O alarmismo que justifica o autoritarismo


Cena 1: a Ação Penal 470, vulgo “mensalão”, está sendo julgada em Brasília, enquanto centenas de militantes de redes sociais dizem que o julgamento é “um golpe de estado”, uma “condenação sem provas” contra grandes nomes do PT, com o objetivo de tirar o partido, que tem feito um governo histórico, do poder.

Cena 2: venezuelanos apoiadores de Hugo Chávez revoltam-se contra Capriles e a oposição do país pelo fato de que lá realmente a briga entre governo e imprensa foi mais pesada que no Brasil, a ponto da imprensa apoiar abertamente um golpe de estado no país em 2002 e do governo Chávez fechar a TV que apoiou o golpe. No Brasil, há um movimento, especialmente nas redes sociais, para que o governo faça o mesmo contra a “mídia golpista”.

Cena 3: o argentino Jorge Mario Bergoglio é eleito Papa e adota o nome de Papa Francisco. Na Argentina, apoiadores de Cristina Kirchner, a quem Francisco se opunha, o acusam de ligações com a ditadura do país, nas décadas de 70 e 80. Acusações rebatidas pelo Nobel da Paz e ativista Adolfo Perez Esquivel, que lutou contra os abusos do regime argentino. No Brasil, essas acusações são reverberadas e o Papa chamado de “nazista”, em uma clara confusão com o Papa anterior, Bento XVI, que realmente militou na juventude nazista.

Cena 4: Marco Feliciano é eleito Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, após o PT deixar a presidência da CDHM para o PSC, partido da base governista repleto de figurões da bancada evangélica. Há uma quase unanimidade em criticar Marco Feliciano, mas a maioria esquece que ele só chegou à presidência da CDHM por descaso geral dos demais partidos da base governista. E obviamente culpar o governo pela indicação do Marco Feliciano, que a cada dia se prova um saco sem fim de vergonha alheia, virou “acusação golpista”

O que tudo isso tem em comum?

Quando você vê estas quatro cenas, elas não parecem ter relação entre si, mas estão intimamente ligadas. E é bom explicar por que.

Em primeiro lugar, cabe um esclarecimento. Ninguém aqui está falando que a imprensa é isenta ou coisa do tipo. Cada órgão de imprensa tem seus interesses políticos e isso é bem claro. Existem órgãos de imprensa claramente petistas (como a revista Carta Capital) ou psdbistas (como a revista Veja), e outros que guardam tais posições de forma mais velada, como Folha de São Paulo, Estadão, Rede Globo ou Rede Record.

Só que o interesse político está subordinado ao interesse econômico. Nenhum órgão de imprensa de tamanho razoável apoia um partido por concordar com sua ideologia política, mas por saber que pode ser favorecido com mais anúncios governamentais caso esse partido esteja no controle do Estado. A ideologia está subordinada à ambição pelos pedaços de papel.

Dito isto, é bom explicar a dinâmica do “golpismo”. Por que os militantes de apoio ao governo defendem tão veementemente que está havendo um “golpe em curso” no Brasil e as instituições democráticas estão em perigo?

É simples. Historicamente, “estar sob ameaça” é um capital político imenso para as realizações de qualquer governo que seja. O governo de Stálin fez muito isso. Fomentava diversas “ameaças” ao comunismo soviético para justificar o genocídio de mais de dez milhões de pessoas em seu governo, além dos 30 milhões de soldados mortos na Segunda Guerra Mundial.

Quando você alimenta a percepção de que seu governo está sob ameaça, você justifica alianças com os ruralistas, com o Marco Feliciano, com o Sarney e com toda essa galera que só quer cargos no governo. Justifica repressões, pois o delírio persecutório entra na pauta de governo. Eles justificaram ditaduras de esquerda e de direita ao redor do mundo, e servem como justificativa para o autoritarismo.

Na prática, funciona assim: você acusa o seu adversário daquilo que você quer fazer. O governante em si pode nem fazer isso, mas seus militantes o fazem. E isso porque para essa galera aí o poder virou um valor mais importante que a democracia. O poder, inclusive, virou algo mais importante do que o projeto de país. E para manter o poder vale absolutamente qualquer coisa: acusar “golpes”, fazer alianças espúrias, tomar medidas que vão contra tudo o que você defendeu historicamente. E ainda argumentar com frases do tipo “ideologia não adianta nada, o que importa é a governabilidade”.

A verdade é que o gosto pelo poder torna governantes e militantes cegos às ideologias. E isso não é privilégio do Brasil, não é privilégio da direita ou da esquerda, não é algo relativo a um único governo. É uma característica da humanidade. Bons governantes e bons militantes são aqueles que não são modificados pelo poder. Que sabem que o poder é transitório, é fugaz, e não vai mudar em nada as pessoas.

O maior exemplo de governante assim, hoje, vem da nossa fronteira ao sul. É o presidente Mujica, do Uruguai, que prefere continuar sendo um cara simples, mesmo sendo chefe de estado de um país. É nessa simplicidade que governantes e militantes devem se espelhar. Levando em conta o pressuposto óbvio de que os princípios devem sempre ser mais importantes que o poder.

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5 respostas para O alarmismo que justifica o autoritarismo

  1. Pingback: Mensalão e os Leigos | Aleatório, Eventual & Livre

  2. Marko A Costa disse:

    Perfeito! Só o dado referente a 30 milhões de soldados soviéticos, é que tem um zero a mais ali, na verdade foram cerca de 4 (não que isto faça muuuita diferença né rs) milhões de militares entre mortos em combate e maus tratos como prisioneiros, mais cerca de, entre 12 e 16 milhões de civis (não há concordânca nos números até hoje.
    Claro, que se levarmos em consideração, como coloca o escritor Viktor Suvorov que a própria guerra na europa teria sido consequência do “plano quebra-gelo” soviético não ter dado certo, aí o nr. de 30 milhões fica modesto, já que não se resumiria apenas aos mortos soviéticos no conflito.

    • Léo Rossatto disse:

      Você tá certo. Eu realmente me confundi, esse dado de 30 milhões de soldados é absolutamente irreal. O número correto de soldados e civis é esse que você colocou mesmo.

      A verdade é que esses números são muito difíceis de mensurar, tendo em vista o fato do regime de Stálin ser totalmente fechado. Os próprios dados das fomes artificiais produzidas por Stálin nas décadas de 20 e 30 são muito imprecisos. Na Ucrânia mesmo estima-se que morreram entre 2,5 e 10 milhões de pessoas entre 1932 e 1933, um número completamente impreciso.

  3. João Paulo disse:

    Senti que, a frase “ideologia não adianta nada, o que importa é a governabilidade” foi pra mim. Porque eu digo que “ideológico morre de fome.” e, que, nenhum governo deste país governa sem a chamada “governabilidade” com esse sistema que estar aí.

    Tudo Bem… Mantenho a minha opinião, apesar de discordar em muitos pontos, você tem está certo em muitos outros.

    • Léo Rossatto disse:

      Hahahaha, nada, também foi pra você, mas não dou indiretas aqui, escrevo generalidades e você é só um dos que usam essa justificativa, dentre muitas pessoas.

      E a discordância é bacana, se concordássemos em tudo o mundo seria muito, mas muito chato.

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