Com quem eu falo então? – por Bruno Perpétuo


Dica aos amigos politizados e academicamente privilegiados. Vocês estão tentando analisar um movimento catártico por um viés analítico, pragmático e retórico.

Vocês estão muito instrumentalizados criticando a forma equivocada e, notoriamente, atabalhoada que a garotada tá reagindo, quando eles na verdade, apenas por ignorância e por não possuírem suas formações, estão pedindo ajuda de como resolver o embate “não acredito no sistema de votação brasileiro, ponto, me ajudem espertões a arrumar uma saída e não me venha com blá, blá, blá das ferramentas democráticas. Eu já entendi que tô fazendo merda, mas tô puto do mesmo jeito. Seja criativo e coloque em idéias o que em mim é apenas revolta”.

Entenderam? Quem tem os instrumentos deve ser criativo e tentar pensar algo novo. É um novo momento mesmo, os padrões históricos apenas servem de referencial e não de repetição.

“Queremos para ontem!”

E respondemos em tom blasé: “Eles não conhecem a história. Eles não conhecem o processo.”

Amigos, não é um movimento popular, é uma catarse popular. Vocês estão cobrando de uma população catártica, despolitizada, hedonista e infantilizada (retratos dessa geração) que eles vão estudar e voltem para as ruas. Ué, mas eles não podem reclamar se assim o forem? Só pode reclamar quem tem PHD? Só pode reclamar quem milita há muito tempo? Só pode reclamar quem é racional e maduro? Eu não tenho o direito de ser idiota? Me soa muito estranho este pensamento vir de pessoas que defendem a liberdade tão apaixonadamente.

Eles sabem que não é a Dilma que faz tudo, eles estão é perguntando “com quem eu falo, então?”

Eles desconfiam que estão agindo de maneira que colocam em risco à democracia, mas pensam nisso apenas depois, por que os mais politizados, por estarem presos às regras e às normas perderam o fogo nos olhos, a raiva, o visceral que eles exigem hoje em dia para liderá-los. Acham sectário e perigoso estarmos atados às regras, justamente quando anseiam que elas sejam mudadas.

A questão que vivemos hoje em dia sai do academicismo e cai na esfera psicológica e moral, daí a formação dos guetos fundamentalistas, dos quais os neo-pentecostais estão mais em voga, mas que também estão presentes nos grupos progressistas… mas isso é um perigo falar hoje em dia, rs.

Portanto queridos, se não querem mais as ruas (é um direito, claro), utilizemos todo nosso conhecimento, tempo livre, maturidade para tentar pensar algo novo, algo que não daria certo antes e que poderia dar certo agora em um novo momento histórico.

Eles usam referências tolas de quadrinhos, filmes de Hollywood, atores globais e outras bobagens porque seus pares intelectualizados não apareceram com nada novo nos últimos tempos.

Sim, é bobo pedir democracia direta. Sim, é bobo falar Annonymous. Sim, é bobo se maquiar de ator. Mas é tudo lídimo, democrático e verdadeiro, e se você não entendeu, é um pedido de ajuda.

E você aí discutindo Bakunin.

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11 respostas para Com quem eu falo então? – por Bruno Perpétuo

  1. livia disse:

    Não concordo. Não são apenas jovens mas uma parcela grande de gente de todas as idades, não é questão de não poder reclamar, é questão de saber o motivo de reclamar, uma simples insatisfação não é motivo para você espalhar ideias errada e incentivar que outros a sigam. Esse hedonismo que toma conta mesmo da nossa sociedade foi o propulsor dessa massa que compareceu as manifestações, que antes mesmo de querer estar puto estava antes de mais nada querendo falar que “fez parte de algo” e que fez “acontecer”. Só dá pra tentar entender isso como um pedido de ajuda se encaramos a transformação desse manifesto em micareta como um sintoma realmente preocupante de que mesmo diante de situações sérias, palpáveis e preocupantes, o “mostrar-se algo” tornou-se mais importante do que o fazer o algo em si. Sei que ali havia muito tipo de gente e várias interessadas de verdade, mas me desculpe falar isso, a grande maioria mesmo tratou os manifestos com um evento social…praticamente um carnaval fora de época. O problema não é a ignorância ou a falta de conhecimento de grande parte dos que participaram mas sim a banalização com a qual trataram um instrumento tão digno e belo da democracia, que é a manifestação popular em peso em prol de um objetivo concreto.

  2. Paulo Eduardo disse:

    Fugindo totalmente do assunto Leo, vc não poderia escrever alguma coisa sobre a tv brasileira de hoje em dia? Programas como panico, fantastico, novelas e etc. Acho q essa midia em geral faz uma lavagem cerebral nas pessoas…

    • Léo Rossatto disse:

      Paulo, valeu pela sugestão, eu realmente gosto muito de falar sobre mídia, mas acabo me prendendo mais à questão conceitual, porque confesso que não tenho tempo pra assistir a maioria das novelas ou programas como o Fantástico. Em todo caso, não prometo nada, mas é um assunto muito interessante de se discutir. Um blog todo muito bom sobre o assunto é o Teleguiado, do Leandro Sarubo: http://teleguiado.wordpress.com/

  3. Bibs disse:

    Nossa mas na verdade pra mim o que mais tá incomodando é o machismo/homofobia/discriminação no geral q ando vendo por aí nas manifestações :/ e também um cara q vai com um cartaz “menos imposto mais boquete” não sei se ele tá nossa de boa vontade nem nada

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