A Tragédia e o Estereótipo


Na madrugada do domingo, dia 27 de janeiro, Santa Maria viveu uma das maiores tragédias já vistas no Brasil. O incêndio na casa noturna Kiss (não vou chamar de boate, pra mim, boate = boite = casa de tolerância), após o contato de um sinalizador com a espuma de isolamento acústica provocou mais de 200 mortes, mais de cem feridos sendo atendidos em hospitais da região, e um monte de histórias interrompidas e traumas permanentes em meio a uma sucessão de erros que devem ser investigados pela polícia e julgados pelo Poder Judiciário.

Como toda tragédia recente, essa também teve sua repercussão nas redes sociais. E, infelizmente, as redes sociais têm afirmado estereótipos de forma intensa a cada evento relevante que mereça comentário. Muitas pessoas emitem as suas opiniões, e, obviamente, muitas delas são dissonantes. Para não dizer absurdas.

O que é um estereótipo? Um estereótipo nada mais é do que uma imagem preconcebida de uma pessoa ou de um grupo de pessoas na sociedade. Em muitas oportunidades, é usado como elemento de segregação social. Um estereótipo tanto pode ser um “tipo ideal”, em uma conotação quase weberiana, quanto algo negativo, segregado, utilizado de forma pejorativa e excludente por boa parte da sociedade.

Estereótipo tem a ver com “impressão”. Na sociedade moderna, passou a designar um conjunto de características, geralmente pejorativas, que define certos tipos sociais. Nesse contexto, a amplificação da disseminação da informação nos últimos 50 anos teve uma consequência social importante: com a informação acessível a todos, as distâncias diminuídas e a relativização de coisas como fronteiras nacionais, a identidade se tornou algo muito mais importante. Se a pessoa não se identifica pelo amor à sua cidade, estado ou país, procura se identificar por outros aspectos da vida, como a religião (ou a não-religião) ou o consumo (é fácil perceber que fãs de Justin Bieber ou Neymar, por exemplo, são meros consumidores do que eles produzem – e eles apenas música ou futebol, mas um estilo de vida específico).

As redes sociais tem uma outra característica: há uma liberdade quase completa de emissão de opiniões. Esse oceano de informações é ótimo, mas também é bem poluído. E, assim como um litro de óleo contamina um milhão de litros de água potável, o que é negativo contamina todo o resto. Em termos práticos: o destaque se dá pela audiência conquistada, e não pela qualidade do que se escreve.

Muitas opiniões acabam tendo mais audiência por despertarem revolta, e não compaixão. E essa revolta está frequentemente associada à confirmação de estereótipos anteriormente estabelecidos, com o  adicional da generalização barata. Sendo assim:

– Alguns idiotas dizem que “se as pessoas estivessem na igreja e não na balada não estariam mortas”, e as pessoas aproveitam para generalizar todo cristão como idiota.

– Ateus ficam espalhando fotos de pessoas mortas no Facebook, e todo ateu é qualificado como idiota.

– Pessoas dizem que a culpa é do governo, ou por fiscalizar mal, ou por não fiscalizar, ou por deter o “monopólio da fiscalização”, e todo político é qualificado como idiota.

– Pessoas dizem que “só falam da tragédia porque foi com universitários ricos”, e todo mundo que faz uma universidade pública é qualificado como idiota.

– Pessoas dizem que “tinha que ser no Rio Grande do Sul pra usarem sinalizador num ambiente fechado”, e todo gaúcho é qualificado como idiota.

– Pessoas dizem que “ai, porque foi no Sul esclarecido (feat. Faustão) e não no Nordeste burro?” e todos os nordestinos são qualificados como idiotas.

Todos esses julgamentos esdrúxulos e torpes aconteceram, e só revelaram preconceitos prévios com estereótipos generalistas pré-concebidos. E revelam duas tentações:

1) Temos um desejo patológico de procurar culpados e julgar os outros como forma de afirmação: julgar e condenar alguém é uma forma de dizer “não sou igual a ele”. É uma forma de se afirmar para a sociedade, dizendo “vejam só como eu não gosto de comportamentos condenáveis e sou um cara legal”. Isso é especialmente recorrente nas redes sociais. Assim como é recorrente a procura obstinada por culpados em qualquer tragédia. Culpar alguém e condená-lo previamente, mesmo sem as informações necessárias, é um mecanismo psicológico para as pessoas superarem momentos extremos. A vingança sacia momentaneamente o  inconformismo proporcionado pela situação, ainda que gere um enorme vazio depois.

