fez uma campanha semelhante a governador do Estado de São Paulo. O assunto não era mais tabu.

No entanto, a última década presenciou dois movimentos distintos, que merecem menção:

– A aceleração do crescimento no número daqueles que se declaram “evangélicos” no Brasil. No Censo de 2000, os evangélicos eram 15,4% da população. No Censo de 2010, passaram a ser 22,2%, o que representa um incremento de 16 milhões de pessoas em apenas 10 anos.

– A “neopentecostalização” de igrejas tradicionais e pentecostais. As igrejas tradicionais e pentecostais também fazem parte do grande corpo informal chamado “movimento evangélico”. Como parte de um mesmo movimento, o compartilhamento de cultura é inevitável. Só que os maiores produtores de “cultura” no meio evangélico são justamente as igrejas neopentecostais, que detêm o controle da mídia. Apenas as igrejas mais tradicionais, com uma base doutrinária forte, resistem a esse processo de “aculturação”, decorrente com o contato constante com esse tipo de cultura também aceito como evangélico.

Esses dois processos distintos provocaram uma mudança de paradigma importante nas igrejas evangélicas brasileiras: seus membros não são mais considerados “oprimidos” pela maioria católica do país.

E foi aí que as lideranças evangélicas cometeram seu maior erro: ao invés de compreenderem os ensinamentos de Cristo, que tinha cuidado especial pelos oprimidos da sociedade, como os pobres, leprosos e prostitutas, muitos líderes evangélicos influentes fizeram o contrário: tornaram-se opressores. Adotaram uma postura sectária e preconceituosa contra outras minorias da sociedade, como os movimentos LGBT e as religiões africanas.

Além disso, muitas igrejas evangélicas, contaminadas pela megalomania neopentecostal, organizaram-se em um projeto de poder. O reflexo desse projeto é a Frente Parlamentar Evangélica na Câmara dos Deputados, que é multipartidária e foi criada com aquele mesmo intuito inicial de “resguardar os direitos dos evangélicos”, mas se desvirtuou, sendo abrigo para pessoas que querem impor sua visão de mundo, atacando o Estado Laico, que foi concebido no Brasil, em 1891, justamente para atender aos interesses dos evangélicos.

A eleição atual

Esse projeto de poder não era tão determinante até a eleição presidencial de 2010, quando José Serra começou afazer uso intensivo das igrejas e seus pastores em sua campanha eleitoral. Os boatos a respeito de Dilma Rousseff foram espalhados prioritariamente nas igrejas católicas e evangélicas, provocando uma explosão de conservadorismo com reflexos na eleição atual.

Na eleição para a Prefeitura de São Paulo, o projeto de poder de alguns líderes evangélicos tornou-se nítido. Embarcando na onda neoconservadora que promove movimentos esdrúxulos como o “volta ditadura”, muitas organizações religiosas apóiam deliberadamente políticos que atendam aos seus interesses. A Igreja Universal do Reino de Deus coordena a campanha de Celso Russomano. Pastores pedem voto para José Serra durante cultos. O apoio de padres, pastores e líderes religiosos passa a ser disputado por todos os políticos. Eles não lutam por um estado laico, mas por um Estado em que sua visão religiosa seja privilegiada. Aí é que está a gravidade de enxergar a política sob um viés religioso.

Por outro lado, líderes religiosos que tentam influenciar os votos de seus fiéis não podem ser considerados como tais. Um dos princípios básicos de qualquer crença religiosa é o respeito à escolha alheia, o resto pela opinião alheia, o respeito pela visão de mundo alheia.

Isso revela um profundo menosprezo pelos fiéis por parte dos políticos e líderes religiosos. Os políticos buscam apoio nas igrejas por considerarem que os fiéis estão entorpecidos pelo “ópio do povo” e são mais fáceis de manipular. Os líderes, por sua vez, crêem que exercem influência sobre esses fiéis a ponto de determinar a escolha política deles. E ambos só fazem isso porque, para algumas pessoas, infelizmente, esses clichês acabam soando verdadeiros.

