Um conto paulistano


Dona Cleide tinha uma banca de jornal ao lado de um terminal de ônibus, há trinta anos. A cidade cresceu no período, e ela sempre pagou “as taxas” em dia, mesmo quando elas não eram oficiais, geralmente cobradas pelo mesmo fiscal da prefeitura de sempre.

Nesse período, as coisas mudaram. Nos últimos anos as coisas pareciam ter ficado mais difíceis. Ninguém queria mais comprar jornais e revistas. Ela começou a vender refrigerantes, balas, chicletes e chocolates também, mas tudo precisava de uma autorização específica, tudo aumentava as taxas abusivas cobradas pelos fiscais. Mas, mesmo assim, ela conseguiu criar os filhos. Jefferson e Washington já estavam casados. Lincoln ajudava em casa, trabalhando como Técnico em Metrologia. Sim, ela deu o nome deles em homenagem aos presidentes americanos.

O marido, Seu Raimundo, morreu há quinze anos. Era motorista de ônibus e reagiu a um assalto. A vida é injusta. Ele morreu duas semanas depois de terminar de construir a casa da família, trabalhando ele mesmo como pedreiro em suas folgas. A casa tinha ficado linda, com um quarto para cada filho, piscina, banheira, tudo no terreno que ele tinha comprado por um preço ridículo assim que chegou do Nordeste (ele era de Quixeramobim, assim como Dona Cleide)

Foram tempos complicados, mas ela deu um jeito de sustentar a família, trabalhando das cinco da manhã às sete da noite na banca de jornal. De domingo a domingo. E ainda dava um jeito de cuidar da casa, fazer comida pros filhos, ir ao mercado e pagar as contas.

Um dia, porém, a corda estourou. O fiscal quis cobrar o triplo dela, dizendo que iam instalar um McDonalds em frente e “o lugar valorizaria”. Ela não aceitou. Ele deu 48 horas para ela “regularizar a situação ou fechar o estabelecimento”. Ela avisou os clientes, num aviso feito à mão. Dona Cleide nunca teve jeito com o computador.

No último dia, parecia que a cidade estava indiferente a ela. Ao fato de que a tradicional banca de jornal ao lado do terminal de ônibus ia fechar. As pessoas passavam correndo, olhando para seus smartphones, com fones de ouvido. Eventualmente compravam um jornal, uma água ou um refrigerante. Duas pessoas chegaram a lamentar o fechamento da banca, mas estavam com pressa e não queriam entrar em detalhes. O ator principal sempre foi o jornal. Não era no último dia que o jornaleiro seria o protagonista.

Ela vendeu as revistas restantes pra uma banca famosa da cidade. Arrecadou algum dinheiro e se aposentou. Vocês pensam que não, mas esses profissionais autônomos morrem de medo de pararem de trabalhar e não terem como se sustentar. Dona Cleide recolheu INSS todos os meses, desde que começou a trabalhar na banca de jornal. Já tinha idade para se aposentar há dois anos, mas nunca tinha tido tempo de “ir atrás da papelada”.

Logo depois, Lincoln anunciou que também ia casar. Ela ajudou o filho com tudo, e ficou feliz porque estava podendo fazer isso pela primeira vez. A casa ficou grande demais, e ela quis colocar à venda. Nesses tempos de especulação imobiliária, logo apareceu um “investidor” pagando R$ 950 mil na casa, porque tinha piscina, quatro quartos, e Seu Raimundo tinha construído até uma “varanda gourmet”, mesmo tendo morrido sem ter ideia do que seria uma “varanda gourmet”. Pagou à vista.

Os filhos sugeriram, e Dona Cleide colocou todo o dinheiro na poupança. O gerente do banco sugeriu uma aplicação mais rentável, mas Dona Cleide disse que “só confiava na poupança” e deixou o dinheiro lá, rendendo uns R$ 4 mil por mês, que são responsáveis pela maior parte da sua renda.

Com esse dinheiro, Dona Cleide decidiu aproveitar a vida, e passa o tempo todo em cruzeiros marítimos, com outros aposentados que fazem o mesmo. Come bem, se diverte, faz novos amigos e tem a vida que pediu a Deus. Já foi até no do Roberto Carlos. No intervalo entre os cruzeiros, fica um pouco na casa de cada filho.

Só que ela vai ter que dar um tempo agora, porque Jefferson vai ser pai e ela quer ajudar a criar sua netinha (já decidiram o nome, vai chamar Francielle). Pra isso, alugou uma casa de três cômodos no quarteirão de cima do condomínio onde Jefferson e a esposa moram. Perguntaram se ela não queria comprar uma casa, e ela respondeu: “ah não, daqui a pouco eu quero voltar a viajar de novo”.

Dona Cleide, hoje, só tem um arrependimento. Acha que deveria ter largado uns três anos antes a banca de jornal. “Foi a melhor coisa que me aconteceu. Ninguém mais lê jornal”, diz ela, com um sorriso e um rosto que parece uns dez anos mais jovem do que há pouco mais de um ano, quando largou a banca de jornal em frente ao terminal de ônibus.

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2 respostas para Um conto paulistano

  1. e pior que é verdade,Léo Rossatto aqui mesmo em Minas onde moro quase ninguém lê ou compra jornal e os que compram é um jornal de 25 centavos,daqueles estilo Meia Hora como manchetes engraçadinhas e linguagem popular e tem mais propagandas nas paginas que informação de verdade.Ninguém hoje em dia lê jornal todo santo dia junto de um bom café da manhã prefere ler na internet ou ligar um rádio ou a tv para escutar ou ver as noticias do dia.
    O jornal está morrendo e essa história retrata isso.

    • Léo Rossatto disse:

      Sim, acho que é uma das principais percepções essa. Você vê cada vez menos bancas de jornal por aí, cada vez mais difícil alguma delas “prosperar”.

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