Pastéis, gourmets e “rias”


Esses dias li uma notícia que me causou revolta sincera. Em alguma área nobre de São Paulo, resolveram inserir o pastel na bizarra lógica dos estabelecimentos “gourmet”.

A lógica dos estabelecimentos “gourmet” é bizarra por um motivo muito simples: em um estabelecimento “gourmet” (muitas vezes acompanhado de um primeiro nome terminado em “ria” de forma inapropriada – como brigaderia ou tapiocaria) um alimento custa três ou quatro vezes mais do que o normal apenas por ser mais “refinado” ou ter alguma marca estúpida do tipo “é preparado por um ex-chef do Fasano”. Sejamos sinceros: é um desperdício cretino pensar que algo vale cinco vezes mais porque é preparado por alguém “fino” em que teve experiência com alta gastronomia e demonstra isso misturando manga e coco queimado.

Existe quem goste e quem pague, e é exatamente por isso que esse tipo de negócio prospera. Em uma sociedade em que a informação já não é mais um meio de segregação (afinal, ela está acessível, em maior ou menor grau, a quase todos) e existem muito mais pessoas com capacidade de consumo do que há quinze ou vinte anos, as pessoas precisam achar outras formas de identidade para se sentirem “exclusivas” ou para se diferenciarem em relação às demais. Essas formas podem envolver a manipulação territorial (como, por exemplo, ocorre com os movimentos que querem impedir a instalação de estações de Metrô em determinados bairros) ou a diferenciação pelo padrão de consumo.

A eclosão de estabelecimentos “exclusivos”, que promovem uma “diferenciação econômica”, é a resposta da elite econômica de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro a essa mudança de paradigma: como já não é possível segregar pelo consumo, são criadas “novas exclusividades”, baseadas em um novo padrão de consumo, mais caro e com um rótulo de “gourmet”. Ou com um nome novo qualquer terminado em “ria”, esbarrando em termos ridículos como “cozinharia” em algumas oportunidades.

Só isso já seria seria suficiente para ser contra essa lógica excludente. Mas ainda há outro fator em pauta, explicitado pela “pastelaria gourmet” do início do texto. É a apropriação econômica de características marcantes da cultura popular. O pastel sempre foi conhecido como um alimento popular, vendido nas feiras livres e pastelarias. O público-alvo das pastelarias sempre foi a pessoa que queria comer algo barato e rápido, sem perder muito tempo, sujando os dedos de óleo. Gente simples, via de regra, sem grandes exigências por requinte ou sofisticação. O pastel é um dos últimos redutos das comidas realmente populares, que você come sem preocupações com as calorias ingeridas.

Tentar elitizar o pastel, agregando um valor inexistente nele, é uma mácula cultural. A simplicidade e a versatilidade do pastel o tornam um alimento especialíssimo, como a pizza. É muito raro alguém falar “não gosto de pizza” de uma maneira genérica. Talvez você não goste de alguns sabores, mas com certeza gosta de outros. Com o pastel é a mesma coisa: a não ser que você não tolere frituras, é inevitável gostar de algum sabor de pastel. Ainda mais com uma massa invariavelmente leve e com as pequenas bolhas provocadas – pasmem – pelo álcool presente na massa do pastel, que evapora a 76,6ºC e faz com que a aparência do pastel se torne ainda mais especial.

As pessoas poderiam dizer que “ah, deixem eles com seus estabelecimentos gourmets lá, não nos incomodam”. O problema é que, a exemplo de todas as coisas com alto valor agregado, “de vanguarda”, os estabelecimentos “gourmet” tendem a se tornar o “padrão a ser alcançado”. Da mesma forma que os shopping centers substituem progressivamente o comércio popular nos últimos anos, servindo produtos da mesma qualidade por preços sensivelmente mais caros, os estabelecimentos gourmets tendem a substituir os estabelecimentos mais populares, por preços muito mais altos. Em coisas tão simples como uma tapioca, uma coxinha ou um pastel. Basta a capacidade de consumo da população aumentar.

É a exploração pura e simples do que Marx convencionou chamar de “fetiche da mercadoria”. Ou seja, você cria produtos que despertam o desejo da população, mesmo sabendo que ela não pode comprá-los no momento atual. No momento em que ela puder comprá-los, o fará não por necessidade, mas para saciar o seu desejo e se orgulhar daquilo. No final, a pessoa acaba se esvaziando de sua identidade e se identificando não pelo seu caráter ou pelas atitudes que toma, mas pelo que consome.

E um novo ciclo se inicia: com a “nova inclusão”, mais uma vez a elite econômica busca novas formas de “exclusividade” para continuar ostentando o seu status de elite. Com o tempo essas formas de exclusividade de popularizam, e a sociedade continua alimentando esse ciclo contínuo e estúpido de diferenciação e de agregação de valores imateriais.

