O time que foi para a terceira margem do rio


O velho pai chegou ontem ao Independência ressabiado. Antes de tudo por ser um torcedor do Atlético Mineiro, sempre com o cuidado de torcer sem criar expectativas, tão cauterizado com as agruras que os deuses do futebol sempre aprontou com o clube. E isso porque, como torcedor velho de guerra do Galo, ele tem ciência de que os deuses do futebol sabem ser irônicos com seu time. De que as derrotas dilaceram. Ele tem o coração cauterizado. Mas, como outro velho pai, decidiu ir.

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Chegou ao estádio horas antes, lutando contra sua própria descrença. Viu jovens acreditando, sem medo. Teve pena. Porque já tinha sido um deles no final da década de 70. Tinha visto seu time perder títulos de forma inacreditável, como o Brasileiro de 1977 e a Libertadores de 1981. Por isso não se impressionou quando Ronaldinho Gaúcho emulou um jogador paquistanês de CRICKET para lançar Bernard. Não se impressionou com o gol aos três minutos. Ele sabia que as coisas não seriam tão fáceis.

Ele estava certo. O Atlético cansou de criar chances no primeiro tempo. O Newells tinha brio. Heinze saiu machucado. Guzman se fantasiou de espantalho. Foram quase dez minutos a mais só na primeira etapa, e o velho pai viu todos os seus fantasmas virarem realidade quando um pênalti não foi marcado em Jô e o time começou a se comportar como cachorro louco em campo, como se todo lance fosse o último.

O intervalo do jogo, que deveria dar fôlego para o segundo tempo, foi uma tortura. Porque o torcedor ressabiado sempre espera a desgraça. O jogo se arrastava. 54 minutos de primeiro tempo, quase 20 de intervalo, um segundo tempo torturante, em que o Atlético Mineiro voltou apenas com o descontrole dos cachorros loucos, sem a agressividade.

Passaram-se dez, vinte, trinta minutos. Os leprosos cozinhavam o jogo com uma malemolência calculada, tocando a bola e trazendo pesadelos à torcida atleticana. A esperança dava lugar ao medo, que já começava a adquirir ares de desespero. Quase todos compartilhavam a descrença daquele pai. Lágrimas começavam a escorrer. Voltou a sensação da boca amarga e de que os deuses do futebol são especialmente irônicos contra o Atlético Mineiro.

No banco, Cuca parecia revisitar sua história de frustrações como técnico. Uma história de um treinador que faz seus times jogarem futebol e que se entrega de corpo e alma aos seus times, ao ponto de sofrer como um torcedor à beira do gramado, de joelhos, segurando o choro, passando a mão no rosto de maneira frenética e descontrolada. Uma história que fez com que ele se identificasse com o Atlético Mineiro, como dois bêbados se apoiando na saída do bar e andando cambaleantes pela rua, a caminho de um lugar de descanso qualquer. Ambos não sabem para onde vão, só não querem permanecer no mesmo lugar.

Cuca não sabia o que fazer. Parecia ter medo de trocar qualquer um no time: não queria errar, perder o controle e estragar tudo, como tantas outras vezes. E errou. Tirou Pierre, Bernard e Jô e deixou em campo um apagado Ronaldinho Gaúcho, que sumiu de campo após o passe para o gol, que nem cobranças de falta estava acertando. Colocou Luan, Alecsandro e Guilherme. Tudo estava perdido. Não tinha como dar certo. O jogo estava todo nas mãos dos leprosos de Rosario.

E então a luz caiu, em mais um ingrediente da ironia divina pra prolongar o sofrimento do torcedor do Galo. O jogo parou. E, como num passe de mágica, a torcida começou a cantar Camisa de Vênus na arquibancada, de forma instintiva, espontânea, sem ressalva. Mesmo sabendo do risco de emular o verso final da música, o “não vai haver amor nesse mundo nunca mais”. Porque “Yes, we C.A.M.” é meio blasé. Não envolve. A maioria dos torcedores não se envolve. O certo é cantar “EU ACREDITO”. Era uma resposta aos deuses do futebol, dizendo “olha, vocês podem dar risada da gente, mas continuaremos torcendo até o fim.

Então aquele velho pai do início do conto deu adeus. Resolveu pegar sua canoa e ir para o meio do rio. Queria encontrar a si mesmo, queria encontrar seus fantasmas. Queria acreditar, sem ressalvas, gritar sem medo como já tinha feito tantas outras vezes, antes de ser calejado pela vida. E gritou. Se fez um com toda aquela torcida, que fez a luz voltar aos berros em tempo recorde no estádio (12 minutos), tal como uma criança em Monstros S.A.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Você não está ouvindo, mas a torcida está cantando (Fonte: globoesporte.com)

Você não está ouvindo, mas a torcida está cantando (Fonte: globoesporte.com)

E então, logo depois, o milagre aconteceu. Guilherme, contestado pela torcida, bancado por Cuca em todos os momentos, tentou chutar a gol pela primeira vez. A bola passou à esquerda de Guzman, fazendo curva para fora. Foi perto do gol, mas era um sinal. No seu segundo chute, a bola também passou à esquerda de Guzman, fazendo curva para fora. Mas morreu no fundo do gol. O milagre parecia possível.

Mas, para aquele velho pai, o milagre já estava feito. O milagre era o de acreditar, o de pegar a sua canoa e ir para o meio do rio. Não para chegar ao outro lado, mas para permanecer lá. Ele tinha recuperado a coragem, a ousadia de querer entrar na água e ficar nela. Não para chegar em algum lugar, mas pelo prazer de permanecer navegando sem nenhum rumo.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.

