Sobre Babás e Babacas


A Internet é maravilhosa em propiciar a democratização da informação e possibilitar a postagem e a discussão de textos sobre quaisquer assuntos. A proliferação das redes sociais favoreceu a viralização da informação, tornado-a acessível a todos os que optam por compartilhar conteúdos na rede.

Essa democratização tem seu lado sombrio, ao tornar comuns manifestações de preconceito amplamente condenáveis pela opinião pública. O caso mais recente é o da mulher que foi viajar com os filhos e a babá e escreveu um texto imenso com reclamações recorrentes da mesma, como se a babá fosse obrigada a fazer o papel de mãe que a mãe, enquanto socialite sustentada pelo marido, não faz (ia colocar o texto aqui, mas aparentemente ele foi apagado). O fato é que toda semana aparece pelo menos um texto nesse tom.

Não é surpreendente a objetificação de babás em um país conhecido por tratar mulheres como objetos, inclusive de cunho sexual. Também não surpreende a postura preconceituosa, uma vez que o Brasil não está mais preconceituoso do que há dez ou vinte anos atrás, como as redes sociais fazem parecer. O fato é que a democratização da informação só está expondo o preconceito que sempre existiu em nossa sociedade.

No caso da babá, a atitude da “patroa” não surpreende. Principalmente se levarmos em consideração o fato de que ela é sustentada a pão de ló pelo marido endinheirado e passa o dia todo em casa em fazer seus afazeres domésticos, enquanto a babá cuida da criança que a mãe deveria cuidar. É uma pessoa ociosa, com valores ociosos e fúteis. Um tipo que sempre existiu por aqui, mas que a sociedade ignorava até pouco tempo atrás. É bom que as pessoas conheçam esses exemplos e se escandalizem com eles. Não é normal tratar uma babá como objeto ou ser uma mãe ausente. Pais e mães ausentes, que compensam sua ausência com festas, viagens e presentes, formam filhos mimados e individualistas, na maioria das oportunidades.

Mas a reflexão vai além. Será que não estamos estamos agindo como a mulher que objetifica a babá, em muitas oportunidades? Obviamente não de forma tão explícita, mas com atitudes cotidianas egoístas que não percebemos que fazemos. Será que o nosso espírito crítico, tão aguçado contra quem nos cerca, não está nos cegando para nossas próprias fraquezas?

A mãe da criança e a babá são produtos da sociedade. A mãe provavelmente trata a babá assim porque foi condicionada a fazer isso. Da mesma forma, muitos ainda consideram o envolvimento sexual de funcionários com patrões ou de vendedores com compradores de produtos uma forma normal de evoluir profissionalmente. E a babá aceita seu papel subalterno, porque vai poder falar para seus amigos e parentes, normalmente com baixo poder aquisitivo, que viajou com a patroa. Tudo vaidade. Tudo egoísmo babaca.

Talvez sejamos todos babacas, em algum nível. Talvez só a mãe da criança seja babaca. Talvez a própria babá seja babaca. Talvez a criança cresça mimada e babaca. Ou talvez o babaca seja eu e esse texto faça tanto sentido quanto o GPS da idosa belga que mandou ela para a Croácia ao invés de mandá-la para Bruxelas (http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/bbc/2013-01-14/falha-em-gps-faz-idosa-a-caminho-de-bruxelas-parar-na-croacia.html).

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Uma resposta para Sobre Babás e Babacas

  1. Fui dos raros a não interpretar o texto como necessariamente preconceituoso nem a dondoca como necessariamente fútil e relapsa quanto à educação dos seus filhos. Ela não disse (nem deixou subentendido) isso. Ela disse que a babá cuida da criança, brinca com ela na praia etc. Esse é o trabalho de babás. A autora escreveu o texto para comentar a postura dela quando viaja em companhia da babá, da orientação para não usar room service (eu próprio procedo da mesma forma). De como proceder quando o casal vai a um restaurante bacanérrimo e não acha que deve levar a companhia da babá. Eu já viajei a trabalho e fiquei satisfeito por receber mais de R$ 20 por refeição, neste caso a refeição custaria talvez o décuplo disso. Aliás, sequer o texto é sobre reclamações, e sim de dicas de como ela lida em situações embaraçosas (ou para evitá-las).

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