Nerds – a evolução histórica e o contexto atual


Houve um tempo em que ser um jovem estudioso e tímido era um enorme fardo. Você era inferiorizado pelos colegas da escola, excluído dos meios sociais, ridicularizado pelas garotas mais populares. Isso era ruim e toda uma geração de crianças estudiosas cresceram com o estereótipo do nerd, rótulo criado no final da década de 1950 no MIT (Massachussets Institute of Technology) e que começou a definir de forma pejorativa o sujeito que se afundava nos livros e não fazia questão de manter qualquer relação social.

O conceito original de nerd como “sujeito estudioso que tem deficiência em suas relações sociais” ficou em algum lugar da década de 90. E isso porque o nerd passou a ser um exemplo de profissional bem sucedido, personificado em figuras como a de Bill Gates. Era quase uma jornada à terra prometida: você era inferiorizado na escola e não mantinha relações sociais, mas se tornava um profissional de sucesso e ia à desforra depois.

Cabe ressaltar que esse estereótipo negativo da figura do nerd foi muito popularizado nas décadas de 70 e 80, quando diversos filmes e séries ridicularizavam e tentavam enquadrar nerds em tipos específicos, como o “magrelo de óculos cheio de espinhas” ou o “gordinho desengonçado”. Conseguiram fazer isso com relativo sucesso, e quem fez ginásio ou colégio nas décadas de 80 e 90 e se enquadrava nesse estereótipo era bem zoado e ostracizado pelo resto da turma (nada de bullying, bullying é pós-moderno, é o escanteio curto da análise social, me apropriando de uma expressão do sempre sábio Arthur)

Paralelamente a isso, foi surgindo outro movimento entre os nerds: o de segmentação. Nerds não são um grupo social definido e homogêneo. Da década de 90 em diante, passaram a existir tipos de nerd. O geek, viciado em tecnologia. O gamer, viciado em games, o jogador de RPG ou de jogos de tabuleiro, o fã de séries e livros clássicos ou de ficção científica, e a pessoa que faz algumas ou todas dessas coisas junto, reforçando o estereótipo.

Ainda no final da década de 90, a Internet proporcionou a esse grupo de pessoas novas formas de interagir com pessoas que compartilhavam os mesmos interesses, o que impulsionou bastante as relações sociais para esse grupo de pessoas. Além disso, nessa época, em específico, a própria Internet, em fase de consolidação, era vista como “coisa de nerd”. Foi um terreno propício para esse grupo se sentir confortável e explorar suas relações sociais, sob a proteção de um avatar ou de um apelido.

Com isso, essas pessoas, com diferentes preferências e ideologias, conseguiram superar, aos poucos, o estigma associado aos nerds de serem refratários ao contato social. A superação desse estigma social, associada às sucessivas histórias de sucesso envolvendo nerds (especialmente em negócios envolvendo serviços de Internet, que cresceram muito rápido), mudaram a concepção que a sociedade faz desse tipo social. Ele não só foi aceito como também se tornou “cool”, desejável e, na prática, um exemplo a ser seguido.

A segmentação e a aceitação da figura do nerd fizeram com que, aos poucos, esse tipo social fugisse de seu padrão original. Hoje, um “nerd” é assim denominado muito mais pelo que consome (produtos de alta tecnologia, séries, videogames, livros, filmes) do que pelo que conhece. O nerd foi vinculado ao consumo, a ponto de existirem legiões de fãs de empresas de tecnologia, como a Apple, e grandes conferências para o lançamento de novos produtos, como os videogames (console é que nem bullying e escanteio curto…).

Prova dessa aceitação é a mudança na abordagem do nerd por filmes e séries de TV. A abordagem depreciativa dos anos 80 deu lugar a uma abordagem positiva, em que a figura do nerd é admirada e tem sucesso inclusive com as mulheres. O maior exemplo disso é a série The Big Bang Theory, que relata desde 2007 o cotidiano de alguns jovens nerds que contam sua vida de desventuras prévias e relativo sucesso na atualidade.

Atores de The Big Bang Theory no People Choice Awards (fonte: www.fanpop.com)

Atores de The Big Bang Theory no People Choice Awards (fonte: http://www.fanpop.com)

A questão principal é que a identificação principal do nerd não ocorre mais pelos seus hábitos ou pelo seu caráter, e sim pelo que ele consome. Até a década de 90, a figura do nerd frequentemente se confundia com o que na escola chamávamos de C.D.F. (C…abeça de Ferro), termo usado para distinguir, de forma pejorativa, o sujeito que estudava demais, que era inteligente, que ia bem nas provas.

No entanto, isso não ocorre mais. O “nerd” nem precisa se destacar mais pela sua inteligência, em boa parte dos casos. O que aconteceu com a figura do nerd foi uma espécie de apropriação pelo mercado. Virou um tipo, sub-dividido em vários tipos possíveis, mas classificado necessariamente por um padrão de consumo.

