Caminhos do Jornalismo – Victor Martins


Victor Martins é editor do site de automobilismo Grande Prêmio, onde também tem um blog. Trabalha na equipe do site há dez anos, tem gostos excêntricos, sabe cantar o Hino Nacional da Dinamarca e é um dos responsáveis fato do site, que é parte da agência de notícias Warm Up, ir além da cobertura padrão que um site de automobilismo faria. A auto-descrição dele obviamente está melhor que a minha descrição:

É jornalista, palmeirense, dinamarquês por opção e sempre pensou que ia ter de cobrir futebol antes de chegar ao automobilismo, que acompanha desde os 7 anos. E desde que se formou, está na Agência Warm Up e no Grande Prêmio, isso há mais de 9 anos. Neste tempo, foi colunista do iG, escreveu para ‘Folha de S.Paulo’, ‘Lance!’ , ‘Quatro Rodas’ e ‘Revista Audi’, foi repórter da edição brasileira da ‘F1 Racing’, cobriu F1, Stock Car, DTM, a Indy e três edições das 500 Milhas de Indianápolis, e outras categorias ‘in loco’. Agora também é comentarista dos canais ESPN. Conheceu cidades como Magdeburgo, São Luís e Nova Santa Rita, traduziu um livro da Ferrari e já plantou um monte de árvores. Tem quem fale que seria um grande ator, mas ter ganhado o Troféu ACEESP 2011 como ‘Melhor repórter’ da imprensa escrita mostrou a escolha menos errada. Adora comida japonesa, música eletrônica e odeia ovo, ervilha e esperar. “Necessariamente nessa ordem”, diz.

Nessa entrevista, ele fala da estrutura do site, do ambiente de trabalho, de algumas experiências profissionais e de como uma agência de notícias pode ser bem sucedida mesmo sem ter uma estrutura clássica de agência de notícias.

1) Desde quando você está no Grande Prêmio? Como é trabalhar em um site consolidado desde o final da década de 90 como referência em informação confiável sobre automobilismo?

Estou no Grande Prêmio desde o início de 2003 – já se vão uns bons 10 anos, e contando. E creio que o sucesso que o Grande Prêmio tem está numa receita que parece banal, mas que não tem sido vista nas redações mundo afora: fazer jornalismo. A gente tem uma liberdade e independência editoriais que nos permitem escrever e informar, apurar e opinar sem temer a quem vai incomodar. É claro que esta independência custa em vários momentos, para não dizer todos: o Grande Prêmio, enquanto braço de uma agência de notícias, a Warm Up, não é um mar de lucro financeiro como aconteceria se estivéssemos apoiados em um grande conglomerado suscetível a um outro tipo de princípio. E em certo ponto, a falta destes recursos em abundância acabam, em uma ponta, impedindo uma cobertura que gostaríamos de aprofundar – as ‘in loco’. No começo, eu era um redator/repórter ao lado de um outro na mesma função, o Rodrigo Borges. Hoje, somos sete, e ainda é pouco pelo volume de trabalho que se concentra também em nossa revista online. Agora, minha função é coordenar parcerias e projetos e, acima de tudo, analisar os passos deste jornalismo que demonstra uma crise de gestão e de conteúdo, mas que, como disse, precisamos renovar para aprofundar e gerar mais empregos e melhores salários.

2) Qual era a sua relação prévia com o jornalismo antes de começar a trabalhar no Grande Prêmio? Você vê que a abordagem da equipe do site pode ser uma alternativa para o momento de “crise” que o setor vive, com demissões recorrentes em redações e crise na credibilidade dos órgãos de imprensa tradicionais?

O Grande Prêmio foi a primeira casa de jornalismo. Antes, eu era bancário; provavelmente estaria hoje num cargo de gerência, com mais dinheiro, mas infeliz. A maré de passaralhos e decisões dos diretores destas empresas, ao que parece, vêm em formato de cascata, quase que por embalo. Se ali manda embora, a outra copia, no velho estilo Chacrinha. E aos que sobreviveram, transformaram o jornalismo numa profissão de diarista: você passa, limpa e cozinha ou escreve para o impresso, seu texto é aproveitado para o online, e você faz ali também uma gravação em podcast em vídeo e ganha por uma coisa só – como PJ, sem direitos. As empresas (e também incluo as de publicidade) não entenderam que o impresso está ultrapassado da forma como está e, na preguiça de se renovar, demitem. Porque estão na espera de alguém vir com a lâmpada acesa com a ideia para copiar.

