De volta para o Futuro, mas sem recalque


O ano é 2043. Cheguei aqui com meu Renault Slim 2 turbinas 2036 na esperança de encontrar um lugar melhor. Lugar, porque nesse ano de 2043 os países não passavam de definições formais anacrônicas e as cidades tinham readquirido importância semelhante à dos grandes centros burgueses da Idade Média, como Florença e Veneza.

O trânsito tinha melhorado muito depois da popularização dos carros voadores, em 2029, e da criação das supervias aéreas delimitadas por um campo magnético. Era um esquema muito moderno, implantado em todas as grandes cidades do mundo por ser muito fácil e barato de manter. Os campos magnéticos ajudavam os carros se movimentarem apenas na direção correta, afastando qualquer risco de acidente. A proporção deles tinha caído para cerca de dez por ano em São Paulo. O único problema é que todos eles foram fatais.

E a implantação dessas supervias havia se tornado muito barato com a descoberta dos supercondutores à temperatura ambiente, em 2022. Igowe Tabumali, numa pesquisa em sua pós-graduação na Universidade de Nairóbi, acabou descobrindo por acaso o supercondutor ao contaminar uma cerâmica supercondutora a menos 152 graus Celsius com um nanocomposto de ferrosilicatos testado anteriormente e esquecido na máquina. Com esses supercondutores, foi fácil criar rodovias magnéticas aéreas muito específicas, adaptadas aos carros voadores de hoje. Para dirigir, é só entrar e ligar o piloto automático. 

Estranhei as ruas límpidas, sem fios e quase sem ninguém passando. Quando encontrei um transeunte, ele me explicou que agora a maioria das pessoas trabalhava via teleconferências. era muito mais rápido e seguro, e não demandava deslocamento. Serviços como motorista de transporte público e operador de telemarketing já não existiam mais, essas coisas eram todas resolvidas por sistemas. Empresas como as de telefonia, por exemplo, fecharam seus centros de telemarketing e reduziram a operação do atendimento aos clientes a uma única sala. Tudo para enxugar custos.

Eu perguntei para ele se o desemprego não era um problema nessa nova sociedade. Ele disse que sim, mas disse também que todos os desempregados tinham uma ajuda governamental, e a maioria deles acabava abrindo um negócio próprio ou mudando para as cidades do interior, onde as relações ainda eram mais tradicionais. Depois da guerra de 2015, em que uma bomba atômica norte coreana devastou Seul depois da invasão de um hacker americano desastrado nos sistemas de lançamento do país, o mundo todo resolveu se unir para promover educação e paz. O Brasil chegou a investir 36% da arrecadação em seu sistema educacional, entre 2017 e 2021, e virou referência mundial no setor.

A tecnologia das supervias aéreas criou uma nova segregação, no entanto. As grandes cidades e as grandes estradas contavam com essas vias, em que os carros podiam chegar a até 450 Km/h sem maiores problemas. Na Aerodutra, por exemplo, as pessoas viajavam em uma hora de São Paulo ao Rio, sem necessidade de check-in. Mas nas pequenas cidades o sistema ainda não havia. O motorista era obrigado a deixar seu carro num bolsão de estacionamento, na saída das supervias, e a pegar um carro público e sair andando, com o compromisso de devolvê-lo em perfeitas condições quando fosse resgatar seu carro voador.

Em 2039, depois da bolha especulativa dos carros voadores, em que um deles chegou a custar mais do que uma casa no famoso bairro de classe A do Jardim Ângela (que era pobre, mas atraiu investimentos depois que Mano Brown foi canonizado pela Igreja Católica em 2028, dois anos após sua morte), o governo decidiu que cada cidadão teria um carro normal ou voador, e criou o sistema de troca nos bolsões de estacionamento. Cada motorista poderia trocar sem nenhum custo seu carro voador por um carro “de terra” nesses bolsões e vice-versa. Era uma espécie de consignação.

Perguntei sobre os políticos do país, e o amigo transeunte não soube nem dizer o nome do presidente. Disse que era o chefe dos funcionários do governo, e que a missão deles era fazer tudo ficar bem. Todos pagavam impostos, mas depois que foi criado o SDI (Sistema de Demandas por Investimentos), em que cada cidadão colocava na Lifenet (sucessora da Internet)  suas demandas e as que tivessem mais likes eram implantadas, a importância dos governos e dos partidos políticos recuou quase a zero. Como todas as demandas eram autenticadas pelo E-CPF do cidadão e por impressão digital, a chance de fraude caiu para quase zero.

Perguntei pro meu amigo porque eu não via mais igrejas e escolas. Ele disse que ambas existiam, mas a tecnologia holográfica fez com que os cultos religiosos ou as aulas fossem ministradas todas de casa. Incluindo aí provas e concursos públicos também. A interação e a segurança, segundo ele, eram até maiores, pois as tecnologias em 7D (largura, altura, comprimento, tempo, propriocepção, temperatura e tato) reproduziam perfeitamente o contato físico, inclusive as relações sexuais. As religiões e o aprendizado agora eram algo individual, eram uma escolha, moldada pelo pressuposto básico de que ninguém mais precisava controlar a vida alheia.

