Caminhos do Jornalismo – Charles Nisz


A primeira entrevista da série Caminhos do Jornalismo é com Charles Nisz. Ele é responsável pelo Vi na Internet, blog de notícias curiosas do Yahoo! Segundo a descrição do site (que eu não faria melhor):

Charles Nisz é jornalista desde 2001. Já cobriu Economia, Meio Ambiente e Tecnologia, com passagem pela Agência USP de Notícias, jornal DCI, MSN, e UOL. Já foi correspondente internacional do site Opera Mundi. Mestre em Jornalismo pela USP, dá aula sobre Informação e Novas Mídias na ECA/USP e é fascinado pelas novidades que aparecem na internet.

O modelo de perguntas da entrevista será usado em todas as entrevistas da série. E a percepção de Charles é que o jornalismo realmente passa por um momento especial, que o jornalista deve se reinventar e que as relações jornalísticas estão cada vez mais baseadas na afinidade, da mesma forma que ocorre com as relações sociais. Vale a leitura:

1) Como você teve a ideia do “Vi na Internet”?

Já tinha lido e estudado sobre curadoria de conteúdo, uma nova função nas mídias surgida depois do advento das redes sociais. O princípio por trás disso é: há muitos produtores de conteúdo e com isso, o leitor está “afogado” em tanta informação. Cabe a esse novo editor, trazer um olhar próprio e indicar ao leitor coisas interessantes a serem lidas. Antes, no jornalismo industrial, você precisava de um estrutura. Hoje, é possível separar conteúdo usando FB, Twitter ou um blog. Daí surgiu o VNI.

2) Qual era a sua relação prévia com o jornalismo antes de começar esse trabalho? Você vê que sua abordagem pode ser uma alternativa para o momento de “crise” que o setor vive, com demissões recorrentes em redações e crise na credibilidade dos órgãos de imprensa tradicionais?

Tinha sido repórter na Agência USP e DCI, editor na Microsoft e na Rede TV e blogueiro no UOL. Vim da mídia tradicional, mas de 2006 em diante, só trabalhei em meios digitais. Mesmo no site onde faço reportagens mais analíticas (Opera Mundi), uso a mídia digital. É uma abordagem que combina nova mídia (blog e meu perfil pessoal no Twitter, ou seja, a minha marca pessoal), com uma publicidade antiga (banner publicitário para o Yahoo me pagar pelo serviço). Mas podemos dizer que é algo novo: seleciono conteúdo interessante ao Yahoo, presto um serviço.

As demissões ocorrem porque o modelo de negócio está em transição. As notícias mais importantes (política e economia) sempre demandarão apuração. Mas as notícias de variedades (cultura, esportes e cadernos especiais) demandarão menos gente. Com isso, as redações se enxugam. Notícias frias serão apuradas por agências e serão selecionadas (a tal curadoria) por gente como eu, Vanzo, Tiago (@elgroucho). Somos caçadores de fait-divers, aquelas notícias que não se enquadram nas categorias tradicionais dos cadernos dos jornais. E um blog/Twitter é o lugar ideal para isso.

3) Você claramente posta notícias tendo como variável o fato de achar que aquilo é interessante e o de que muitas pessoas acharão interessante. Essa sensibilidade em relação aos interesses das pessoas, juntamente com as relações sociais construídas com base nesses interesses em comum, pode ser considerada uma chave para se fazer bom jornalismo?

Jornalismo é achar fatos sensacionais sem ser sensacionalista. Essa definição do Manuel Chaparro, ex-professor da ECA, é a inspiração do VNI. Não me interessa o noticiário hard news, isso o Yahoo compra da Agência Estado. Me interessam mais aquelas notícias “esquecidas” por esses jornais por serem menos “importantes”. Mas que podem trazer alguma informação, cultura ou mesmo divertimento ao leitor. Muitas dessas notícias são tão sensacionais que superam qualquer ficção já escrita. E isso gera o interesse. Muita gente está cansada da grande mídia por isso: a numeralha econômica ou as tramas políticas não dizem nada ao dia a dia, à existência delas. Mas quando um mendigo devolve um anel de US$ 500 mil e para recompensá-lo os internautas fazem uma vaquinha e doam US$ 200 mil a esse morador de rua, isso toca o coração do leitor. A mídia passa por uma crise porque as pessoas não se enxergam na realidade descrita pelo jornal. Ao mesmo tempo, não é lucrativo publicar essa matéria no jornal impresso. Mas numa revista digital ou blog, fica viável. O VNI é uma revista digital. Nele, posto as duas matérias que achei interessantes naquele dia. Ou seja, essas caras que pensam um “novo jornalismo” tentam fazer o caminho inverso da mídia tradicional: não publicamos algo que cremos ser interessantes, mas primeiro escolhemos o público e depois vamos atrás da notícia. O Jornalismo não é vender notícia, é descobrir o interesse do público. 

Penso os blogs como os cafés do século XXI. Nos séculos XVII e XVII, as pessoas discutiam as notícias e ideias nos cafés e o rei Charles I tentou fechá-los. Nesse ambiente, as pessoas se aproximavam por afinidade ou oposição, para se confrontar com as ideias rivais. Foi esse ambiente que embalou os homens que foram para os EUA e depois fizeram a independência dos EUA (veja A invenção do ar, do Steven Johnson). Isso pode ser aplicado ao Jornalismo, é o confronto de fatos e ideias num local propício à discussão.

4) Não precisa citar valores, mas você ganha alguma coisa com esse trabalho? É algo mais rentável do que seria trabalhar em uma redação tradicional? Você vê alguma forma desse trabalho ser mais rentável (ou rentável, se não é hoje) no futuro?

Ganho o mesmo que ganharia como redator num portal. Com a diferença que não trabalho por horário, mas por audiência e tenho liberdade editorial plena. No meu caso, dependo de publicidade tradicional, então a maneira de rentabilizar é ter mais audiência. No fim, é ser interessante e relevante. E isso passa pela construção de uma marca pessoal. Antes, você era importante por estar atrelado a um grande veículo. Hoje, a marca é o jornalista, vide o Bob Fernandes e o Terra Magazine, que nada mais é que uma grande revista digital de todos os temas (política, tecnologia, economia e esportes).

5) Você acha que o que você faz tem uma “função social”? Como você avalia a repercussão do que você posta?

Tento fazer algo diferente da mídia tradicional, ainda que ligado a um grande site de notícias. A repercussão é boa, alguns mandam sugestões de pauta via FB e Twitter e acabam virando post. É sinal de que está funcionando. Muitas vezes, as pessoas estão cansadas de debater o mesmo assunto (por exemplo, as manifestações). Tentei tangenciar o tema, fazendo post sobre cartazes divertidos das passeatas, em como a música da Fiat embalou os protestos e outros temas amenos dentro do tema maior das manifestações. É dar um respiro ao leitor diante das coisas “sérias”. Ser divertido sem ser fútil.

* * *

Para ver a lista completa de entrevistas, clique aqui.

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2 respostas para Caminhos do Jornalismo – Charles Nisz

  1. L. disse:

    As respostas do entrevistado são mais longas do que os posts-artigos do blog dele no Yahoo! Brasil, que, com toda sinceridade e fazendo uso da liberdade de opinião do leitor, é escrito sem nenhum esmero. Não há cuidado na escolha dos temas, na redação do artigo e muito menos na gramática. O autor deste blog, aliás, demonstra um domínio do vernáculo muitíssimo superior. E, a julgar pela condução da entrevista, seria colunista muito mais interessante do que Charles Nisz.

  2. Pingback: Nova série – Caminhos do Jornalismo | Aleatório, Eventual & Livre

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