Aqui, sem modéstia, a gente produz um grande conteúdo e de qualidade. Dá trabalho aos nossos repórteres apurar uma reportagem como a da reforma de Interlagos, checar o projeto, ver as informações, consultar fontes. Dá outro trabalho passar aos artistas e diagramadores. Dá trabalho editar, virar madrugadas e ver se tá tudo OK para ir ao ar. E tudo isso está disponível de graça ao público. Há algum tempo a gente vem debatendo e discutindo internamente que passos devemos dar num futuro próximo. O brasileiro claramente não tem a cultura do conteúdo pago da forma que é feita na Folha, por exemplo, concebida para burlar. Mas se algo surgir de forma inteligente, e com um propósito que não apenas o da leitura (jornalismo também é colaboração), um caminho estará aberto.

3) Vocês claramente postam notícias para um público específico conciliando as informações relevantes sobre o tema com outras curiosas, que vocês consideram que as pessoas acharão interessante. A coluna do Corazza é exemplo disso. Essa sensibilidade em relação aos interesses das pessoas, indo além do que o leitor habitual de automobilismo está acostumado a ler, pode ser considerada uma chave para se fazer bom jornalismo?

Sim. A gente trabalha com um nicho que está levemente em queda no Brasil porque ainda há uma leve tendência em acompanhar um esporte conforme o sucesso de um brasileiro. Mas ainda assim, F1 e outras categorias internacionais (e outros nomes nacionais) rendem bastante. De qualquer forma, nós não podemos nos fechar a um microcosmo que é, na esfera do mundo, irrelevante. Oferecer uma opção de leitura de outros assuntos na nossa revista online é uma tentativa de fazer esse nosso leitor a ver isso, a de que “o automobilismo não é tudo”, como o título da coluna diz. E a coluna deu muito certo. Primeiro que o Corazza é genial, tem uma visão holística absurda – sabe dissecar de um alfinete à vida na Coreia do Norte, do São Paulo aos usos e costumes de Luis XIV. E com a proliferação do não-conteúdo (Ego, Caras e trololós similares, além da concorrência que não quer praticar o jornalismo), a chave está em investir em conteúdo. Parece que é descobrir a pólvora, mas o que se vê muito hoje é a busca por cliques com opiniões rasas e polêmicas. Juntando com o que disse acima, vamos tentar aqui levar à frente um plano que gere este superconteúdo, com o qual você até possa não gostar ou não concordar, mas que vá respeitar ou que perceba claramente que foi feito um bom e diferenciado trabalho e diferenciado – e com um outro fim social.

4) O Grande Prêmio funciona como uma redação tradicional? Qual a diferença entre a redação do site a a redação de outros grandes meios de mídia que cobrem automobilismo?

Não. Apesar de a maioria de nós ser de São Paulo, nem sempre estamos reunidos na redação na Paulista. A maior parte do tempo estamos em home office, mas sempre conectados no mundo virtual do Skype ou de uma rede social da vida. O Tazio tem uma redação fixa. Não vou dizer que não faz diferença – não sei como funciona no Tazio –, talvez fosse melhor se todos estivessem presentes para debater melhor pautas, verificar como fazer melhor esta ou aquela matéria, etc., mas o resultado final acaba não sendo comprometido. Como estamos sempre em contato, e como a nossa relação é muito boa – a gente está sempre na base da galhofa, brincando um com o outro, então o negócio também flui –, acaba não fazendo diferença. Sempre que dá, estamos juntos. Aí caímos para o bar. Melhor não ir além.

5) Você acha que o que você faz tem uma “função social”? Como você avalia a repercussão junto ao público do conteúdo do site?

Bem, informar é uma função social por natureza. Várias são as vezes que a gente ouve que, se não sai no Grande Prêmio, então não vale ou não é verdade. As pessoas acabam criando um vínculo com o site, com a notícia, acordam, acessam a internet, nos visitam, nos leem, sabem que somos nós, se ‘alimentam’ do que escrevemos. E cai naquilo do que disse acima: como temos liberdade total e independência, nem sempre agradamos. O fato de não agradar incomoda a quem se acomodou a não receber críticas de outras partes. E mesmo que recebam essas críticas, que não gostem de nós, nos respeitam porque o conteúdo é bem feito, tanto em termos de notícia quanto em opinião.

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Para ver a lista completa de entrevistas, clique aqui.

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