O calendário anual fez o futebol brasileiro declinar. E pode fazer o futebol brasileiro se reerguer


Se as pessoas me perguntassem sobre um único problema que tem destruído o futebol brasileiro eu não falaria sobre a corrupção, sobre os dirigentes, sobre a Lei Pelé ou sobre qualquer outra coisa. Mas, acompanhando o futebol, eu diria categoricamente que o maior problema para o futebol do país é a ausência de um calendário minimamente razoável para os campeonatos nacionais brasileiros.

Eu mesmo já fiz uma proposta de calendário, em outro momento (1). Quando o fiz, não tratei o mesmo como uma verdade absoluta, dogmática, mas como o ponto de partida para uma discussão mais ampla. Desde então, muitas pessoas e grupos jornalísticos tem montado propostas de calendários para campeonatos estaduais e nacionais (como já montavam antes, seria muita presunção achar que eu fui ponto de partida para alguma coisa)

Vamos recapitular: até 2002, o calendário brasileiro tinha uma subdivisão clara: seis meses de campeonato estadual (ou regional, em 2002) e seis meses de campeonato nacional. Era uma forma que contemplava com jogos pelo ano todo apenas os times que participavam das Séries A e B do Campeonato Brasileiro (vamos lembrar que a Série C era formada por um amontoado de clubes e que a maioria deles não jogava mais de 6 jogos).

Muitos times menores sabiam que seus departamentos de futebol profissional só funcionariam por seis meses, mas os campeonatos estaduais gozavam de outra reputação na época. O faturamento desses seis meses era suficiente, na maioria das vezes, para sustentar as categorias de base do clube o ano todo.

Com isso (e com a existência do passe, até o final da década de 90), os investimentos em categorias de base compensavam. Muitos jogadores eram revelados em categorias de base, participavam de torneios menores, jogavam o estadual e eram vendidos por um bom dinheiro para clubes maiores do Brasil ou do exterior, ajudando a fechar a conta de muitos clubes menores.

De 2003 para cá, com a adoção do campeonato de pontos corridos (e não vamos discutir aqui se é a fórmula correta ou não, essa é outra discussão) e a diminuição dos campeonatos estaduais, muitos clubes pequenos entraram em colapso, não conseguindo mais alimentar esse sistema baseado no investimento em categorias de base. Isso ocorria porque a maioria deles só tinha atividade garantida por três meses durante o ano, que foi o período destinado aos campeonatos estaduais. Além disso, as fórmulas esdrúxulas e o jogo político das federações estaduais fizeram os campeonatos perderem a maior parte de sua relevância.

Hoje, com a Série B do Brasileirão em pontos corridos e a Série C caminhando para isso, podemos dizer que 60 clubes tem sua atividade garantida o ano todo. Os clubes da Série D disputarão, em sua maioria, apenas oito jogos no torneio, até o final da primeira fase (quando classificam-se dois times de cada grupo, com cinco times cada, para a fase eliminatória). Muitos estados tentam preencher esse vazio com torneios tampão, como a Copa FPF (em São Paulo) e a Copa FGF (no Rio Grande do Sul). No entanto, esses torneios tem credibilidade quase nula, uma vez que não estão integrados ao campeonato nacional.

O calendário brasileiro, com 60 clubes jogando o ano inteiro, causa inúmeros transtornos:

1) A ascensão dos clubes comandados por empresários ou itinerantes: Em um cenário em que não há mais viabilidade econômica para o investimento nos clubes de futebol tradicionais de menor porte, surgem clubes artificiais, sem vínculo com o local em que foram criados, comandados por empresários interessados em marketing ou em venda de jogadores. E esses clubes ganham cada vez mais espaço, sem terem uma identidade. São dois tipos de clubes: os claramente empresariais, como Audax (Pão de Açúcar) e Red Bull Brasil, por exemplo, e os itinerantes, como o Grêmio Barueri que foi pra Presidente Prudente e voltou para ou o Ipatinga que foi para Betim.

