A humanidade, em um personagem


Muitas coisas acontecem e nos fazem refletir, pensando que a humanidade não deu certo e que a existência humana está fadada ao fracasso e à destruição. A abrangência de informações disponíveis nesse momento da história, em que podemos saber sobre o que ocorre rigorosamente em qualquer lugar, fez com que o conhecimento se multiplicasse e, junto com o conhecimento, a nossa capacidade de indignação e a nossa descrença na bondade das pessoas.

A verdade é que um poema escrito no final do século XVIII resume, de forma brilhante, a humanidade toda em um sujeito só. Mais impressionante que isso, só o fato de que atualmente esse personagem parece ainda mais simbólico e representativo do que quando foi criado.

Estamos falando de Fausto, personagem principal da saga homônima, que começou a ser escrita em 1775 e foi publicada em sua versão completa no ano de 1808. Fausto é um erudito que “agradava a Deus”, tentando se inteirar de todo o conhecimento disponível na época. Mefistóteles, que representava o diabo, apostou com Deus que poderia conquistar a alma de Fausto, em algo que lembra o ocorrido no Livro de Jó. E, transformado em um cão, convenceu Fausto, que pensava em se suicidar, a vender sua alma por toda a eternidade em um pacto de sangue, com uma condição: a “venda da alma”, com Fausto indo ao inferno para sempre, só se concretizaria quando Mefistóteles conseguisse proporcionar a Fausto um momento de felicidade suprema, daqueles que a gente quer que dure para sempre.

Fausto simboliza o homem que se importa com a felicidade momentânea em detrimento da felicidade futura. O sujeito hedonista, que busca prazeres individuais imediatos e não se importa de negociar o seu futuro para isso. Fausto resume a humanidade. Especialmente a humanidade do século XXI. As pessoas buscam a felicidade individual suprema, sem se importar com nada ao redor. Tudo o que tem acontecido mostra que, cada vez mais, vivemos em uma sociedade de Faustos. Seguem alguns exemplos:

José Maria Marin é um Fausto. Um sujeito que sempre viveu nos porões, que usou o poder para apoiar torturas e mortes em um regime de exceção. Que usou o poder para favorecimento pessoal, até  chegar à presidência da CBF. E que usa o poder até hoje como forma de buscar vantagens ilícitas. Marin busca um momento de felicidade. Quer o conforto individual. Não se importa de passar por cima dos outros para isso. E representa toda uma classe de políticos corruptos que coloca os interesses pessoais acima dos interesses coletivos, lesando o patrimônio público. Todos Faustos, capazes de venderem sua alma por um momento de felicidade individual.

Gerald Thomas é um Fausto. Não se importa de assediar sexualmente uma pessoa que estava fazendo seu trabalho, entrevistando-o, ainda que para um programa de humor. É uma atitude análoga à dos homens que assediam ou estupram mulheres diariamente, seja no Rio, em São Paulo, na Paraíba ou em qualquer lugar. Homens que são todos Faustos, não se importando em destruir a vida dos outros em nome de um momento de satisfação individual. Homens que traumatizam não apenas as vítimas, mas toda a sociedade, fazendo com que as pessoas se fechem em si mesmas e tenham medo das outras. Fazendo com que a maioria dos olhares para desconhecidos seja de desconfiança, e não de curiosidade. Fazendo o lado mau das pessoas sobrepujar o lado bom.

Marco Feliciano é um Fausto. Capaz de fazer qualquer coisa para manter um poder pessoal e efêmero, diz falar em nome de Deus. Mas só quer se sentir poderoso, acumular poder, se considerando representante de pessoas que não se dizem representadas por ele (o próprio presidente das Assembléias de Deus disse que Marco Feliciano não representa ninguém lá). A polêmica e a exposição alimentam a felicidade individual de Feliciano e de seu grupo. São todos Faustos, vendendo seu caráter em nome de uma sensação de poder individual e efêmera.