É hora de frear tudo isso. É hora de romper esse ciclo e de ter bons momentos fazendo coisas tão simples como comer um pastel com caldo de cana na feira. É essa simplicidade que torna as pessoas mais sábias. Na maioria das vezes os mecânicos ou pedreiros que gastam quinze minutos comendo um pastel de carne e um bolinho de ovo acabam te ensinando mais sobre a vida do que os sujeitos que gastas dez vezes mais em uma “pastelaria gourmet” enquanto compartilham as fotos do pastel no Instagram.

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18 respostas para Pastéis, gourmets e “rias”

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  3. baomgama disse:

    Em BH abriram uma COMIDARIA, pasme!
    A questão não é só comida gurmê. Já perceberam quantas varandas gurmê, cozinhas gurmê, espaços gurmê, churrasqueiras gurmê estão presentes nas áreas comuns e nos apartamentos dos enormes edifícios brancos de vidro verde? Não é só comida: é tudo!!!! O produto ~diferenciado~ de hoje é o produto comum de ontem, só que sem a maximização exagerada dos lucros. Já trabalhei em linha de produção e sei bem o que é isso: alguém tem a ideia de colocar um parafuso a menos aqui, substituir o adesivo por um mais fino, trocar uma braçadeira metálica por plástico, etc. A FIAT tem um programa chamado BIS [boas ideias e soluções, soa até bonito com um nome desses], no qual funcionários estudam e sugerem reduções de custo produtivo. Dependendo do lucro anual garantido à empresa [o cálculo já é feito nesses números!!!!], no final do ano ele ganha um carro, uma tv, um dvd [de acordo com a economia] e, obviamente, não tem aumento de salário, mas o carro continua com o mesmo preço!!! No final, o produto não tem porra nenhuma do tal valor agregado mas tem o preço agregado. Pensa bem: lembra da xicrinha esmaltada da casa da vovó? Pra comprar uma dessas em BH, só se for pra presente, tamanha a sua ~gourmetização~.
    Enfim, deleitando-me com seu blog!

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  6. Marcus disse:

    Concordo totalmente com o autor do texto! Os pastéis que encontramos nas feiras, mercados populares são infinitamente mais deliciosos, mais bem recheados que os “gourmet”. Eu poderia pagar quando quisesse algum produto gourmet, mas, falando de produtos populares, eu estaria pagando mais por menos. Não existe essa de valor agregado para esse caso. Você paga muito mais apenas para sentar ao lado, ver e ser visto por um bando de pessoas antipáticas, que na maioria das vezes estão ali porque precisam demonstrar alguma diferença social em relação às demais pessoas, àquelas que não podem pagar por aquele produto, aquele local. Esse é exclusivamente o fato de o produto ser mais caro. Parece uma visão rebelde, mais essa é a realidade. E ao colega acima que falou de cerveja, você está falando de algo totalmente diferente. Cerveja e pastel não podem ser comparados. É óbvio que as melhores cervejas do mundo, por exemplo, as belgas e alemãs, serão mais caras no Brasil. Mesmo algumas locais serão sim mais caras por estarem sendo produzidas em menor escala, com uma composição bem diferente das apresentadas pela Skol, Brahma, etc. Mas mesmo as cervejas, se você resolver comprá-las em um estabelecimento gourmet você ainda pagará muito mais do que se você procurar uma loja que ofereça apenas cervejas, das mais variadas marcas. Mas aí meu caro, voltando ao pastel, cada um faz o que quer. Alguns preferem ficar pobres e tornar os donos desses estabelecimentos cada vez mais ricos! 😀

  7. gabriel disse:

    Talvez em São Paulo esteja exagerado … mas ‘gourmet’ pode significar aumento -real- de qualidade, algo altamente desejavel(pra mim e pra muita gente). Tenho impressão de que a maioria estabelecimentos fazem as coisas de qualquer jeito – eu gostaria que todos se preocupassem em fazer tudo bem feito, mesmo que saisse um pouco mais caro. Eu sou consumidor de “cervejas gourmet” – e tomo porque gosto(e até por ser um hobby passear pelas marcas e estilos), não porque é chique. Não sou rico(nem de longe), e na maioria das vezes se eu não puder tomar uma cerveja decente prefiro não beber. Em BH temos o supermercado verdemar, que vende coisas de qualidade muitissimo acima da média e o preço nem á tão diferente (alguns itens são inclusives mais baratos que nos super mercados comuns). Conheço muita gente que, como eu, não é rica, mas que prefere pagar um pouco mais em algo de qualidade, e as vezes compra coisas por lá. Preços extorsivos são tristes mesmo .. mas não são a regra para coisas de ‘gourmet’ (pelo menos por aqui). Talvez eu nao saiba de que ‘gourmet’ voce está falando.. mas se for o que eu acho, da mesma forma que você fala tanto sobre fetishismo e elitização é possível falar do seu texto como sendo ressentimento de esquerdista fanático em relação a tudo que não é ‘da massa’. Por que a revolta? A pastelaria foi aberta num local nobre, algo adequado, não? Por que uma pessoa que pode perfeitamente pagar por um produto de melhor qualidade compraria um de pior? (não é dificil imaginar um pastel “gourmet” – só de ter recheio ao inves de ar já poe ele muito acima da média) Eu também nao gosto dessa mania do pessoal de transformar tudo em símbolo de ‘status’ – mas boa parte do seu texto parece atacar o simples fato de alguem querer fazer um pastel mais caprichado…e de ser diferente, algo que também é bom (não gosta de experiemntar coisas diferentes? prefere comer sempre a mesma coisa?) dentro das possibilidades financeiras de cada um. Acho que uma opinião ‘embasada’ poderia ser dada se voce, pelo menos, soubesse afinal qual o preço do tal pastel gourmet e o que ele tem de diferente em relação ao pastel médio. E uma melhor ainda se você gostasse de comer bem e tivesse realmente experimentado algum dos pasteis…mas não teve nada disso, por isso não gostei da análise.