Esse era o milagre. E, naquele momento, não importava mais o que poderia acontecer dali em diante. O jogo ficou elétrico, não no sentido de intensidade, mas no sentido de que todos os jogadores em campo pareciam estar tomando um choque. Permaneciam desorientados. Tentavam fazer algo, sempre sem sucesso. Os pênaltis eram mais uma armadilha do DESTINO para os torcedores que acreditaram, depois não acreditaram, depois acreditaram novamente. No apito final do árbitro, aos 58 minutos do segundo tempo, não havia quem não estivesse transtornado no estádio.

Então vieram os pênaltis. Contra um time que havia cobrado 26 penalidades na fase anterior. Duas cobranças corretas de cada lado. E a ironia divina atacou novamente. Jô tentou uma cobrança sorrateira no canto esquerdo de Guzman, que de tão no canto foi para fora. Casco acertou a trave de Victor, alguns centímetros acima de onde a coruja dorme. Richarlyson e Cruzado trouxeram inusitados momentos de HUMOR à disputa ao cobrarem dois Field Goals.

Então surgiu Ronaldinho Gaúcho, o “erro” de Cuca, que não tinha feito nada desde o primeiro gol. Aquele que merecia perder mais do que todos. Mas os deuses do futebol são irônicos, e não apenas escrevem em linhas tortas, mas também com chutes de trivela. Gol do Galo.

Assim como no jogo contra o Tijuana, a decisão estava na mão de Victor. Outro que, a exemplo de Cuca, ajoelhado no gramado, e do próprio Atlético Mineiro, conviveu por muito tempo com a pecha de fracassado. Que se tornou herói ao defender de voleio o pênalti do Tijuana aos 47 minutos do 2º tempo nas quartas de final. E que tinha como destino tornar-se herói novamente, pegando a cobrança de Máxi Rodriguez e classificando o Galo para a final da Libertadores, nessa campanha que já é épica, mesmo que a realidade cobre a conta e o Atlético perca do decano na finalíssima.

Aquele velho pai voltou a acreditar. E permaneceu no rio. Só sairia de rio quando fosse para dar os remos para alguém que, como ele, tivesse a ousadia de acreditar. Senão, remaria até o fim. O Atlético Mineiro, a exemplo daquele velho pai, está encontrando algo maior do que o triunfo nessa Libertadores: está encontrando a si mesmo.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto… Agora, o senhor vem, não carece mais… O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!…” E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.

Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia… Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

PS: se você quiser ler o conto completo “A Terceira Margem do Rio”, de Guimarães Rosa, clique aqui.

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8 respostas para O time que foi para a terceira margem do rio

  1. Marcelo S Torres disse:

    Prezado Leonardo
    Fui apresentado hoje ao seu blog e encontrei essa inefavel narrativa. Parabens pela poesia e por nos lembrar que o futebol deveria ser sempre assim. E nao o assado que tentam fazer por ai.
    Parabens.

    Em tempo: nao sou atleticano e ate pelo contrario.

  2. Eu tambem achei o “apagao” bastante oportuno. Eh soh lembrar de como ia o jogo ate o “apagao”: torcida atleticana calada, apreensiva, o time nao conseguia sequer incomodar a defesa do Newell’s por afunilar o jogo em excesso, o goleiro da Lepra nao trabalhava. Enfim, a sensacao que dava eh que o Galo nao ia conseguir. Dai veio o apagao, que durou somente uns 10 minutos, e deu aquele animo a mais. Nao tem como nao desconfiar.

    De qualquer forma, parabens ao Galo. Quando o Richarlyson isolou o penalti dele, achei que o Newell’s nao ia desperdicar a chance. Enfim, jah passou da hora do Galo ganhar um titulo desse tamanho pela historia, pela torcida que tem.

    E dos 12 grandes clubes brasileiros, somente o Botafogo nunca foi finalista da Libertadores, que eh a grande competicao do continente. E se o Galo ganhar (eu acho que vai ganhar), so sobraram Fluminense e Botafogo como virgens das Americas. Alem do Luxa ahahah

    • Léo Rossatto disse:

      Oportuno sem dúvida foi mesmo. Mas daí a falar que foi armado tem uma grande distância. E o gol do Guilherme saiu num lance fortuito também, o Atlético não melhorou no jogo, acabou achando o gol, mesmo.

  3. Léo Rossatto disse:

    É coisa que precisa de apuração. Mas se foi feito de propósito obviamente precisa de alguma punição.

  4. Guilherme disse:

    Sou a favor de que se as luzes se apagarem no estádio, o tempo continua correndo sem acréscimo. Óbvio que isso jamais vai acontecer, até porque a Conmebol nunca teve e nem vai ter culhão pra punir esse tipo de coisa.

    Conseguir um “milagre” agindo feito time pequeno é fácil. Ainda bem que meu time ganhou uma LIbertadores invicta sem apelar pros costumeiros artifícios da várzea sulamericana. (apesar de ter sido vítima deles na Vila Belmiro)

    • Léo Rossatto disse:

      Hahahaha se aprovassem uma regra dessas o que teria de time apagando a luz quando conseguisse o resultado desejado seria uma grandeza.

      • Guilherme disse:

        Que se punam de outra forma então.. tira mando de campo, tira torcida, sei lá.. o time mandante é responsável pelo estádio, se deu problema com a luz, eles que se virem pra resolver.

        Engraçado que TODA vez que as luzes se apagam no estádio são sempre nos momentos mais “oportunos”.

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