A Teoria Multiplicativa da Disseminação dos Preconceitos Deterministas


Introdução

São cada vez mais comuns as manifestações de preconceitos cotidianas, ainda que boa parte dos preconceitos não seja socialmente aceito. A tragédia de Santa Maria já havia provocado muitas manifestações desse tipo. No último fim de semana, uma verborrágica entrevista de Silas Malafaia no programa de Marília Gabriela falando um monte de groselha sobre homossexualidade serviu para requentar a discussão sobre o tema. Que continua aí pelas redes sociais, mas não é o tema desse texto.

O que é preconceito?

Antes de definir qualquer coisa, é bom fazer uma reflexão simples: olha, não adianta falar que “eu nasci assim e vou morrer assim”, porque o preconceito não é biológico, é uma construção social.

Preconceito, como o nome diz, é um conceito pré-concebido contra uma pessoa ou um grupo social, étnico, religioso ou o desprezo prévio por uma atitude característica de um grupo. Todo preconceito envolve, de uma forma ou de outra, a discriminação, mesmo que ela seja feita de maneira inconsciente, originada em uma construção mental negativa e estereotipada.

Por outro lado, existem preconceitos que nascem em reação a alguma experiência prévia negativa. E não adianta bancar o cara legal e falar que você não tem preconceito contra nada ou ninguém. Todo mundo, em algum grau, acaba criando algum preconceito após viver experiências traumáticas.

Mas o problema não é o conceito negativo em si, e sim a postura sectária gerada por esse conceito negativo: quando um preconceito serve como base para a segregação, ele passa a ser realmente prejudicial para a sociedade. E a postura segregacionista faz, via de regra, com que o preconceito seja determinista, tendendo para as análises superficiais e dicotômicas. Esse tipo de preconceito, que será estudado aqui, é o preconceito determinista, no sentido de que de fato o preconceito ajuda a determinar a decisão do agente em determinado processo decisório.

A Disseminação do Preconceito

O preconceito, assim como alguns vírus, pode permanecer latente em uma pessoa durante toda a vida, sem se manifestar. Para se manifestar e se disseminar, os preconceitos precisam necessariamente se combinarem com os preconceitos de outras pessoas, disseminando-se.

Nesse sentido, o novo paradigma informacional proporcionado pela Internet acabou fazendo com que os preconceitos se espalhassem em velocidade muito maior do que anteriormente. A amplitude da disseminação passou a ser muito maior com as redes sociais. E isso porque, nas redes sociais, toda opinião é pública.

Quando as opiniões ficavam restritas aos almoços de família, por exemplo, elas eram confinadas em um espaço específico, de pouca repercussão. Hoje as redes sociais tornaram esses espaços confinados muito mais raros, e aqueles preconceitos antes destilados nos almoços de família acabam reverberando muito mais.

Essa mudança de paradigma pode ser boa ou ruim. Se, por um lado, expõe aspectos da sociedade que não eram explícitos e agora podem ser combatidos, por outro lado acabam despertando uma demanda por um comportamento “padrão” na Internet, “público”, enquanto o preconceito continua existindo, restrito às conversas privadas. Na Internet ou na “vida offline”.

A Teoria Multiplicativa da Disseminação dos Preconceitos Deterministas

Quando as pessoas lidam com preconceitos, elas tem a tendência automática de pensar que eles se somam. Isso ocorre porque a mente humana é condicionada ao raciocínio incremental. Para a maioria das pessoas, todas as coisas se somam ou se subtraem. Isso é reflexo da financeirização da vida: quando lidamos com dinheiro diariamente, nossa mente fica condicionada a raciocinar monetariamente, ficando restrita ao uso das operações incrementais (soma e subtração). E isso tem reflexo em todas as áreas da nossa vida, inclusive na visão que temos em relação aos preconceitos.

No entanto, com os preconceitos deterministas a disseminação não obedece essa lógica incremental. Pelo contrário: a lógica obedecida é a multiplicativa. Os preconceitos deterministas nunca se somam, mas se multiplicam. Nesse sentido, após estudar a difusividade em diversos estados da matéria e a disseminação de informação, acabei chegando a uma fórmula para medir o alcance médio de um preconceito (ou de um conjunto de preconceitos, em um determinado contexto). Assim como o comportamento social não pode ser determinado com absoluta precisão, a fórmula, obviamente, não é determinista, podendo ter variações. Por isso o resultado é aproximado (e a margem de erro ainda não foi testada).