2) Defasagem entre times grandes e médios/pequenos: além da óbvia desigualdade financeira, aumentada em muitas vezes nos últimos anos, a diferença entre times grandes e pequenos aumentou no que se refere à capacidade de competir. Sustentar um clube se tornou algo mais difícil, porque a atratividade dos campeonatos menores diminuiu muito. A maioria prefere um produto grande, pasteurizado, padronizado, que possa ser vendido no PFC. O Impedimento (que deveria ser referência para todos vocês, fez um texto esclarecedor sobre isso há algum tempo (2).

3) Os times pequenos montam um time por ano, sem continuidade: é uma rotina cruel. Os times montam um time do zero às vésperas do Campeonato Estadual, no limite de seu orçamento, o campeonato estadual dura três meses e o time é desmontado, pois não há condição de pagar os jogadores sem jogar pelo resto da temporada. Muitos desses times nem contam mais com divisões de base, para não gerar custos. E, com o “novo calendário”, com a Copa do Brasil durando de março a dezembro, geram situações bizarras, como a de times que precisam ser eliminados da Copa do Brasil na primeira fase por correrem o risco de ficar sem time pra disputar o restante da competição, por conta do fim dos estaduais.

Daí, no ano seguinte, monta-se outro time do zero, que dura apenas mais três meses. E o círculo vicioso continua.

4) Diminui a quantidade de bons jogadores revelados: poderíamos fazer, aqui, uma lista enorme com ótimos jogadores brasileiros revelados em clubes menores. Se analisarmos a seleção brasileira atual e a seleção brasileira de 20 anos atrás, veremos que o perfil dos jogadores é diferente. Enquanto hoje prevalecem os jogadores que atuam em grandes clubes desde as categorias de base, há 20 anos havia um certo equilíbrio entre os jogadores de grandes clubes e os jogadores que iniciavam suas carreiras em clubes menores.

Isso faz com que o Brasil revele menos talentos, no fim das contas. É óbvio que a 19ª colocação atual da seleção brasileira no Ranking da FIFA tem a ver mais com uma distorção do ranking do que com qualquer outra coisa (3), mas é notório que o Brasil vive uma de suas piores fases no que se refere à revelação de novos talentos, a ponto de não estar entre os principais favoritos para a maioria dos analistas, mesmo sendo o país-sede da Copa do Mundo de 2014.

A Solução

Já adianto que não vejo solução próxima para o problema, tendo em vista a estrutura atual de poder da CBF. Inclusive, há sinais claros de que o futuro da seleção brasileira após a Copa de 2014, independente do resultado, tende a ser sombrio, e a classificação para a Copa do Mundo de 2018 será sofrida.

Mas a solução óbvia é deixar de pensar apenas no clube dos 13 e criar um calendário que tenha algumas diretrizes:

1) Negociação coletiva dos direitos de transmissão: países em que os direitos de transmissão são negociados individualmente, como a Espanha, já estão repensando o modelo (4), pela ocorrência dos mesmos problemas que ocorrem aqui: os clubes menores ficam fadados à irrelevância ou extremamente endividados. Se o modelo de negociações individuais continuar no Brasil, a tendência é que ocorra o mesmo por aqui.

2) Mudança no calendário: é uma necessidade urgente a criação de um novo calendário para o futebol brasileiro, com alguns pressupostos:

a) atividade durante o ano inteiro para todos os clubes, e não apenas para os que disputarem as Séries A, B e C do Campeonato Brasileiro.

b) Campeonatos estaduais em etapas, com os clubes que disputam competições nacionais entrando apenas nas fases finais (como ocorre hoje, com os times que disputam a Libertadores e entram nas fases finais da Copa do Brasil).

c) Campeonatos necessariamente sequenciais, dentro de uma hierarquia de campeonatos, em que um campeonato menor necessariamente classifica para um campeonato maior.

3) Mudança na estrutura hierárquica da CBF e das Federações Estaduais: essa é a parte mais difícil. Porque a CBF e as Federações Estaduais são estruturas oligarquizadas, que se retroalimentam. Para se candidatar á presidência da CBF, por exemplo, você precisa do apoio de, no mínimo, oito federações estaduais (e cinco clubes da Série A). As contas da CBF são aprovadas pelas federações estaduais, que recebem dinheiro da CBF. São estruturas em que a falta de transparência impera, dando margem à todo tipo de corrupção e a dirigentes que se eternizam no poder enquanto fazem administrações medíocres.

