Quando o amor vence o egoísmo


Nenhum cientista jamais conseguiu explicar o amor monoteísta entre um homem e uma mulher. Porque ele é antinatural, é sobrenatural, vai contra as leis da natureza. Basicamente, se você amar aos outros ao invés de se preocupar apenas consigo mesmo, você tem mais chance de se dar mal evolutivamente. É o argumento que Richard Dawkins (que é ótimo cientista quando não mistura seus trabalhos com sua militância ateísta) utiliza em seu clássico livro “O Gene Egoísta”, de 1976.

Geneticamente falando, teríamos todas as razões para ter o máximo de parceiras sexuais possíveis, no caso dos homens, e o máximo de parceiros sexuais possíveis, no caso das mulheres. Tendo um maior número de parceiros ou parceiras, você tem mais descendentes, mistura seu material genético com mais materiais genéticos e tem maior chance de sucesso na cadeia evolutiva, sendo mais bem sucedido, de acordo com a linha argumentativa de Dawkins e outros cientistas evolucionistas.

Ok, tudo parece bonito e bem embasado do ponto de vista teórico. Por isso o amor monogâmico, entre um homem e uma mulher, é visto de forma antiquada por parte da sociedade. O egoísmo evolucionista é mais do que um fator científico: é um fator cultural que ajuda a mover a mentalidade das pessoas em determinada direção. Não tenho embasamento técnico para discutir aqui sobre questões intrincadas como a Teoria da Evolução e a sua validade (ou a abrangência dessa validade), mas sou obrigado a admitir que, independentemente da validade da teoria, a lógica evolucionista tornou a sociedade mais egoísta e mais centrada no sucesso individual.

Quando um homem e uma mulher se unem para viver um projeto de vida em comum, alguns amigos próximos celebram isso, felizes por essa decisão. Porque não é uma decisão natural e fácil. Pelo contrário, é uma subversão da lógica do sucesso individual, é uma atitude nobre, altruísta e de entrega. Um casamento é uma prova para a sociedade de que os valores individualistas não precisam necessariamente triunfar.

Nesse sentido, construir uma vida junto com alguém é uma missão difícil e valiosa. Uma das coisas mais comoventes que existem são os casais de idosos que mantém a alegria e a cumplicidade da juventude. Porque a sociedade sabe que eles são pessoas de um caráter raro, são vencedoras, souberam lutar e vencer a concepção individualista da vida.

Compartilhar a vida com outra pessoa não faz de ninguém um herói, mas conseguir fazer essa pessoa feliz faz. Em um casamento, o mais importante não é você, é a outra pessoa.

Muitos já sabem, mas me caso nesse final de semana. Na verdade, já estou casado para a sociedade, em cartório, mas prefiro considerar válida a bênção religiosa, a cerimônia envolvendo a família e os amigos. É melhor se alegrar celebrando uma união improvável e uma aventura que vai contra as probabilidades com aqueles que você ama.

Junto com a Kelly, embarco agora nessa aventura. Não sei o que a vida me reserva. Problemas virão, incertezas ocorrerão, lágrimas e alegrias serão compartilhadas. O objetivo é nadar contra a corrente e compreender a cada dia que amar vale a pena. Não porque o amor é transgressor, mas porque o ponto mais próximo da felicidade que podemos encontrar nessa vida é a sensação maravilhosa de fazer feliz uma pessoa a quem o seu coração se apegou.

Independente das alegrias, das tristezas ou das realizações, a intenção é uma só: conseguir o feito heroico de, em algumas décadas, ser, junto com a Kelly, um casal de idosos que mantém a alegria e a cumplicidade da juventude. Para isso, conto com a ajuda de Deus, que sempre nos dá mais do que merecemos, das famílias, que de algum jeito nos fez chegar bem até aqui, e dos amigos, que tem se mostrado tão especiais em todos os momentos.

Agora é amar e nadar contra a corrente até o fim da vida. É mais difícil, mas também é mais compensador.

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3 respostas para Quando o amor vence o egoísmo

  1. Rodrigo disse:

    Parabens pelo casamento, Leo. Que Deus abençoe a voces e que seja muito felizes.

  2. philgeland disse:

    Antes de mais nada, parabéns pela decisão! Sou casado a mais que oito anos e, embora já passávamos por dificuldades, não me arrependo de ter “embarcado neste navio”, por assim dizer, pois sei que fiz a escolha certa. (Nenhuma ciência poderia poder provar isso ou dar conselho algum). É isso que importa. Boa viagem!

    Mesmo assim, me sinto obrigado a defender o coitado do Darwin cuja teoria está sendo abusada tanto. Aquilo que você menciona em alguns trechos do post, parece ter mais a ver com o darwinismo social do que com a própria teoria.

    Há muita coisa a comentar a respeito …

  3. achrispin disse:

    Que seja uma bela viagem, camarada. =)

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