Pequeno manual de convivência do autista seletivo


Autismo é uma disfunção que afeta a capacidade do indivíduo de interagir com o ambiente que o cerca. É um transtorno de desenvolvimento que afeta a interação social, assim como a Síndrome de Asperger.

O autista não sofre de nenhuma deficiência mental, ao contrário do que muitos acreditam. Inclusive, a capacidade deles de manter o interesse em questões específicas é muito positiva em um cenário em que são realizados cada vez mais diagnósticos de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), mesmo com controvérsias enormes em relação à definição do TDAH como doença – o psiquiatra que descobriu o transtorno, por exemplo, admitiu, em seu leito de morte, ter inventado a doença.

Controvérsias à parte, é um fato que transtornos de desenvolvimento e de interação social como o autismo, mais do que disfunções, são fenômenos culturais. Em uma sociedade cada vez mais conectada e repleta de novos meios de interação, o autista é discriminado como um sujeito que não se importa com esses meios. A noção do autismo como disfunção, do ponto de vista social, só existe pela demanda cada vez maior da sociedade por comunicação e sociabilidade como valores positivos. O que pode não ser verdadeiro para todos.

O autista, o sujeito que sofre com Síndrome de Asperger ou que tem qualquer outra disfunção diagnosticada no desenvolvimento de suas interações sociais merece, antes de qualquer outra coisa, respeito. Muita gente fala em dar carinho, como se eles fossem apenas tímidos. Não é assim. Eles são reativos às interações sociais, na maioria dos casos. O que eles necessitam é de pessoas que respeitem suas condições, os tratem adequadamente e os ajudem a explorar suas potencialidades, que são enormes.

Nesse contexto, surge um novo elemento na sociedade: o autista seletivo, que não sofre nenhuma disfunção clínica em seu desenvolvimento, mas reconhece que a postura do autista em certas situações é positiva e merece ser imitada para a manutenção de uma qualidade de vida adequada.

O autista seletivo adota esse estilo de vida por diversos motivos. Pode ser tímido (e sobre o assunto, recomendo essa mini-entrevista do Dafne Sampaio com o Bruno Maron), pode estar calejado pela vida e querer só as interações necessárias, ou pode ter medo de represálias. Existem outros motivos também. Mas o fato é que o autismo seletivo serve sempre como uma forma de proteção. Contra os outros ou contra si mesmo.

O autismo seletivo consiste na recusa sistemática e voluntária da interação social em determinadas situações. A autista seletivo, de forma consciente ou inconsciente, adota uma postura utilitarista quanto às relações sociais. Se ele achar que as relações sociais valem à pena, as cultiva. Se achar que não valem a pena, as descarta. E essa ponderação leva em conta inúmeras variáveis: a possibilidade de rejeição, a dificuldade em iniciar relações sociais, a recordação de respostas agressivas anteriores, o custo de oportunidade em se iniciar uma relação social em determinados ambientes, e diversas outras, que variam de pessoa para pessoa.

Cabe lembrar que essa recusa, assim como a recusa do autista, não tem a ver com pessoas em específico, mas com ambientes. O autista seletivo é aquele que recusa sistemática e voluntariamente interações sociais em ambientes em que não se sente confortável para tê-las.

Nesse sentido, vale a pena listar algumas atitudes comuns caso você se identifique com o autismo seletivo e o pratique. Nunca tive formação na área, não sou especialista no assunto, mas cultivo o autismo seletivo há muito tempo e ele pode até não trazer benefício palpável nenhum. Mas é, antes de tudo, algo confortador.

Garoto autista com fone de ouvido. Fonte: http://www.narizdegelatina.com.br/

Garoto autista com fone de ouvido. Fonte: http://www.narizdegelatina.com.br/

1) Use fones de ouvido sempre que puder: está se sentindo desconfortável? Conecte o fone de ouvido ao seu telefone, IPod, Walk Man ou a qualquer outro equipamento que emita som e o coloque no ouvido. O fone de ouvido é uma espécie de espelho mágico que promove isolamento acústico do espaço externo, permitindo não apenas que você não perceba o que acontece lá fora, mas que reflita e forme pensamentos sem ser incomodado. Usar o fone de ouvido é um exercício de reflexão poderoso. O fone de ouvido é a versão do século XXI das árvores sob as quais os pensadores sentavam e contemplavam a vida. A diferença é que, hoje em dia, é possível fazer isso em qualquer lugar.