Conclusão

Nossa visão de mundo é fruto de nossas experiências pregressas, de nosso aprendizado cotidiano, da forma como encaramos a vida. E um valor essencial para a convivência social é o respeito pelas escolhas alheias.

Um gestor público deve lutar por um Estado laico, com liberdade de crença e de manifestação dessa crença para todos. Não deve lutar pelos interesses específicos de uma religião, sob pena de instalar um regime que seja opressivo aos demais.

Os líderes religiosos, especialmente os evangélicos, não devem lutar pela introdução de um regime repressivo por um fato simples: opressão atrai opressão. Quem oprime hoje, pode ser oprimido amanhã.

Não é algo generalizado e existem muitos líderes evangélicos que até hoje não toleram (com razão) a realização de campanhas políticas em igrejas. Mas muitos evangélicos, historicamente oprimidos, tornaram-se opressores. Pior que isso, tornaram-se pessoas que barganham apoio político em troca da certeza de que continuarão podendo oprimir outros grupos. Esse tipo de atitude é intolerável sob dois pontos de vista: o cristão, que guarda valores totalmente diferentes do que esses líderes pregam, e o social, que zela pela boa convivência entre os diferentes grupos sociais em um único espaço.

No final, é uma relação em que todos perdem: os políticos, que contaminam seu discurso de hipocrisia; os religiosos, que vendem sua fé em nome de um projeto de poder; e a sociedade, que vê a discussão política empobrecida e acaba mais propensa a ser comandada por maus políticos.

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11 respostas para Todos Perdem Quando Política e Religião se Misturam

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  4. Natalia Oliveira disse:

    Para mi o artigo acima me parece correto porém nós seres humanos erramos muito, pois algumas igrejas isso realmente acontece , muitos pastores que parecem mais políticos do que pastores só isso nãom seguinifica que só porque um faz algo errado é que todas as igrejas fazem a mesma coisa, a mídia muitas das vezes passam uma imagem completamente equivoca de uma religião que as pessoas que não sabem como essa religião é e acaba acreditando, e isso não é só com o povo evangélico mais como todas as outras.

  5. renan diaz disse:

    2 raças que precisam se manter distantes , pastores e politicos . Temos que criar uma UPP – UNIDADE DE PASTORES POLITICOS .

  6. Pingback: 10 passos para saber em quem você NÃO deve votar | Aleatório, Eventual & Livre

  7. Léo Rossatto disse:

    Parece que, felizmente, o efeito dessa política de políticos e líderes de tentar manipular o povo evangélico para conseguir votos não é tão grande quanto eles pensavam:

    http://www1.folha.uol.com.br/poder/1153308-engajamento-religioso-nao-ajuda-serra-e-russomanno-diz-datafolha.shtml

  8. Odi disse:

    Embora defenda a mesma ordem do discuro, não penso que todos perdemos. Perdem somente aqueles – a maioria da população – que estamos fora desse conluio formado por líderes religiosos e partidos políticos. Outro ponto de discordância é que hoje não são “em geral pessoas com pouco estudo, residentes nas regiões periféricas das grandes cidades, com uma sensação histórica de menosprezo por parte do poder público”, que fazem parte do grande circo que são as igrejas. Mas, lamentavelmente, pessoas com algum discernimento (eu escrevi algum), pois lhes falta qualquer discernimento sobre política e espiritualidade, dentre outros.

    • Léo Rossatto disse:

      Eu acho que os partidos e líderes perdem sim, no médio e longo prazo. Talvez ganhem no curto prazo, mas angariam a rejeição da população por conta disso (muito dos 46% de rejeição ao Serra são por conta do envolvimento dele com setores religiosos, desde a eleição presidencial).

      E talvez eu tenha feito uma generalização um pouco grosseira ao citar “pouco estudo”, mas o fato é que a sensação histórica de menosprezo por parte do poder público existe, e se alia a um outro fator: a descrença em relação à classe política. E, de fato, em muitos casos são pessoas com algum discernimento, mas presas em seus conhecimentos específicos, sem nenhum discernimento sobre política e espiritualidade.

  9. Léo Rossatto disse:

    Esse artigo também ajuda a esclarecer sobre o assunto: http://www.scielo.br/pdf/nec/n89/01.pdf

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