Se, por um lado, isso é bom, pelo fato de que hoje o nerd é aceito e não sofre mais com a ZOEIRA dos coleguinhas (que não tem limites), por outro lado é ruim, porque o pouco convívio social fazia, na maioria das vezes, com que o nerd se dedicasse ainda mais aos estudos, como uma espécie de válvula de escape para a sua solidão. Essa válvula de escape não é mais necessária em um mundo em que as pessoas podem fazer com que as outras construam uma imagem de si através das postagens, comentários e fotos em redes sociais.

Hoje, com o excesso de informação ao redor, estamos formando toda uma geração de pessoas que consomem os produtos “nerds”, só que sem a curiosidade e o desejo por aprender que eram a grande característica original do nerd. A convivência social cada vez mais nos torna especialistas em tudo, mas de maneira genérica. Todos somos nerds.

Como os nerds de hoje, não nos caracterizamos mais por ter um conhecimento aprofundado daquilo que gostamos, tentando chegar ao limite daquela área, e sim por termos um conhecimento superficial de todas as coisas. E isso, mais do que um reflexo da mudança do pensamento nerd, é um reflexo da mudança do mundo e de seu regime de fabricação e disseminação do mundo, associado ao desejo ainda presente do nerd original de absorver, como uma esponja, todo o conhecimento possível.

E, finalmente, a história da figura do nerd, bem como sua posição na sociedade atual, nos mostram uma coisa importante: que no nosso momento histórico, a inteligência não consiste mais no acúmulo do máximo de conhecimento possível. Isso pode ser inútil. A inteligência consiste, no fim das contas, em fazer o melhor uso possível do conhecimento que você tem, seja ele muito ou pouco. E a sabedoria, por sua vez, significa reconhecermos tudo isso e mesmo assim agirmos com humildade suficiente para continuar aprendendo e ouvindo a todos os que nos cercam, todos os dias. Mesmo que aparentemente essas pessoas tenham acumulado menos informações que nós.

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15 respostas para Nerds – a evolução histórica e o contexto atual

  1. Sybylla disse:

    Ainda vejo preconceito com mulheres nerds. Sei porque sofro disso constantemente. Eu sempre sou cobrada. O quanto de Star Trek eu vi para ser fã da série, o quanto de Isaac Asimov eu leio para ser fã do autor, quantas horas por dia eu jogo Starcraft. Infelizmente, existe muito sexismo dentro da cultura nerd. Basta ver o modo como as mulheres são retratadas em The Big Bang Theory.

    Essa fiscalização da nerdice alheia é um saco. Por que eu não posso entrar numa loja, comprar meu jogo preferido e sair sem ser ridicularizada ou ser chamada de wanna be nerd? Só por que eu sou mulher eu não tenho o direito de gostar disso? Não estou nessa pra caçar namorado, nem pra agradar ninguém a não ser eu mesma. Mas lanço um livro de contos de FC e uma cambada de caras veio me questionar e dizer pra eu ler mais, assistir mais, jogar mais, pois obviamente eu estava fazendo algo em um ramo que “desconheço”.

    Acho bacana mesmo que a cultura nerd se popularize, que as pessoas não tenham vergonha de se intitularem nerds, mas para as moças, para as mulheres, ainda pesa essa fiscalização e até achismos de outras mulheres, que acham que se somos nerds é pra pegar macho. Gente, pare, apenas pare. Deixe que as mulheres consumam nerdices, discutam, debatam, e não fiquem fiscalizando, pois o universo nerd é grande demais para alguém conhecer tudo e eu não tenho obrigação nenhuma de ficar me provando para ninguém.

  2. Cesar Kohl disse:

    O grande lance eh que os nerds tiveram a SORTE de estar prematuramente no ambiente da alta tecnologia e, com o passar dos anos, este cada vez estar mais popular, envolvendo-se em mais dinheiro, estando mais vinculado ao poder. Assim, nerds estao mais proximos do poder. Dai vem todo o resto como, por exemplo, o poder de consumo e usar oculos de armacao grossa.

    A media da sociedade, na sua ignorancia cronica, sempre SEGUE o poder na maneira de ser e na aparencia representada. Por isso que existem seriados populares sobre nerds: para as pessoas acharem que, assistindo a piadas, estarao melhor localizados no guarda-chuva do poder.

    Eh importante ressaltar que estas culturalidades indicam desfocadamente esta ideia de que agora (finalmente!) chegou a vez dos nerds. Mas nao eh isto. O que acontece eh sempre a mesma coisa desde o saudoso Socrates: SEMPRE serah a vez de quem tem o PODER.

    Aposto meus chars de WOW e LOL que as loiras pintadas de hoje seraum as maes das loucas por uma plastica para deixar os olhos mais asiaticos. PO-WER.