Conclusão

No entanto, convém reafirmar o que foi dito inicialmente: se fosse para resolver apenas um dos problemas do futebol brasileiro, deveríamos nos concentrar na questão do calendário. Na criação de um calendário inclusivo, em que todos os clubes tivessem atividades o ano todo, podendo se sustentar e podendo sustentar suas categorias de base. Um calendário que tivesse coerência, com competições que sempre classificam para outras, para criar uma noção de que há um caminho seguro para se percorrer até o sucesso. E um calendário negociado coletivamente, para diminuir a enorme diferença entre os clubes maiores e os clubes pequenos, melhorando a competitividade e aumentando a atratividade dos campeonatos.

Referências:

(1)

https://poucodeprosa.wordpress.com/2012/04/18/uma-formula-para-os-campeonatos-nacionais-no-brasil/

(2)

http://impedimento.org/2013/02/25/por-que-morrem-os-clubes-pequenos/

(3)

https://poucodeprosa.wordpress.com/2013/01/23/brasil-em-18o-lugar-no-ranking-da-fifa-culpa-do-ranking/

(4)

http://trivela.uol.com.br/espanha/governo-espanhol-quer-o-comunismo-no-futebol-ou-quase-isso

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4 respostas para O calendário anual fez o futebol brasileiro declinar. E pode fazer o futebol brasileiro se reerguer

  1. Bebeto disse:

    Na verdade, acredito q a solução seja os estaduais serem o ano td, pontos corridos turno e returno.
    E copas abertas (estilo fa cup) estaduais.
    E o torneio nacional seria uma liga dos campeões (com formato semelhante ao homônimo europeu)

    15 a 30 ligas “estaduais” com 10 a 16 times, com um turno por semestre;
    4 a 8 torneios regionais ao fim da temporada (4 datas-mata mata);
    Campeões regionais direto na fase de grupos;
    3 datas de fase preliminar, para completar 16 participantes na fase de grupos, disputada entre os campeões das ligas e copas, não campeões regionais e os melhores colocados das ligas com melhor coeficiente (tb semelhante ao ranking de ligas da UEFA);
    27 copas legitimamente estaduais (times q jogam o brasileiro entram somente nas fases finais);
    Brasileiro com fase preliminar e de grupos no primeiro semestre e mata mata no segundo;
    Libertadores reformulada:
    Primeira etapa regional:
    Brasil (sendo o campeonato brasileiro essa etapa)
    América do Sul (pode ser dividido em 2 regiões)
    Caribe
    América Central
    América do Norte
    Segunda etapa:
    Mata mata com 8 times

  2. horacio nelson wendel disse:

    Tenho uma solucao de calendario, que resolve todas as questoes levantadas em seu artigo, O estudo levou 6 anos, está na CBF – Globo e Ministerio do Esporte.

