Um domingo qualquer, em uma igreja qualquer


Ele entrou quieto e sentou no fundo da igreja. As pessoas se afastaram um pouco, devido ao seu visual peculiar. Achavam que ele fosse morador de rua ou algo do tipo.

A celebração começou com uma oração “forte”, pedindo vitória contra as perseguições. Ele sentiu uma certa nostalgia. Depois, ficou incomodado com umas músicas, que “Quem te viu passar na prova e não te ajudou, quando ver você na benção  vai se arrepender, vai estar entre a plateia e você no palco, vai olhar e ver Jesus brilhando em você”. Parecia não estar nem um pouco à vontade ouvindo aquilo.

Depois, o preletor liberou para que algumas pessoas falassem. Um disse que tinha sido abençoado com um carro novo, outro disse que tinha comprado uma casa nova, com piscina e churrasqueira, e agora poderia falar pro irmão invejoso que “deu certo na vida”. Um terceiro disse emocionado que, depois de orar muito, o patrão dele finalmente foi demitido pela empresa. Tudo com muitos gritos de celebração ao fundo, falando de Deus como se fosse um menino de entregas. A sensação era nauseante. Ele comentou com o único rapaz que tinha ousado ficar ao seu lado:

“Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam, mas acumulem para vocês tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam, pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.”

Seus comentários eram quase sussurros, mas ele começou a chamar atenção, e mais pessoas se aproximaram, sob o olhar atento dos chefes da igreja. Mas não tão atento, afinal estava na hora de recolher os dízimos e as ofertas. Primeiro, um apelo do preletor: “precisamos pagar os programas de rádio e TV essa semana, eu não saio daqui sem R$ 70 mil. Aceitamos cheque, cartão de crédito, o que você puder pra ajudar a obra. Porque nós temos que vencer”. Então perguntou quem seria o “homem valente” que iria dar uma oferta de R$ 5 mil. Depois diminuir para R$ 1 mil. Alguns levantaram a mão. O preletor ficou cerca de 50 minutos falando disso, até “levantar o valor”. Com cheques pré-datados, parcelamentos no cartão de crédito e todo tipo de transação financeira.

Ele viu uma senhorinha dando as moedinhas que ela tinha na mão e comentou com o grupo de pessoas ao seu redor:

“Afirmo-lhes que esta viúva pobre colocou mais do que todos os outros. Todos esses deram do que lhes sobrava; mas ela, da sua pobreza, deu tudo o que possuía para viver”

Mais pessoas estavam em torno daquele homem, a ponto da direção da igreja ficar incomodada. Mas era hora de ouvir “a palavra da vitória” e todos se voltaram para o preletor novamente. Ele leu um trecho de Gênesis 32, onde Jacó briga com um anjo, e usou a frase “Não te deixarei ir, a não ser que me abençoes” pra dizer que você deve DE-TER-MI-NAR a Deus às bênçãos na sua vida. “Determine um carro zero, determine uma casa grande e luxuosa, determine que você vai assumir o lugar do seu chefe porque você é um vitori-O-SO, A-LE-LU-IA! É só pedir que Deus dá!”. Incomodado com aquilo tudo, ele comentou para o grupo que o rodeava:

No entanto, convém lembrar que logo depois é dito “Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram”

E também que:

“Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança.”

O preletor viu aquilo e fingiu ignorar. Continuou seu discurso, agora com um viés moralista, dizendo que Deus tinha matado “para a sua glória” todos os cantores famosos que morreram entre a década de 60 e 90 e que tinha introduzido a AIDS como uma “maldição para gays”. Disse que gays eram abominações, africanos eram amaldiçoados e mulheres tem que ser submissas e ficar em casa cuidando de seus maridos, em nome de uma vida vitoriosa. Tudo sem abrir a Bíblia nenhuma vez.

Aquele homem se revoltou e levantou, dizendo:

“Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não matarás’, e ‘quem matar estará sujeito a julgamento’. Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer que disser a seu irmão: ‘Racá’, será levado ao tribunal. E qualquer que disser: ‘Louco! ’, corre o risco de ir para o fogo do inferno. Portanto, se você estiver apresentando sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão; depois volte e apresente sua oferta.”

E continuou falando:

” Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: Ame o seu próximo como a si mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”

O preletor respondeu “você está se levantando contra o ungido de Deus? Você está perseguindo o escolhido do Senhor e a mão de Deus vai pesar sobre você”

Ele retrucou:

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês”

O preletor respondeu, mais uma vez, aos gritos “eu sou o profeta do Senhor, quem é você para me ofender assim? Igreja, ore para Deus destruir esse blasfemador”.

E ele respondeu mais uma vez:

“Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas daninhas? Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão!”

Então, o preletor perdeu a paciência e disse: “eu dou R$ 3 mil pra quem calar a boca desse homem!”

Ele ainda respondeu:

“Está escrito: ‘A minha casa será casa de oração’; mas vocês fizeram dela ‘um covil de ladrões’”

Os fiéis, ávidos por dinheiro e pela tal “vitória”, inebriados pelo discurso do preletor, pegaram aquele homem, levaram para fora da igreja e começaram a linchá-lo.

Aquele homem só teve tempo de dizer:

“Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo”

Ele morreu ali mesmo. Admirado com seu discurso, um homem foi enterrá-lo, para que ele não fosse sepultado como indigente. Foi consultar seus documentos, e havia uma placa com uma inscrição em latim: “Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum”. Queria dizer “Jesus Nazareno rei dos Judeus”. Essas inscrições também estavam escritas em grego e hebraico, na mesma placa.

Alguns homens disseram que, três dias depois, esse Jesus nazareno ressuscitou. Seguem seus mandamentos até hoje. Mas na época pouca gente acreditou nessa história, porque o preletor da igreja, que tinha mandado linchar o rapaz, subornou os coveiros para eles falarem que o corpo dele havia sido roubado.

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3 respostas para Um domingo qualquer, em uma igreja qualquer

  1. Gisele Martins disse:

    Infelizmente, tendo conhecimento, o ser humano repetiria o mesmo erro…
    tamanha ignorância a nossa.

  2. texto sensacional!! que bela história mostra bem como Jesus seria recebido se voltasse hoje a Terra pelo menos foi isso que eu entendi…

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