Ele disse também que São Paulo já tinha sua estação Espacial, e, em dois anos, construiria sua estação lunar. Era algo que muitas cidades estava fazendo, incluindo Beijing, Nova York, Nairóbi e Nuuk, que se tornou a 4ª maior cidade do Hemisfério Norte depois que o aquecimento global tornou a Groenlândia um dos climas mais agradáveis do mundo.

O aquecimento global, inclusive, foi o grande motivo para os governos começarem a instalar bases na Lua e no espaço. Era algo fácil, agora que as viagens à Lua podiam ser feitas por qualquer um, em menos de três horas. A ONU estava organizando um consórcio de colonização de Marte e São Paulo havia demonstrado interesse também.

Eu fiquei meio ressabiado. Parecia um mundo muito legal. Não havia mais disputa política, gente individualista ou coisa do tipo? Perguntei isso pro meu amigo. Ele deu uma resposta simples: “no mundo de hoje, se você não colabora você perde. Após a grande inundação de 2018, causada pelo derretimento das calotas polares da Groenlândia, as pessoas no mundo todo perceberam que só sobreviveriam se colaborassem umas com as outras, e rápido. Foi criada toda uma tecnologia de elevação de terras e de construção de diques e moinhos, depois que, em duas semanas, Tuvalu e as Ilhas Maldivas sumiram do mapa, fazendo com que as populações fossem retiradas às pressas das ilhas.

Os tratamentos feitos com base na Engenharia Genética prolongaram a expectativa de vida das pessoas para 150 anos, e curaram todas as doenças potencialmente mortais. E os cientistas do Bell Labs inventaram um nanorrobô que processava toda a gordura do corpo humano, transformando-a em energia e guardando-a num reservatório externo imperceptível, que ficava na roupa da pessoa.

As roupas também eram bem diferentes. Além de guardarem energia, elas também acessavam a Lifenet e abasteciam a bateria de todos os widgets ligados ao corpo: óculos, bonés, fones de ouvido, e dos Bodyphones, que eram uma espécie de tablet flexível que todos moldavam em suas peles enquanto davam comandos de voz ou de pensamento nas redes de contatos.

A produção de comida era totalmente automatizada, e a moda era ir para o interior encontrar restaurantes de comida caseira, convencional, embora muitos achassem aquele tipo de comida muito forte. Fui num restaurante com o amigo que encontrei na rua e ele me disse que as pessoas basicamente comiam para repor energia. Quase ninguém mais fazia isso por prazer depois que foi inventada a tecnologia do controle das papilas gustativas para a sensação de quaisquer gostos artificiais, desde o de coisas mais refinadas, como pratos finos franceses ou italianos, até o gosto de um simples arroz branco. E a tecnologia era tão refinada que sabia misturar pratos e distinguir o gosto quando eles eram preparados de forma diferente. O arroz por cima do feijão tinha gosto diferente do feijão por cima do arroz.

Tudo estava maravilhoso, mas daí perguntei de gente como Lula, Dilma, Obama e outros caras do tipo. Esse amigo me respondeu: “eles tiveram sua importância, estudamos bastante sobre eles como personagens da era política. Na prática, eles, com acertos e erros, ajudaram a construir isso que temos hoje. Agora consideramos que estamos na era pós-política, a educação e a ânsia pela paz fizeram todos nós atingirmos um nível de consciência tal em que os políticos não são mais tão relevantes. A vida não é bacana, há muitas injustiças por aí, se você for pras regiões mais interioranas ainda vai achar muita gente simples vivendo como há 40 anos atrás, e isso é sensacional para percebermos quem de fato nós somos”.

Fiquei estupefato. Até que ele completou “cada sociedade faz suas escolhas. Elas podem levar á melhora das condições de vida para todos ou para a destruição. Isso depende, basicamente, do quanto as pessoas pensam apenas nelas mesmas e no quanto as pessoas pensam no bem comum. Depois do desastre nuclear e do desastre climático, nós preferimos pensar no bem comum. E tudo o que queremos é ensinar o mesmo para as próximas gerações”.

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5 respostas para De volta para o Futuro, mas sem recalque

  1. Caramba Léo, tô rachando aqui mto bom mesmo! E a superpopulação do mundo? Como ficou?

    • Léo Rossatto disse:

      Hahaha, valeu, Carol. Mas superpopulação hoje é uma coisa que os estudos demográficos já dão conta, dizem que vai estabilizar em torno de 9 bilhões em 2050.

  2. Parabéns Léo Rossatto! Excelente texto!

  3. Léo Rossatto disse:

    Mesmo porque seria quase impossível fazer um pior que o dele, né?

  4. parabéns pelo texto!! excelente muito melhor que o do Rodrigo Constantino do jornal O Globo

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