2) Temos um desejo patológico de definir as pessoas em estereótipos negativos como forma de afirmação: a separação pejorativa em estereótipos é o inverso da identificação. É uma afirmação de não-identidade. Estereótipos são simplificações grosseiras para abarcar a maior parte dos comportamentos sociais.  Sendo assim, fazem com que individualmente as pessoas se sintam bem. Estereotipando você se afirma e se sente melhor do que todo um grupo social. Por isso é uma tentação tão recorrente.

E daí?

Não existe um procedimento comportamental em tragédias. E nem deve existir. Porque determinar como alguém deve se comportar é pedante, arrogante e estúpido. A aprovação ou a reprovação ao comportamento alheio devem ser coisas individuais, que no limite fazem você se aproximar ou se afastar da pessoa.

A tragédia é, antes de qualquer coisa, um momento de consternação. Quando algum amigo perde um ente querido, é muito mais alentador dar um abraço sincero e silencioso na pessoa do que falar por duas horas a respeito, discutindo todas as implicações filosóficas da mortes e todas as possibilidades além dela.

Imagino que, nesse tipo de tragédia, as pessoas poderiam fazer o mesmo. Obviamente não dá pra dar um grande abraço coletivo nas redes sociais, e isso certamente seria banalizado. Mas é possível manifestar consternação e tristeza com o ocorrido. O ensinamento cristão de “se alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram” é bem apropriado.

Também é bom imaginar que existem coisas mais importantes que a nossa necessidade de afirmação no mundo. Não precisamos nos destacar sempre. na verdade, não é bom ter destaque quase nunca. A discrição é sempre boa para não distorcer nosso caráter, e a popularidade pode acabar nos tornando pessoas arrogantes. Poder, fama e dinheiro em geral são ótimos deturpadores de caráter, e devem ser sempre apreciados com parcimônia.

Mais importante, no final, é entender que cada pessoa é fruto de suas experiências prévias e de todas as influências que sofreu durante a vida. Não existem apenas pessoas “boas” ou “ruins”. Na verdade, todos nós somos pessoas com características boas e ruins, e temos que nos esforçar constantemente para que as características boas floresçam e as características ruins permaneçam incubadas, na alegria ou na tragédia.

De resto, ficam os pêsames aos familiares e amigos dos mortos de Santa Maria, a torcida pela recuperação dos feridos e a disposição para ajudar, ainda que de muito longe, da forma que for possível.

E um abraço!

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2 respostas para A Tragédia e o Estereótipo

  1. Pingback: A Teoria Multiplicativa da Disseminação dos Preconceitos Deterministas | Aleatório, Eventual & Livre

  2. Carol do Dú disse:

    – Alguns idiotas dizem que “se as pessoas estivessem na igreja e não na balada não estariam mortas”, e as pessoas aproveitam para generalizar todo cristão como idiota.
    Infelizmente mto vrdd isso…. Como se dentro de quatro paredes a pessoa fosse imune a qualquer tipo de retaliação… Esses dias passou na TV uma reportagem de um “cabra” que foi morto dentro da igreja, na vila Brasilândia…

    Também é bom imaginar que existem coisas mais importantes que a nossa necessidade de afirmação no mundo. Não precisamos nos destacar sempre. na verdade, não é bom ter destaque quase nunca. A discrição é sempre boa para não distorcer nosso caráter, e a popularidade pode acabar nos tornando pessoas arrogantes. Poder, fama e dinheiro em geral são ótimos deturpadores de caráter, e devem ser sempre apreciados com parcimônia.
    E como precisamos prestar atenção nisso, né?! Isso me lembrou aquele filmaço: Advogado do Diabo e o livro de Eclesiastes, quando alimentamos nossa vaidade para essa nossa necessidade de afirmação, é como se a caixa de “Pandora” fosse aberta…

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