O Golpe de Estado nosso de cada dia


Roberto Civita e os filhos de Roberto Marinho estão reunidos nesse momento em uma teleconferência com o PSDB, os ministros do STF, Obama, Reinaldo Azevedo, o rabino Henry Sobel, os Alienígenas do Passado, Hitler (pensou que ele tinha se suicidado, né? Inocente!) e o líder dos Illuminatti para definir os próximos passos da estratégia perversa de retirar o maravilhoso governo brasileiro que está mudando o mundo para melhor há dez anos. Para condenar heróis nacionais como José Dirceu, que tem o mesmo papel de mártir de Tiradentes em nossa história. Para manipular a mídia e a justiça em nome dos interesses de uma elite inescrupulosa que já combinou com os Yankees a anexação da Amazônia e do Aquífero Guarani pela Exxon Mobil e pela General Electric. Tudo para acabar com o legado de nosso herói maior, de nosso ídolo, de nosso deus: o Lula.

O parágrafo acima, obviamente, é uma obra de ficção. Assim como é ficção, por outro lado, a demonização de gente como o próprio Lula, com pessoas dizendo que ele é o maior ladrão que o Brasil já teve, que é o demônio, o sapo barbudo, que dá “bolsa-esmola” para as pessoas, que ele e Dilma são a encarnação do Anticristo e vão fazer o Brasil entrar na i-ni-qui-da-de (abraço, Pr. Piragine).

O fato é que, em época de eleições, os ânimos se acirram de forma atípica. No Brasil, esse acirramento de ânimos é catalisado pela rivalidade burra entre os dois últimos partidos que detiveram o comando do país: PSDB e PT. Os dois são uma espécie de inimigos íntimos, que preferem se aliar ao diabo a entrarem em acordo.

PSDB e PT não conseguiram o papel de protagonismo que exercem hoje por acaso. São dois partidos com histórias diferenciadas, que estavam alguns passos à frente de seu tempo quando foram fundados. O PT, em 1980, reuniu sindicalistas, movimentos sociais e intelectuais em uma única sigla, formando o único partido de bases do país e um sistema de democracia interna que se tornou referência internacional. A fundação do PSDB, por sua vez, foi uma reunião de intelectuais que também tinham um modelo de país. Em 1988, vários políticos e intelectuais se reuniram para suprir uma lacuna política importante após a redemocratização.

No entanto, o poder modifica os partidos. O PSDB nunca mais foi social-democrata desde que assumiu o poder, em 1995. O PT nunca mais foi “de esquerda” desde que assumiu o poder, em 2003. Os dois partidos passaram a se importar mais com o poder do que propriamente com o projeto de país que ambos tinham. Fizeram coisas boas e ruins pelo país. Enquanto o PSDB estabilizou o país com o Plano Real, o PT fez um programa social que culminou na inclusão de milhões de pessoas na economia. Enquanto o PT escorregou com o mensalão, o PSDB até hoje lida com os fantasmas das mal-esclarecidas privatizações feitas pelo partido.

A questão é uma só: sendo inimigos íntimos, o PT é, por excelência, “antitucano”, e o PSDB é, por excelência, “antipetista”. E, para combater o adversário, aliam-se ao que há de pior na política brasileira: remanescentes da Arena, latifundiários, políticos que “roubam, mas fazem” e partidos que só se importam com cargos no governo.

Quando PT e PSDB foram criados, tinham um objetivo em comum: combater esse modelo político atrasado, patrimonialista, que misturava barganha política com vantagens pessoais. Quando deixaram de lado a preocupação com o país e passaram a olhar apenas para a permanência no poder, perderam sua capacidade de diferenciação e tornaram-se partidos comuns. E isso permitiu a ascensão de outros políticos e partidos “comuns” no cenário brasileiro.

Um exemplo está nas eleições estaduais e municipais em São Paulo. Em 1998, Marta Suplicy se aliou a Mário Covas no 2º turno paulista, com o objetivo de combater um “mal maior”: Paulo Maluf. Dois anos depois, Covas se aliou à Marta Suplicy contra o mesmo Maluf, na briga pela Prefeitura de São Paulo. Em 2002, a eleição de Lula, contra José Serra, representou a cisão definitiva entre os dois partidos. O grande artífice desse ódio mútuo, pelo lado tucano, foi o próprio José Serra, em sua obsessão doentia pela Presidência da República. Pelo lado petista, o ódio já vinha desde a década de 90 e se cristalizou quando Lula se tornou presidente em 2002, no 2º turno contra Serra.

Uma reflexão se faz necessária: se Serra enfrentar Russomanno, herdeiro do malufismo, no 2º turno paulistano, terá o apoio de Haddad? Se Haddad enfrentar Russomanno, terá o apoio de Serra? Tenho certeza de que não. Serra ou Haddad apoiarão Russomanno no 2º turno. Sinal de que o ódio político tornou-se de fato irracional entre as duas partes. O partido de Russomanno, inclusive, faz parte de duas bases de apoio: a do governo federal, do PT, e a do governo estadual paulista, do PSDB.

