O 17 de junho de 2013, e o que virá depois


Eu precisei escrever sobre o que aconteceu hoje no Brasil todo, ainda que fosse só uma opinião simplificada.

Manifestantes invadem o teto do Congresso Nacional - das cenas mais emblemáticas desse 17 de junho (fonte: UOL)

Manifestantes invadem o teto do Congresso Nacional – das cenas mais emblemáticas desse 17 de junho (fonte: UOL)

Na verdade, esses protestos, sejam eles aqui, na Turquia, na Espanha, no Egito ou em qualquer outro lugar, surgiram de dois catalisadores da insatisfação das pessoas com a classe política. O primeiro deles é a questão do direito à cidade. As pessoas querem claramente retomar o espaço público, hoje, espoliado para a iniciativa privada (e isso ficou muito claro na Turquia, por exemplo). Eles querem a cidade como um espaço para viverem e desfrutarem a vida, e não como um espaço inviável por prioridades que só favorecem certos setores da iniciativa privada, como o trânsito de automóveis e a especulação imobiliária, valorizando certos locais enquanto são criados bolsões de pobreza em outros.

Por outro lado, as redes sociais proporcionaram um fenômeno lindo: a velocidade de disseminação de informação é muito maior e os governos não conseguem lidar com isso. Nesse contexto, a informação oficial, dada pelos governos, é diferente da percepção das pessoas. Existem casos absurdos, como o do policial que quebrou o vidro do carro quinta em SP, mas a verdade é que as redes sociais fizeram a gente perceber que o discurso dos partidos políticos e governos está cada vez mais longe da prática deles. E isso foi gerando uma indignação latente.

Pra mim está óbvio que o movimento tem que se ocupar desses dois eixos: o DIREITO À CIDADE e o DIREITO À POLÍTICA. Direito à cidade engloba toda a questão do transporte público, a discussão sobre se a cidade deve mesmo continuar sendo feita para os carros e não para a mobilidade geral, como a especulação imobiliária pode ser inibida para que a cidade possa se desenvolver sem segregar seus habitantes e coisas do tipo. Direito à política diz respeito à representação, ao discurso político bater com as práticas políticas dos governos, da possibilidade de surgirem novas lideranças e delas praticarem um novo tipo de política, realmente comprometidas com demandas dessa geração, como a transparência.

Pra mim é essencial que surjam novas lideranças a partir desses protestos. O governo está agindo de forma desastrada nesses protestos, insuflando-os involuntariamente. E isso tem muito a ver com o fato de que nenhum governo aqui no Brasil, aparentemente, sabe lidar de verdade com as redes sociais. Nenhum governo entende a sociologia por trás das redes sociais, e como elas ajudam a organizar redes de uma forma extremamente rápida, baseada em interesses comuns e até mesmo em um senso de justiça coletivo que nasce nas próprias redes sociais. Precisamos de lideranças políticas que realmente compreendam toda essa dinâmica das redes sociais.

Basicamente, é isso. O movimento pode descambar e ser apropriado por partidos já existentes? Talvez. Mas eu acho improvável. Os partidos existentes estão submersos em uma lógica ultrapassada, e parecem incapazes de dar conta dessa revolta que estava represada e que acabou tendo a questão das passagens de ônibus como grande ESTOURO DE REPRESA.

Os protestos desse dia 17 de junho foram um grande formador de caráter coletivo. Muita gente insatisfeita, que nem sabia se poderia protestar por algo, acabou descobrindo isso hoje. Por isso as cidades estavam todas elétricas, esperançosas, com a sensação de que esse protesto faria diferença.

E fará diferença? Digo categoricamente que JÁ FEZ. Mesmo se tudo parar agora. Nossos políticos tinham, até hoje, a sensação de que poderiam fazer absolutamente qualquer coisa, que nada aconteceria com eles. Eu tenho certeza absoluta que essa sensação já mudou.

Parabéns a todos nós por isso. Meu maior orgulho hoje não é o de ser brasileiro. É o de ver que muitas outras pessoas estão tão insatisfeitas e ansiosas por um país melhor quanto eu, e resolveram sair às ruas para manifestar, de forma maravilhosa, toda essa insatisfação e esse anseio de um país melhor.

PS: para uma pauta de reivindicações para os próximos protestos, sugiro esse ótimo texto de Juan Arias, do El País.

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5 respostas para O 17 de junho de 2013, e o que virá depois

  1. philgeland disse:

    Falando dos dois eixos que você mencionou acima: o que aconteceu ontem foi uma tentativa sucedida de retomar o espaço PÚBLICO. Quanto a isso, São Paulo é um deserto, só serve para carros, carros e mais carros.

  2. Dick V. disse:

    Desde Boston, eu fiquei feliz com a repercussao desses protestos. Claro que deveria ser so um comeco, mas eh bom ver que o brasileiro finalmente esta acordando.

    Nao quero fazer nenhuma apologia politica aqui, mas a verdade eh que o Estado Brasileiro trata muito mal seus cidadaos. Temos uma carga tributaria gigantesca e nao recebemos nada em troca.

    Vou deixar o exemplo do meu pai, que esta em SP:

    Meu pai esta longe de ser rico, mas foi capaz de me dar o melhor (esse sim eh meu heroi). Ele tem uma pequena empresa, que emprega cerca de 30 pessoas.

    Toda a noite, ele sai da empresa escoltado por um seguranca. Dai, sai, pega sua carroca motorizada (carro que nenhum outro do lugar do mundo aceita) e vai ate sua casa. No caminho, torce para que nada lhe aconteca, passando por ruas em estado deploravel. Dai, chega a sua casa, cercada de grades e camaras.

    Ele paga seus altos impostos religiosamente, emprega uns 30 chefes da familia, pra que? Para nao ter seguranca, para ter que pagar escola para sua filha, ter que pagar seguro saude para a familia, dirigir uma carroca entre ruas esburacadas e viver entre grades. Eh justo isso?

    O dia que o brasileiro acordar, perceber que merece um pais muito melhor, o Brasil sera um pais imparavel, acreditem-me. E rapido. Embora mal treinado, temos enorme potencial humano, temos riquezas para dar e vender, nao temos terrorismo, furacoes, terremotos, problemas de intolerancia, separatismo como outros paises, enfim potencial para sermos um grande pais nao falta. Sobra ate.

    Falta o povo acordar e exigir o que merece.

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