    • Léo Rossatto disse:

      Eu acho que o grande problema nem é a localização ou o fato do pastel ser bom ou não, mas a tentativa de incorporar um alto valor agregado em comidas historicamente populares. Não é uma mentalidade “esquerdista” na noção precisa do termo, talvez tenha um viés mais utilitarista no sentido de conferir à sociedade o melhor aproveitamento possível dos seus recursos. Enfim, entendo e respeito seu ponto de vista, mas o que queremos são exemplos de produtos de qualidade por preços aceitáveis como o do Mercado Verdemar, que você mesmo citou, e não uma forçação de barra com incrementos desnecessários para encarecer muito produtos que deveriam ter um preço módico

  8. wilton disse:

    O seu texto é excelente!!! Acho que o problema dos outros é sempre a moderação de um problema grave estampado na nossa cara!

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  10. Ismael Cardoso disse:

    Valor agregado?! É a mesma turma que não suporta vê pobre pegando avião, querem o espaço diferenciado não pelo sabor, mas, pq em nossa sociedade, os melhores são os que podem pagar mais, e por isso, se vou comer pastel que seja a 10,00, assim me diferencio na sociedade.

  11. Juliana disse:

    Democracia é poder comer um pastel de feira num dia e um pastel “gourmet” noutro. E escolher entre ambos e dessa forma decidir o que deve prosperar e o que deve sucumbir. Uma das coisas mais bonitas do capitalismo é a diferenciação pelo valor agregado. É o que nos faz, no final da história, termos melhores opções de produtos e serviços. E quanto aos imbecis que acham que gastar dinheiro lhes confere algum tipo de status, os teremos sempre, infelizmente, principalmente em um país imaturo econômica e socialmente como o nosso.

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  13. Marcela disse:

    Alex Atala adora comer pastel tradicional e abriu o Dalva e Dito (restaurante gourmet de comida brasileira) na rua da feira que mais gosta. Ele divulga nossa culinária para o mundo, atrai turistas e emprega pessoas (formalmente, coisa que na rua não se faz, e que aumenta seu custo). Achei bem escrito seu texto, mas acho que vc deveria usar sua habilidade para algo mais relevante. Também não entendo as “ias”….

  14. Tiago C. disse:

    Concordo com o texto, mas acho que existe um problema implícito nessa história: quem vende esses produtos e lugares como “diferenciados” é ensinado a fazer assim porque isso “agrega valor” ao negócio. E enquanto isso for visto como algo positivo, torna-se a referência para os demais, como tu salientou bem no texto.

    Seria preciso que essas estratégias parassem de ser vendidas como a última novidade para aumentar os lucros, mas infelizmente é só isso que se ensina e se apregoa como ideal. O que diz muito sobre o modelo de sociedade que desejamos. E as faculdades, em vez de serem um espaço de reflexão e pensamento alternativo, apenas refletem a tônica dominante.

    • Léo Rossatto disse:

      Sim, sim, somos ensinados que “agregar valor” é algo bacana e recomendável sempre. Grandes lições da nossa sociedade capitalista. E as faculdades estão cada vez mais refletindo essa lógica dominante, e não mais servindo como espaço de crítica.

  15. Verdade Leo. Domingo mesmo me imaginei em outro país sem ter condições de comer pastel com caldo de cana. E fiquei triste. Porque, além de tudo o que você disse, comer pastel é viver aqueles raros momentos de nostalgia gostosa, de um tempo inocente onde minha maior preocupação era se o caldo de cana seria puro ou com limão. É estupidez tirar isso das pessoas só pra conseguir esse status sem sentido.

    • Léo Rossatto disse:

      Uma grande verdade isso daí. Muito da graça das coisas está justamente nas boas recordações que isso nos traz. Com o pastel é assim.

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