2) Finja-se de cego. E de surdo: nem sempre é possível usar um fone de ouvido, e nessa hora é necessário utilizar abordagens alternativas para manter o isolamento. Fingir-se de cego é uma das mais eficientes. Como você se finge de cego? É simples: olhe para o nada e comece a pensar. Em poucos segundos, a informação que você recebe pela visão não terá importância nenhuma. As pessoas, em geral, tem duas reações a essa cena: ou acham que você é cego ou acham que você é louco. E em nenhum dos dois casos o seu isolamento será afetado. O mesmo tipo de coisa vale para a audição: tire sua atenção de qualquer ruído e comece a pensar. Você só será interrompido por um barulho muito alto ou por uma luz muito forte.

PS: no transporte público há um efeito colateral recorrente – você geralmente perde o ponto de ônibus ou estação de trem/Metrô para descer.

3) Leia coisas incomuns: um dos melhores métodos de isolamento é a leitura. No entanto, sempre há a possibilidade de alguém ficar olhando o que você lê em uma praça, por exemplo, e puxar conversa. Se você decidiu ser um autista seletivo, é bastante óbvio que as relações sociais naquele local não são muito bem vindas. Mas, em geral, você também não sabe ser refratário. Então o seu esforço deve ser em evitar o primeiro contato por parte de qualquer pessoa.

Leituras comuns favorecem esse primeiro contato, pelo fato de mais pessoas se identificarem com assuntos de interesse comum. No entanto, se você ler em um lugar com movimentação de pessoas sobre um tema incomum, como um estudo sobre a ocorrência de tempestades tropicais em Kuala Lumpur, por exemplo, a chance desse primeiro contato é menor. Pois as pessoas se sentem intimidadas em comentarem assuntos que não conhecem.

4) Não procure saber o que os outros falam ou escrevem sobre você: é sempre difícil, ainda mais nesses tempos em que as redes sociais popularizaram a figura do stalker. Mas ignore o que as pessoas comentam sobre você pelas costas. Comente apenas sobre o que chega até você. É sempre difícil conviver em ambientes repletos de fofocas, e mais difícil ainda evitá-las. Então não convém ficar procurando, apesar da tentação. Mesmo porque a crítica destrutiva pelas costas, feita com o intuito de que a pessoa não saiba que está sendo criticada, é mau-caratismo puro e simples. E com pessoas assim nem vale a pena interagir.

Conclusão

O autismo seletivo é um recurso social de defesa. Uma seleção das relações através da recusa. É muito mais profunda do que a timidez, por ser fruto de uma escolha. E é de simples execução, na maioria das vezes.

Quem pratica o autismo seletivo não é necessariamente tímido. Só não quer exposição excessiva. Às vezes, interage mais pelas redes sociais do que em conversas. Mas o autista seletivo é, em geral, uma pessoa normal, com comportamento normal, que escolheu tomar para si certos recursos dos autistas, em determinadas situações, emulando a forma de defesa que autistas utilizam em geral para não cultivarem as relações sociais.

Mas há um objetivo além da defesa: o autista seletivo admira a capacidade de foco e concentração do autista. Tentar emular o autismo em certas situações poe ser também uma ferramenta para manter foco, especificidade e concentração nesse mundo em que, cada vez mais, surgem informações aleatórias de todos os lados tentando sugar nossa atenção, todos os dias.

Anúncios
Esse post foi publicado em Pitacos. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Pequeno manual de convivência do autista seletivo

  1. Pingback: Pequeno manual de convivência do autista seletivo | Nossa vida de cada dia...

  2. Lizz disse:

    Autismo seletivo também pode ser confundido com babaquice. Em algum momento ambos convergem em suas ações. rs

Dê a sua opinião

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s