A fórmula é:

∏ρ ≈  |(Ρ11 + a1/kx Ρ11 + a2/k x  … x Pn1 + an/k)|

Onde:

∏ρ = produto final da disseminação dos preconceitos deterministas

Ρ1, Ρ2,…  = número de pessoas que dissemina determinado preconceito determinista em um contexto, com Ρ1, Ρ2 e outros sucessivos sendo preconceitos deterministas diferentes entre si.

a1, a2,…. = quantidade total de amigos/seguidores dos que disseminam o preconceito

n = número de diferentes preconceitos deterministas envolvidos em um determinado processo decisório.

k = número total de usuários ativos (que usaram nos últimos sete dias) na rede social.

A fórmula sempre será descrita em módulo, pois não se sabe exatamente para quem foi disseminado qual preconceito.

Implicações da Teoria Multiplicativa da Disseminação dos Preconceitos Deterministas

A teoria multiplicativa da disseminação dos preconceitos deterministas (TMDPD) em um processo decisório tem algumas situações dramáticas que devem ser compreendidas:

1) Um preconceito inverso nunca anula outro preconceito

Um preconceito determinista não se combate com um preconceito determinista inverso. Isso quer dizer que um preconceito inverso só vai fazer o módulo do preconceito aumentar se o numero de pessoas que compartilha aquele preconceito for maior que um. Então nunca cabe utilizar um pensamento preconceituoso determinista inverso ao pensamento preconceituoso determinista original.

Um exemplo:

Existem cinco pessoas que compartilham determinado preconceito e o disseminam em uma rede social, com um total de 100 amigos

Outras cinco pessoas rebatem esse preconceito disseminando um preconceito inverso, com um total de 50 amigos.

A rede social tem um total de 200 pessoas

Pela TMDPD:

∏ρ ≈  |Ρ11 + a1/k x Ρ11 + a2/k x  … x Pn1 + an/k|

∏ρ ≈ 11,18 x (-7,48)

∏ρ ≈ |83,59| => o preconceito foi disseminado para aproximadamente oitenta e quatro pessoas. O preconceito sempre será descrito em módulo, pois as pessoas atingidas podem sê-lo por qualquer outro preconceito.

Você pode perguntar: se apenas dez pessoas estão envolvidas na discussão, porque oitenta e quatro pessoas foram atingidas? A resposta diz respeito à disseminação de preconceitos em ambientes abertos, como redes sociais. As setenta e quatro pessoas restantes, no caso, são aquelas atingidas direta ou indiretamente pelo preconceito em questão. Todas as que viram o assunto em questão, mesmo que não tenham se manifestado a respeito. As que tomaram ciência da existência do preconceito.

2) Uma abordagem sem preconceitos limpa a tomada de decisão de todos os eventuais preconceitos existentes

Se você se despe de seus preconceitos para atingir uma abordagem preconceituosa, é mais provável que você tenha mais sucesso do que quando você utiliza um preconceito inverso. O que é uma abordagem sem preconceitos?

A abordagem sem preconceitos nada mais é do que uma abordagem calcada na alteridade. A alteridade nada mais é do que “se colocar no lugar do outro”. Tentar compreender a posição da pessoa e as experiências prévias que levaram a pessoa a tomar essa posição. É buscar um pensamento humilde, que não seja autocêntrico, transformando sua visão sobre o preconceito e compreendendo que não existe “certo” ou “errado”, mas diversas matizes comportamentais distintas, nas quais todos nós, invariavelmente, nos encaixamos.

Quando você age de forma totalmente isenta de preconceitos, não disseminando preconceitos para ninguém em uma tomada de decisão, você multiplica os preconceitos da teoria por zero. Quando você faz isso, a tendência é anular todos os preconceitos envolvidos naquela tomada de decisão, baseando-se apenas nos fatos concretos para definir algo.

Conclusão

Existem outras diversas aplicações para a fórmula. Ela também precisa ser testada mais vezes. Mas a primeira consequência óbvia é a de que preconceito não se combate com preconceito, mas com sabedoria para lidar com as situações, tentando, com posturas não preconceituosas, “desarmar” o preconceito prévio. Não há preconceito definitivo, pois o preconceito é uma construção social. Como construção social, o preconceito pode sim ser revertido, e é considerado algo finito e bem definido.

Sendo assim, a fórmula também serve como um alerta comportamental: na hora de combater um preconceito, você não está apenas exercendo um efeito multiplicador nele, disseminando indiretamente esse preconceito para mais pessoas? O contrário do preconceito não é outro preconceito, é o não preconceito. É torná-lo menos importante do que as pessoas que o disseminam gostariam que ele fosse.

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3 respostas para A Teoria Multiplicativa da Disseminação dos Preconceitos Deterministas

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