  3. Mauricio disse:

    Olá Leonardo. Mais uma vez venho aqui comentar sobre o problema do calendário do futebol. Sei que é muito complicado resolver esta questão e conforme o leitor Tiago escreveu anteriormente acho muito difícil os clubes grandes abrirem mão de receber mais dinheiro da tv em nome da competitividade do campeonato. Em curto prazo acho que a melhor solução seria aumentar a quantidade de participantes na Série C. Sou do Rio de Janeiro e sei o quanto este modelo elitizado de organização do futebol está acabando com os clubes tradicionais do RJ. Bangu e América já não possuem força nacional há bastante tempo e os times do interior do RJ infelizmente não tem estrutura para permanecer muito tempo no cenário nacional. Só conseguem algum brilho quando recebem patrocínio de prefeituras. Defendo a ideia de que a série C do brasileiro deveria ser regionalizada e dividida por grupos: Norte, Nordeste, Sul, Sudeste, Centro. Os melhores classificados de cada estado que não estivessem na série B disputariam esta competição e a quantidade de clubes representantes por estado seria de acordo com a tradição de cada estado. Por exemplo, a Liga Sudeste teria 7 vagas para SP, 6 vagas para RJ, 5 vagas para MG e 2 vagas para ES. No futuro poderiam vender até pacotes de tv paga por grupos assim como ocorre com os estaduais. Por exemplo: Tem o pacote dos campeonatos carioca, paranaense, gaúcho, pernambucano, etc.. Então teríamos também o pacote sudeste, o pacote centro-norte, o pacote nordeste…
    A Série D seria a nível estadual e também daria direito a uma vaga na Série C dentro daquelas que cada estado tem direito.
    Não consigo entender porque os clubes tradicionais que estão fora das Séries B e C do brasileirão não organizam uma Liga Nacional de Clubes? Acredito que Bangu, América-RJ, América-MG, Juventude-RS, Brasil-RS, Santa Cruz, Guarani, Remo, Vila Nova MG, Londrina, Juventus SP, Santo André dentre outros times deveriam exigir seus direitos na CBF e criarem uma nova Série C. Muitos podem achar esta proposta uma virada de mesa, mas temos que entender que estes clubes foram pioneiros e participaram do processo de criação, organização e desenvolvimento do futebol brasileiro. Quando estes clubes disputavam o campeonato nacional, o futebol brasileiro não era milionário como é agora, ou seja, mesmo com todas as dificuldades eles ajudaram a construir a base do futebol profissional de hoje e agora que a “casa” está pronta eles estão fora da festa! Até times que mudam de nome e cidade já disputaram a atual primeira divisão cheia de patrocínios enquanto que os clubes tradicionais, centenários e formadores de craques tem que se contentar em ficar fora? Sem contar o fato de alguns destes clubes terem sido prejudicados diversas vezes por “viradas de mesas”.. Sei que esta ideia é uma utopia.. talvez eu seja um sonhador.. talvez esteja errado.. mas não vejo outra solução a curto prazo. E tem mais: Se um destes times voltarem a 1ª divisão vai ser muito difícil se manterem por causa do abismo que existe entre as cotas de televisão dos grandes clubes para os demais, de certa forma esta distribuição de cotas já é uma forma de determinar quem será o time “grande” em relação aos outros e isto já caracteriza um privilégio para alguns clubes e uma salva guarda para estarem sempre na 1ª divisão. Em minha opinião estes clubes deveriam lutar muito para mudarem este modelo de segregação no futebol brasileiro. Se formos analisar todo o histórico das competições e regulamentos, veremos que não é apenas uma questão de má administração é o modelo de gestão e organização dos campeonatos que está errado. O principal argumento para mudar o modelo de organização do futebol atual é a falta de calendário para o ano todo!! Hoje apenas 60 clubes divididos nas Séries A,B,C tem calendário anual.. Na Série D se o clube for eliminado na primeira fase fica o resto do ano sem atividade, ou seja, não tem garantia de calendário anual. E a Série C também não é tão forte assim… Clubes tradicionais estão sem visibilidade com esta falta de calendário. Por causa deste ostracismo, aqui no RJ os clubes são reféns de empresários e sofrem com a perpetuação dos dirigentes no poder o que afasta ainda mais os patrocinadores.

  4. Tiago disse:

    As mudanças são necessárias, mas não vejo perspectivas a médio prazo. Afinal, quando os clubes grandes vão abrir mão de receber mais $ da tv em nome da competitividade do campeonato? Quando eles vão abrir mão de jogar estaduais de quatro meses e 25 rodadas sem receber a verba da tv? O clube dos 13 acabou por esses motivos, porque cada clube tratou de buscar mais dinheiro para si na crença de que o acordo individual é mais vantajoso do que o coletivo. Como consequência a concentração de renda agravou-se ainda mais, e quem recebe a “parte do leão” não vê razão para abrir mão disso agora.

    Creio que vamos seguir o exemplo da Espanha nos próximos anos, pelo menos até que os dirigentes se deem conta do quanto estão dependentes de umas poucas fontes de recursos. E sem diversificá-las, é impossível manter um clube independente e em condições de pleitear mudanças no futebol brasileiro.

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