    E o resto, meu amigo, eh segmentacao de mercado visando campanhas de marketing mais lucrativas.

  3. Fernando disse:

    Acredito que o nerd de hoje está relacionado num misto de consumo (que vc já falou) e exibicionismo. Essa combinação gera publicidade gratuita para as empresas e produtos que esse nerd idolatra.
    Sobre o exibicionismo, não basta apenas consumir. O nerd contemporâneo precisa mostrar nas redes sociais, vinculando redes específicas ao Twitter/Facebook, por exemplo, anunciando o game, o filme, o livro ou a música que ele consumiu. Isso é, na minha opinião, uma babaquice tremenda. O que vai render para o próximo?
    E essa coisa de nerd que quer saber tudo não existe e é um paradoxo. Imagine o fã de gadget, mas que só compra e arrasta sardinha pra Apple? Ou o cinéfilo (isso é nerd?) que só assiste filmes de ação e ignora filmes “de arte” porque “é coisa de esnobe”.
    Aliás, essa questão de se especializar em uma coisa e por isso ser nerd é relativa pelo alvo. Se for computador, ok, é nerd. Mas se o cara for viciado em política ou futebol, assuntos menos “guetizados”, como fica?

    • Léo Rossatto disse:

      Então, Fernando, seus questionamentos são bem pertinentes. A questão é que o conceito de nerd, por ser tratado de forma pejorativa desde o início, nunca foi muito sistematizado. E essa transição do “especialista” pro “generalista” é algo que vai além dos nerds em si, é algo presente na nossa sociedade, tem a ver com a transição do fordismo para a era da informação.

      E existem coisas que não são tão estigmatizáveis. Se o cara é viciado em política ele é o “chato que discute política”, se é viciado em futebol é “o que só pensa em futebol”. A sociedade cria estereótipos para tudo, sem necessariamente tratar o cara como nerd. O nerd tem uma relação meio íntima com a vanguarda tecnológica, é impossível negar isso.

  4. philgeland disse:

    P. S.
    E sim: cada um é um nerd. Cada um do seu jeito.

  5. philgeland disse:

    Gostei do seu post. Aliás,isso me lembra de alguém …

    Quando eu frequentava o ensino médio, o computador – embora já conhecido – ainda era um aparelho cuja tecnologia só se manifestava na forma de um calculador eletrônico nas aulas de matemática e da física. Um bom amigo meu, naquela época, era – nos termos de hoje – um nerd, sem dúvida. Não tinha namorada, nem namoradinha, só estudava. Um cara quieto, invertido, mas ambicioso naquilo o que fazia e planejava fazer. Nada chato, na verdade. Só um pouquinho, de vez em quando. Fechado, de vez em quando. Assim como eu, embora de outra forma. Mas éramos bons colegas. De verdade.

    No contexto atual, muita gente teria chamado ele de “nerd”. E daí? Palavras e conceitos raramente conseguem “definir” alguém.

    Obrigado por me lembrar dele.

  6. dudapimenta disse:

    Dentro especificamente do mundo dos nerds de computação (hackers) há um sociólogo que acompanhou o preíodo de desenvolvimento e criação históricos da comunidade, e escreveu alguns livros sobre o assunto, como “A Catedral e o Bazar” (sobre os modelos de desenvolvimento de softwares proprietário e livre, e suas implicações sociais para suas comunidades de desenvolvedores). Já ouviu falar, Leo? O nome dele é Erik S. Raymond e entre outras coisas mantém o Jargon File, mais conhecido como Dicionário Hacker.

    • Léo Rossatto disse:

      O dicionário hacker eu conheço, o “A Catedral e o Bazar” não. Mas é notório como esses grupos são pioneiros na integração com os pares por afinidades ou projetos em conjunto na Internet. Por isso o desenvolvimento de softwares livres e o trabalho colaborativo dão tão certo também.

      E valeu pela sugestão de leitura, inclusive vou ver se vou atrás.

  7. Rangel disse:

    muito bom mesmo!!! excelente análise. Sempre me considerei “meio” nerd, por me encaixar em diversas caracteristicas, porém, estranhamente sempre fui “´popular”, mas DIFERENTE, assim digo até hoje e acompanhar a mudança do esteriótipo nerd para o valor de mercado nerd é bem interessante. E como chamariamos então os garotos timidos, estudiosos, a parte do que a midia vende hoje em dia??? boa pergunta.

    • Léo Rossatto disse:

      Cara, não tem uma definição. Muita gente chamaria de nerd mesmo, mas virou uma coisa tão grande e com tantos significados que fica difícil definir.

  8. Hoje em dia temos wannabe nerds… Quem diria!
    Acho bem ridículo, sinceramente.

  9. Muito bom, compartilhando 🙂

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