Intolerância


Cartaz do filme “Intolerância, de 1916 (Fonte: Wikipédia)

Em 1916, D.W.Griffith, cineasta conhecido pelo clássico “O Nascimento de uma Nação”, compilou quatro histórias para fazer um filme. Uma d antigo Império Babilônico; uma da Judéia, na época de Cristo; uma da França, do massacre de São Bartolomeu; e uma dos EUA do início do século XX. O filme, com o nome desse texto, mostra como a história humana é permeada de intolerância com o próximo e é um clássico do cinema mudo, sendo influência de cineastas e escritores que ajudaram a definir o século XX, como Orson Welles e Charles Chaplin.

Hoje, quase um século depois, a intolerância persiste. Não apenas no esporte, como relatou com precisão cirúrgica Arthur Chrispin, nem na política, com as acusações de parte a parte, insufladas pela proximidade das eleições municipais. O esporte e a política apenas refletem o que virou a nossa sociedade.

Estamos cada vez mais impregnados em uma sociedade consumista, que propaga como um valor positivo a definição da identidade das pessoas através do que elas possuem ou do que elas podem consumir. O consumo ou a preocupação com o indivíduo não são ruins por si só. O que é ruim é o consumismo: quando as pessoas definem suas vidas em função do que consomem, e não de acordo com seu caráter. E também o individualismo, que é, simplificando muito, a preocupação com o indivíduo solapando a preocupação com o bem-estar coletivo.

O “estado de bem-estar social”, associado ao ápice do ciclo econômico fordista, nas décadas de 1950 e 1960, entrou em franca decadência desde então. Com a fragmentação, a flexibilização e a internacionalização do sistema produtivo, a partir da década de 1970, como resposta à crise do fordismo, o modelo concorrencial passou a reger não apenas a jornada de trabalho diária do trabalhador e as relações empresariais: passou a reger a maioria dos aspectos da vida. Desde os mais individuais, como o tempo que você gasta com seus amigos, até os mais abrangentes, como a concorrência entre cidades e nações por investimentos empresariais, que, a rigor, podem ser feitos em qualquer lugar do mundo.

Alguns teóricos dizem que é necessária ao menos uma geração para inserir determinados valores na cultura de uma sociedade. E também qualificam como o “tempo” de uma geração algo em torno de 25 anos. Em pouco mais de 30 anos, o individualismo consumista, que faz com que as pessoas compitam entre si e tenham que afirmar superioridade em todas as esferas de sua vida, enraizou-se na sociedade ocidental. E de forma mais cruel nos países latino-americanos, que se tornaram verdadeiras bombas-relógio sociais, conciliando desigualdade social com tímidos investimentos em educação por décadas.

A falta de crítica faz com que as pessoas enxerguem o mundo como o que elas estão acostumadas a enxergar – com a lógica das relações de trabalho. De acordo com essa lógica, o objetivo em uma empresa não é apenas ganhar dinheiro: é galgar posições para ganhar cada vez mais. É deixar de ser o trabalhador oprimido pelo empresário para ser o homem de confiança do empresário, com o objetivo de oprimir seus colegas em posição hierárquica inferior. No fordismo, a empresa era enxergada como uma organização hierárquica. No pós-fordismo destituído de senso crítico, todas as esferas da vida são enxergadas dessa maneira: o trabalho, a religião, o trânsito, a política, o futebol, os relacionamentos. Tudo impregnado de capitalismo concorrencial.

Essa é a chaga da nossa sociedade.  Isso faz torcedores agredirem pessoas indefesas em um estádio de futebol. Isso faz um político inventar mentiras sobre seus concorrentes para ganhar uma eleição a qualquer custo. O individualismo exacerbado, motivado pelo desejo consumista, é um câncer no tecido da nossa sociedade.

O efeito imediato é a completa falta de consideração com os demais membros da sociedade. A agressão e os crimes, em muitos casos, passam a ser elementos toleráveis para quem só se preocupa com os próprios interesses. Com isso, explode a violência e nasce uma sensação de medo generalizado na sociedade.

O medo produz uma demanda por segurança. As pessoas passam a vender suas liberdades individuais em nome da “sensação de segurança” que o poder coercitivo pode proporcionar. E aí é indiferente se o poder coercitivo é proporcionado pelo Estado ou se é comprado por sistemas de segurança particulares. O fato é que as liberdades individuais são negociadas, a interação com as demais pessoas é evitada e as pessoas ainda pagam por isso.

No final, a verdade é uma só: o próprio individualismo, quando cultivado no seio da sociedade, acaba se voltando contra ele mesmo. É um processo insustentável no médio e no longo prazo. A liberdade de consumo, em sua forma exacerbada, acaba sendo a grande responsável para que, no final, as pessoas negociem suas liberdades em troca de segurança.

No século XX, a discussão política se dava, basicamente, sobre duas formas de lidar com o materialismo: o materialismo capitalista, que remete à liberdade de produção e de consumo, e o materialismo histórico socialista, que remete à divisão dos bens produzidos em uma sociedade pelos seus membros. No século XXI, a pergunta deve ser outra: em nosso contexto global de consumismo exacerbado, de destruição de recursos naturais e de subordinação das relações sociais ao capital, o materialismo, em qualquer forma, ainda vale à pena? Será que não é melhor a sociedade tornar os bens materiais apenas um aspecto de nossas vidas, ao invés do motivo dela?

É esse o desafio da sociedade atual. É esse o legado do século XXI para o mundo. Ou o homem aprende a relacionar sociedade e natureza, voltando sua existência para os outros e tendo como prioridade desenvolver e respeitar as liberdades alheias, ou  chegaremos ao século XXII, daqui a quase cem anos, no mesmo cenário de intolerância histórica mostrado no século XX. E que persiste no século XXI em estádios de futebol, em campanhas políticas e nos mais diversos aspectos do nosso dia-a-dia.

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