Pacheco e seus filhos


Pacheco é um sujeito bacana. Trabalha todos os dias, não reclama pelo fato de ganhar pouco, tem uma família relativamente feliz, criada com o suor de seu trabalho. Não se mete em política, mas amigos próximos confidenciaram que, no fundo, ele sempre quis a volta da ditadura. “Naquela época havia ordem, havia respeito às instituições, as crianças tinham que cantar o hino nacional toda manhã na escola”.

Pacheco é uma ótima companhia, mas é complicado conversar sobre política ou sobre esportes com ele. Extremamente nacionalista, ele prefere ignorar todo e qualquer comentário negativo a respeito do país. Na política, ele acha que “todos são corruptos, porque não servem ao país”, e nos esportes ele considera os brasileiros sempre injustiçados. Se o Brasil toma 111 a 0 da Argentina no Rugby é porque os juízes roubaram. Se perde na Fórmula 1, é porque sabotaram o carro. Se perde no futebol, o esporte sagrado, é porque há uma conspiração internacional para acabar com o nome do Brasil.

Pacheco tem dois filhos. Sua chatice nacionalista traumatizou os dois, formando neles caráteres distintos. Eles são a herança de Pacheco, para o bem e para o mal. E têm posturas diferentes em relação ao futebol. É hora de conhecê-las:

1) Thiaguinho Pacheco

Thiaguinho é aquele filho malandrão do Seu Pacheco, o que quer tirar o máximo de vantagem com o mínimo esforço, e para isso usa de uma única estratégia: a de ser engraçado  para disfarçar a falta de conteúdo.

Quando é conveniente, ele apoia a seleção. Mas sem muito compromisso, afinal,  esporte não pode ser tratado como coisa séria, é apenas diversão. Pra ele, o futebol é uma grande coluna social, que faz com que ele seja amigo de celebridades, esteja em eventos e até termine atuando em outros setores, como narração de jogo de videogame e reality show de música.

Envolve-se em negociações estranhas e puxa o saco do seu patrão, porque não tem caráter mesmo. O importante é levar vantagem. Mesmo que a vantagem, no fim das contas, seja do seu patrão, que ajuda a definir as regras do jogo. Ninguém precisa saber disso. Se a seleção joga cinquenta vezes por ano e os clubes jogam mais cem vezes, está ótimo, pois dá audiência.

Geralmente, além das celebridades, anda acompanhado de gente sem opinião nenhuma. E isso por um motivo simples: andando com gente insossa e sem opinião, ele não precisa pensar. Ele não é incomodado. Ele nunca terá que lidar com a realidade de que é burro e de que não tem conteúdo nenhum.

É o filho mais querido do pai, apesar de dizer aos amigos que acha o pai louco e de fazer piadas sobre ele. E vai vivendo de futilidade em futilidade, porque é só assim que ele sabe viver.

2) Mauro César Pacheco

Mauro César sempre foi o filho rebelde. Quando o professor de redação falou na sala de aula que “todos estavam no mesmo sistema capitalista, todos tomam Coca Cola”, ele levantou revoltado e falou “Mentira! Eu tomo Pepsi!”. O professor riu e respondeu “Tudo simboliza a mesma coisa”

Passou a criticar algumas posições ufanistas do pai, a ponto de brigar quase sempre com ele. Passou a falar que “todo político e dirigente é corrupto”, sem fazer distinção. Pra mostrar que era diferente, começou a acompanhar os campeonatos europeus. “Bom mesmo é Sunderland x West Bromwich pela Premier League, exemplo de organização e qualidade”. Começou a usar o possessivo MEU antes de se referir a qualquer clube da Europa e a chamar os brasileiros de “brasileirinhos patéticos”. Na América do Sul, torcia para a Argentina, SINÔNIMO DE RAÇA, ignorando que os dirigentes de lá eram tão estúpidos quanto os daqui. E disse que Pelé não era o melhor da história porque nunca ganhou um clássico contra o Real Madrid.

Além disso, tomou parte na campanha “Abaixo a seleção brasileira e viva os clubes”, argumentando que a seleção tira jogadores dos clubes.

Um dia, Maurinho foi discutir a respeito do futebol da seleção brasileira com seu pai. Enquanto usava argumentos como “a seleção tá tirando jogadores do meu time sem pagar nada”, o pai tentava falar que eles “têm orgulho em vestir o manto canarinho”.

No final, pra variar, eles não se entenderam. Brigaram, discutiram, quebraram o pau. Maurinho avalia se vale à pena sair de casa e se assumir estrangeiro, tal como o primo Diogo Pacheco.

Dona Pachecona

Como em toda família que se preze, a conciliadora é a mãe. Só que Dona Pachecona não consegue se fazer entender pelo Pacheco, pelo Thiaguinho e pelo Maurinho.

Ela entende que existe muita coisa errada sim, mas sabe também que, se não fosse a seleção brasileira, o futebol daqui não teria metade da importância que tem hoje. Sabe que a Copa do Mundo ainda é o principal evento esportivo do mundo que envolve um único esporte.

Ela também tem ciência de que o problema não é conceitual. Que a culpa não é da seleção em si, mas da CBF, que não para o Brasileirão em datas FIFA. E dos clubes, que se submetem a isso.

Sabe que os clubes deveriam se insurgir contra os dirigentes corruptos, assim como a população deveria se insurgir contra os políticos corruptos. Mas não fazem isso porque a cartolagem está envolvida em uma troca sem fim de favores com a CBF e com a TV em que trabalha Thiaguinho.

Dona Pachecona acha que os jogadores não sentem mais orgulho de vestir a camisa da seleção por a considerarem desvalorizada e que o Brasil só continuará sendo grande no futebol enquanto valorizar sua seleção. Ela sabe que marcar jogos para ganhar dinheiro ou em torneios esdrúxulos fora das datas FIFA não é uma boa estratégia para isso. E que é necessário disciplinar o calendário nacional para que os jogos da seleção não causem prejuízos aos clubes.

Só que ela não consegue explicar nada, porque passa o tempo todo envolvida em apartar as brigas de Pacheco, Thiaguinho e Maurinho. E vai ficando cada vez mais perdida. Assim como estão perdidos Pacheco, Maurinho, Thiaguinho e todos os atores do futebol brasileiro.

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5 respostas para Pacheco e seus filhos

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  2. Lourenco Filho disse:

    Quem é o Pai ?? É Rica Perrone??

  3. Rafael Leite disse:

    Ainda prefiro a opinião do Maurinho a falta do Thiaguinho. Isso sem falar da Zorra Totalização do futebol que me irrita profundamente.

  4. Diego disse:

    O Mauro Cezar ano passado nao cansava de elogiar o artilheiro da série B do campeonato Argentino,dizia que os clubes brasileiros estavam perdendo a chance de contratar um grande jogador.
    Esse ano o Bruno Mineiro é artilheiro da “Serie A” e nao passa de um Josiel versao 2012.O Bruno Mineiro pode até ser o Josiel 2012,mas qual a lógica de exaltar o atacante da 2ª divisão argentina e menosprezar o artilheiro da “serie A” brasileira?

    O bom do Mauro Cezar é que ele fala o que pensa,o problema é o que ele pensa!

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