Caminhos do Jornalismo – Fábio Vanzo


Pode não parecer, mas Fábio Vanzo é um jornalista sério, com larga experiência profissional. E justamente por isso encontrou uma maneira engraçada de escancarar, na Internet, manchetes que jamais apareceriam em um jornal, em notícias quase sempre desnecessárias. Manchetes que só aparecem porque informação virou produto de consumo, tendo que ser produzida ininterruptamente, e também porque a maneira mais fácil de se medir o sucesso na disseminação de uma informação na Internet não é a reflexão que essa informação provoca, mas a audiência que ela proporciona.

Com essa visão, nasceram, de forma despretensiosa, as #VanzoNews. A iniciativa fez tanto sucesso que atualmente rende uma coluna semanal na Vice Brasil. Fábio Vanzo conversa um pouco sobre como funciona esse novo jornalismo e sobre como a Internet mudou a forma como as pessoas selecionam e reverberam as notícias. Vale a pena a leitura.

1) Como você teve a ideia das #VanzoNews? Como você viu um negócio que aparentemente nasceu como galhofa chegar na VICE Brasil?

Nos primórdios do Orkut, lá por 2004, existia uma comunidade chamada “Anão Vestido De Palhaço Mata Oito”, que era sobre essas notícias tão bizarras que você nem precisa ler o texto, a manchete já é sensacional. Coisas como “Cão-guia de cego salva esquimó engasgado com a tecla ESC” (é sério). Foi precursor do PageNotFound, do Planeta Bizarro e de tantos outros. Quando comecei a usar o Twitter, cada vez que eu lia ou postava uma manchete assim, colocava a tag #VanzoNews, e com o tempo “pegou”. Mas, desde sempre, meu diferencial foi buscar esse tipo de manchete no jornalismo dito sério – só em último caso uso coisas dos sites que citei, ou do Ego, e demais sites que escracham de propósito. Acho todos muito engraçados, mas minha proposta é outra.

2) Qual era a sua relação prévia com o jornalismo antes de ter a idéia das Vanzo News? Você vê que sua abordagem descontraída, focada na questão da aleatoriedade, pode ser uma alternativa para o momento de “crise” que o setor vive, com demissões recorrentes em redações e crise na credibilidade dos órgãos de imprensa tradicionais?

Sou formado em Jornalismo há mais de dez anos, trabalhei em jornal, TV, editora, site, e ao mesmo tempo em que eu criticava ou ria desse tipo de notícia, acabava fazendo coisas semelhantes uma vez ou outra, ou por inexperiência ou por ser inevitável mesmo. Quanto ao jornalismo de internet, ele ainda não se encontrou. Sente a necessidade de produzir notícia o tempo todo (e aí não sei se isso causa essa ansiedade por #News na gente ou somos nós que procuramos atualização o tempo todo), só que não acontece coisa importante o tempo todo no mundo. Aí dá-lhe notícia inventada, requentada, distorcida, mal checada, sem revisão… acho que as #VanzoNews servem mais pra mostrar que o jornalismo tradicional na internet, a grande mídia, na verdade inexiste, soa como caricatura dele mesmo. Não é o impresso, mas ainda não se achou como alternativa. Quando tenta sair da mera reprodução do que se faz nas mídias tradicionais (impresso, rádio, TV), tropeça.

3) Você claramente posta notícias tendo como variável o fato de achar que aquilo é curioso e o de que muitas pessoas acharão curioso, com uma crítica embutida ao jornalismo tradicional. Essa sensibilidade em relação a entender o alvo da curiosidade das pessoas, de forma colaborativa – a maioria das manchetes hoje é sugestão de terceiros – pode ser considerada uma boa forma para se fazer um jornalismo descontraído sem cair nos estereótipos “palhaços” que andam tão em moda atualmente?

As escolhas erradas do jornalismo de internet – precarização, pressa, pouca importância dada à apuração, o “tudo pelo clique”, a necessidade de atualizar o site o tempo todo – são farto material cômico no final das contas, e a participação das pessoas no “noticiário” #VanzoNews serve tanto pra alertar as pessoas desses erros que citei quanto para que os próprios jornalistas não se levem tão a sério, pois ninguém está a salvo de cometer umas #VanzoNews de vez em quando, mesmo em outros veículos (mesmo porque algumas são inevitáveis). É um jornalismo com humor, mas ainda é jornalismo, ao contrário dos “palhaços” que temos por aí.

4) Não precisa citar valores, mas esse trabalho rende algum dinheiro? Se sim, é algo mais rentável do que seria trabalhar em uma redação tradicional? Você vê alguma forma desse trabalho ser mais rentável (ou rentável, se não é hoje) no futuro?

Por enquanto tem a coluna da Vice, que é um complemento de renda só. E sim, tenho planos de expandir as #VanzoNews por aí, aguardem 😉

5) Você acha que o que você faz, mesmo que de forma despretensiosa, tem uma “função social”? Como você avalia a repercussão do que você posta e a receptividade das pessoas?

A recepção é ótima, cresce todos os dias, e me surpreendo como uma brincadeira pode tomar essa proporção, sem deixar de ser divertida, e ainda, de certa forma, ser respeitada, “levada a sério”. Acho que a grande “função social” (se é que existe uma) é justamente a de ler além das manchetes. Às vezes eu explico que a manchete nem tem a ver com o conteúdo, mas muitas vezes as pessoas pegam as manchetes que posto e elas mesmas vão caçar o conteúdo. Acaba-se contestando mais o modo como a informação é formatada antes de chegar ao público.

* * *

Para ver a lista completa de entrevistas, clique aqui.

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2 respostas para Caminhos do Jornalismo – Fábio Vanzo

  1. Carlos José disse:

    Um chupador de mensaleiro querendo cagar regra. hahahaha

  2. Pingback: Nova série – Caminhos do Jornalismo | Aleatório, Eventual & Livre

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