Ser feliz


Quando éramos crianças, as meninas da 4ª série pediam dinheiro para suas mães, iam no bazar, compravam um caderno pequeno, de capa dura, encapavam, colocavam um papel decorado na capa e escreviam em letras garrafais CADERNO DE ENQUETE.

Nesse caderno, dentre várias perguntas como “que profissão você quer ter?” “qual é sua matéria preferida?” e “você gosta de alguém da sala?”, uma pergunta, sempre deixada em segundo plano pela maioria da criançada, chamava a atenção: “qual é o seu sonho na vida?”. Não era a pergunta que chamava a atenção em si, mas a maioria das respostas, absolutamente semelhante: “ser feliz”.

Pelo visto, desde a infância as pessoas da geração atual inseriram em suas mentes esse sonho. Filmes, novelas e seriados falam dessa busca incessante pela felicidade, que para alguns tem vários sinônimos: sucesso, dinheiro, fazer o que se quer quando se quer. A busca pela felicidade, seja ela o que for, anda tão valorizada que existe até um projeto para se incluir a “busca pela felicidade” na Constituição Federal.

Por mais que a “busca da felicidade” se torne algo tão efetivo quanto a “função social da moradia”, se for aprovada, a preocupação só mostra que de fato a felicidade é considerado algo importante para a nossa geração. É um valor não apenas prezado: é um valor supremo. E aí é que está o grande erro.

“Ser feliz” é um objetivo estritamente individual. A busca desenfreada pela felicidade culmina, na maioria das vezes, no individualismo. E isso porque o conceito que a nossa geração cunhou do termo felicidade está ligado, em boa parte das vezes, ao reconhecimento pelos pares ou à capacidade de consumo.

“Ser feliz” como objetivo de vida tornou-se algo tão natural que nem paramos pra pensar se ter esse objetivo de vida é o melhor que podemos fazer. Não paramos pra pensar no que é a felicidade. E se a felicidade for ver as pessoas ao seu redor mais felizes, o mundo um pouco melhor, se a felicidade estiver em viver uma vida simples e fazer algo que se gosta apenas?

A felicidade pode ter a ver com outras perguntas do caderno de enquetes. Talvez a própria “você gosta de alguém da sala?” (ser amado), ou se não a “como você se vê daqui dez anos?” (realização). Pode ser também a “você acredita em Deus?” (fé) ou a “qual é a sua matéria preferida?” (ânsia pelo conhecimento). Talvez seja até o “qual é a sua comida preferida?”

A verdade é uma só: a felicidade completa e irrestrita não existe nas condições atuais. E nem deve existir. A vida é feita de momentos de felicidade e de momentos de tristeza. E ambos são necessários. A felicidade revigora e a tristeza nos faz pessoas melhores. Mais do que isso: compreender os momentos de tristeza e aprender com eles vai tornar os seus momentos felizes mais completos.

E o começo do caminho pra isso é retomar a inocência que tínhamos quanto preenchíamos os cadernos de enquete na quarta série, compreendendo que “ser feliz” é algo muito mais amplo e complexo do que “estar feliz”. Ser feliz é viver a vida e aprender com ela a cada dia, por mais que as lições pareçam duras demais às vezes.

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Uma resposta para Ser feliz

  1. Conrado disse:

    Felicidade pra mim é perenidade. O nirvana. Estágio do qual não se desce. Felicidade é e só pode ser sempiterna. Destarte, a expressão “momentos felizes” só tem sentido poético, como “momentos de morte”. Tudo o que nos resta são momentos de bem estar e momentos de atribulação. Quem não tem muitos momentos de bem estar costumeiramente vive dizendo que é feliz.

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