Kim Jong Un é um Fausto. Um sujeito sanguinário capaz de fazer pessoas morrerem de fome em nome de um projeto de poder megalomaníaco, baseado na autorreferência e na veneração pessoal. Ele é capaz de fazer qualquer coisa para alimentar esse projeto de poder, inclusive ameaçar os países vizinhos com bombas nucleares, em um provável blefe, apenas para alimentar o seu ego. Mas ele é apenas um exemplo: todos os líderes megalomaníacos são Faustos, pois se importam mais em ter o controle da vida dos outros do que em tornar a vida dos outros melhor.

Existem muitos outros Faustos por aí. Infelizmente, a maioria das pessoas se torna um Fausto em algum momento. A maioria das pessoas dispensa suas ideias, seus crenças e seu caráter em nome de momentos de felicidade. E isso é ainda mais frequente em uma sociedade como a nossa, baseada no consumo sem restrições, em que a própria identidade das pessoas está baseada naquilo que ela consome (e a proliferação de estabelecimentos “gourmet” prova isso).

No entanto, é conveniente lembrar como termina a história de Fausto. Essa busca de Fausto pela felicidade individual fez com que ele destruísse muitas vidas no processo, inclusive a de pessoas que ele amava (como Margarida, a musa do livro). Essa busca desenfreada e sem restrições pela felicidade individual gerou um enorme rastro de destruição, similar aos que são deixados hoje por diversas pessoas que fazem qualquer coisa para “crescer na vida”, pisando nos outros.

Mas, apesar de tudo, Mefistóteles perdeu a aposta. Nenhum desses momentos de felicidade proporcionados foi suficiente para fazer Fausto desejar estar ali para sempre. E essa é a grande lição do poema para a humanidade: a busca pela felicidade individual será eterna e infrutífera. Irá destruir tudo ao redor, sem valer a pena. José Maria Marin, Gerald Thomas, Marco Feliciano e Kim Jong Un são apenas exemplos. Parcos exemplos, dentre outros que poderiam ser descritos em milhares de frases.

Eles refletem o que se tornou a humanidade: um aglomerado de pessoas individualistas, consumistas, orientadas por uma lógica hedonista, que pensa na felicidade individual em detrimento de todo o resto. E isso causa problemas tão distintos quanto a fome, a violência e o aquecimento global. Para fugir dessa lógica, basta lembrar da lição de Fausto: não há sensação de poder ou momento de felicidade que faça a vida valer a pena, se ele for desfrutado só por você.

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7 respostas para A humanidade, em um personagem

  1. Artur Felipe disse:

    Excelente texto Léo, de ótimo nível, como sempre. Parabéns pelo blog! Abraço!

  2. Felipe Braga disse:

    No geral, é um bom texto, mas tenho outra consideração, sobre o trecho “[…] E isso causa problemas tão distintos quanto a fome, a violência e o aquecimento global […]”: ao contrário de “fome” e “violência”, “aquecimento global” é uma expressão bem contestável, quase religiosa (cientificamente, muitos discordam dela…)

    • Léo Rossatto disse:

      Concordo que é contestável. Na verdade foi mais um recurso estilístico, encaixou melhor na frase, apesar de ser contestavel, devia ser trocada por “exploração irracional dos recursos naturais” ou coisa do tipo.

  3. Felipe Braga disse:

    … a tal Nicole Bahls não entrou, nem deve entrar, convenientemente, com ação judicial contra seu empregador (a RedeTV, no caso) por ter exibido, em programa nacional, o tal “abuso” do Gerald Thomas: “bem ou mal, fale de mim” (“Fausta”?) 😛

  4. Seu texto é excelente, mas tenho apenas um comentário. Quando você diz “Eles refletem o que se tornou a humanidade…” na verdade, não nos tornamos assim pq nunca fomos melhores, sempre fomos assim. Vale a leitura do livro de numa reflexão exatamente sobre Steven Pinker. Nunca estivemos melhor.

    • Léo Rossatto disse:

      Antes de tudo, obrigado. E sua afirmação faz sentido. A humanidade sempre agiu dessa forma, só não tínhamos informação suficiente pra constatarmos as mazelas da humanidade da forma que constatamos hoje em dia.

  5. Ana Lucia disse:

    Ótimo texto! A analogia é perfeita!

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