Enquanto isso, PT e PSDB continuam se engalfinhando e criando teorias da conspiração completamente sem nexo para justificarem atitudes questionáveis de seus políticos. Um vive em função do outro. Em função de impedir que o outro chegue ao poder. A maior decepção, para ambos, não é a cidade de São Paulo, o estado de São Paulo ou o Brasil entrarem em colapso: é o inimigo chegar ao poder.

Enquanto isso, surgem Russomannos e outros oportunistas por aí. Surgem sujeitos que criam partidos apenas para brigarem por cargos sem constrangimentos, como Gilberto Kassab. A ridícula administração de Kassab em São Paulo só mostra como a preocupação da maioria dos políticos está em como chegar ao poder e se aproveitar da máquina estatal, e não exatamente no que fazer pela cidade, pelo estado ou pelo país tendo o poder pra isso.

Hoje, o cidadão comum vê a política como algo banalizado, sem crédito, em que “todos são corruptos”. Um dos motivos para isso é o de que PT e PSDB preferiram investir com mais afinco em seus projetos de poder do que em seus projetos de país. E chegam à beira do ridículo para defender esses projetos de poder. E daí, além de lidar com o nível ridículo da política partidária no Brasil, temos que lidar com militantes malucos anunciando ameaças de Golpe de Estado a qualquer momento, de parte a parte, como se a democracia fosse um grande LEGO que se desmonta com um chute. Não é assim que as coisas funcionam. A não ser, é claro, que você acredite nos Illuminattis.

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6 respostas para O Golpe de Estado nosso de cada dia

  1. Pingback: Mensalão e os Leigos | Aleatório, Eventual & Livre

  2. Leonard Marques fonseca disse:

    O que acontece realmente é que dois partidos com projetos e ideais grandes para nosso pais se prostituiu para ter o maior controle do poder.
    A imprensa tem culpa? talvez em partes, mas uma parte ínfima, pois é certo que a educação em nosso pais deixa a desejar.isso gera cordeiros pronto para o abate que é a onda de boatarias politicas e partidos com bons marqueteiros.
    Posso dizer que a culpa é muito nossa, pois votamos por rasões erradas, por um determinado politico ser mais apresentável, ser fã dele a muito tempo, por um candidato ser engraçado ou mesmo já vi por um ser mais bonito que o outro.
    Poucos pensam em seus projetos, seu passado ou rasões que realmente valeriam votar.
    Depois carregamos esse fardo reclamando da culpa dos outros.

  3. Alexandre Rodrigues Alves disse:

    Texto ótimo, parabéns.

  4. ADRIANO DE BARROS disse:

    Você só esqueceu de uma personagem importantíssima: a imprensa. Onde a imprensa parcial entra na história do poder? Ela só tem lugar naquele primeiro paragrafo de ficção? O PT tem um mensalão no currículo e o PSDB não tem nada nem mesmo privatização mal feita (“os fantasmas das mal-esclarecidas privatizações feitas pelo partido” não existe para a maioria) é um partido limpo e honesto?
    Não sou petista, mas sou antitucano. O PT tinha um projeto para o Brasil e não apenas projeto de poder. O projeto que ele tinha, e tem, foi colocado em prática e aos trancos e barrancos está funcionando. Qual o projeto do PSDB (Serra, Aécio, Alkimim e Kassab)?
    O problema é que o PT para chegar ao poder, por em prática seu projeto, teve que se adaptar ao modo como é feita política no Brasil, caso contrário ele nunca chegaria ao poder nem se manteria. Seria mais um PSTU – aquele que só só sabe espernear e nunca faz nada de prático.
    Um exemplo é que antigamente o PT odiava o PMDB, mas em 2005 eles se aliaram, pois o presidente do Senado era do PMDB. Havia um pedido de impeachment contra Lula no Senado devido ao Mensalão. Hoje o PT se alia até ao Maluf pois aprendeu em 2005, que sem alianças, no formato como é o sistema político, não se governa. Ainda mais se tratando do PT que tem a adoração da imprensa.
    Quem quer fazer algo de relevante no Brasil em termos de poder e política tem de ser pragmático, construir alianças. Só evoluiremos mesmo com uma bela reforma política!

    • Léo Rossatto disse:

      Concordo que o projeto original do PT para o Brasil não era de poder, mas de país. Mas atualmente virou de poder.

      A imprensa é parcial? Sim. Mas ela é superestimada. Meio absurdo achar que a mídia tem um papel tão relevante assim. O neoconservadorismo, inclusive, tem muito mais a ver com boataria do que propriamente com o que é divulgado na mídia.

      O projeto original do PSDB é anterior a 1994. Era um projeto social-democrata, de equalização do Estado, com vistas a um projeto de bem-estar social. Obviamente, já no Plano Real, essa visão foi substituída pelo neoliberalismo.

      E o PT não precisava se aliar ao Maluf. Não pra eleição. Alianças são necessárias? Sim, obviamente? Mas PT e PSDB tem muito mais similaridades do que PT e Maluf, por exemplo. Esse ódio doentio de parte à parte só esfacela os partidos.

    • El Guapo disse:

      qual seria este projeto do PT, além de envergonhar o país (lembram-se do caso honduras) e de entreguismo para os bolivarianos?

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