Caminhos do Jornalismo – Tiago C. Soares (@elgroucho)


Uma das características marcantes da sociedade da informação é o interesse pela aleatoriedade, que é decorrência direta da ampliação exponencial da quantidade de informação disponível. Dentro desse contexto, ao mesmo tempo em que surgiram tecnologias para a organização de toda essa informação, como os mecanismos de busca na Internet, também ficou claro que uma das tarefas relevantes do jornalista na Internet é justamente o que filtrar e reverberar notícias importantes, curiosas e interessantes, satisfazendo uma demanda represada por informação por parte de grupos de pessoas que não querem restringir seu conhecimento ao que aparece nos veículos de mídia tradicionais.

Nesse contexto, surgem os curadores de conteúdo, ligados a temas tão diversos quanto política, moda e esportes. Essas pessoas pesquisam notícias em diversas fontes e selecionam aquilo que julgam ser importante para o seu público-alvo. Também trabalham o formato da notícia, para que o aproveitamento delas por parte dos leitores seja maximizado.

Um dos sujeitos que faz isso com maestria atualmente é o entrevistado de hoje, Tiago C. Soares, mais conhecido pela alcunha de @elgroucho no Twitter. Ele não é apenas um curador de conteúdo, mas está ligado há muito tempo ao jornalismo independente e explica, na entrevista a seguir, um pouco do trabalho em seu site O Plano B, onde são postadas notícias de todo tipo, em um formato didático e simplificado. E também fala sobre as possibilidades que a Internet trouxe para o jornalismo e para as discussões políticas como um todo.

1) Como surgiu a ideia de montar o site?

Na verdade o site é meio que a continuação de um projeto que vem desde o começo da década passada, e que já teve várias encarnações e plataformas. Acompanho há bastante tempo o debate sobre a intersecção entre tecnologia e política, e nisso já fundei (e desativei) alguns blogs e revistas digitais independentes, trabalhei no desenvolvimento de plataformas de publicação experimentais, organizei seminários e tal. Isso tudo sempre com amigos de áreas diversas – designers, programadores, jornalistas – numa coisa entre a pesquisa, o ativismo e a diversão mesmo.

Um dos caras com quem sempre trabalhei nesses projetos todos é o Rafael Evangelista, que além de jornalista é também pesquisador e professor de comunicação, e é meu parceiro no OPlanoB.

De uns tempos pra cá, comecei a encontrar e a estudar alguns novos modelos de publicação online super-enxutos, baseados na curadoria de informações publicadas em outros sites e no remix de conteúdos gerados em diversas plataformas, e comecei a achar que isso poderia ser interessante pra dar um desenho mais bem acabado a algo que eu já fazia no Twitter.

Todo dia (ou quase todo dia) eu dou uma geral na minha seleção de feeds, seleciono o que acho de interessante e republico esse conteúdo no Twitter. Normalmente faço isso com certo tratamento, vou soltando os links num bloco de uma ou duas horas, geralmente com algum comentário. Não é nada demais na verdade, mas no fim comecei a achar que isso oferecia uma mistura de links que, mesmo sobre assuntos e interesses não muito óbvios entre si, parecia consistente, dava um caldo. Então resolvi montar um site com uma arquitetura de navegação enxutíssima, quase modular, tentando chegar perto de algo que lembrasse uma timeline de Twitter com mais espaço, pra desdobrar essas sugestões de leitura e os comentários de um modo mais bem estruturado, com seleção de conteúdo, traduções, remissões e tal. Como um suporte complementar, meio que um repositório integrado ao fluxo de discussões e debates já estruturado nas redes sociais.

A ideia mesmo era que eu conseguisse publicar no site notas sobre boa parte dos textos e notícias que encontro, mas geralmente o tempo que tenho para dedicar ao projeto acaba curto – numa boa semana, consigo publicar um ou dois posts por dia – numa semana média, são uns três ou quatro no total. E já rolou de em períodos de muito muito trabalho o site entrar em hiato de vários dias.

2) Qual era a sua relação prévia com o jornalismo antes de começar esse trabalho? Você vê que sua abordagem pode ser uma alternativa para o momento de “crise” que o setor vive, com demissões recorrentes em redações e crise na credibilidade dos órgãos de imprensa tradicionais?

Sou jornalista de formação, já fui editor, repórter e tradutor em redação, e ainda faço alguns freelances hoje em dia. Minha trajetória é essencialmente da imprensa independente, embora da metade da década passada pra cá eu tenha me deslocado profissionalmente do jornalismo tradicional e passado a atuar mais como gestor e consultor de projetos de comunicação online. Também atuo junto a alguns grupos de pesquisa sobre sociedade e tecnologia e dou aula em cursos de comunicação.

Sobre a possível relação entre a proposta do OPlanoB e o momento de crise do jornalismo, em algum sentido diria que só o fato de criar e tocar o site por conta, posicionando-o numa espécie de zona cinzenta entre o “conteúdo de usuário” e o jornalismo tradicional, já é sinal de alguma mudança. Eu sou jornalista, produzo o site com todo o cuidado às práticas da edição jornalística. Quer dizer, tecnicamente é jornalismo. Daria até pra dizer que é jornalismo experimental (eu mesmo vejo a coisa como uma espécie de colunismo desconstruído), mas é. E aí dá pra encontrar algum diálogo não apenas com a crise produtiva do jornalismo, mas com a crise do próprio discurso jornalístico.

Há essa noção do jornalismo como, mais que um conjunto de práticas e discursos, um espaço de organização e validação do debate público. Os órgãos que integram a imprensa tradicional não são apenas provedores de um certo serviço (levantar e investigar informações e dados do mundo e oferecê-los discursivamente); eles detém, ainda, o papel institucional-político de estabilizar o debate público, são os moderadores do grande fórum de discussão do mundo. Acontece que, com as novas tecnologias, o tempo e os próprios recursos de linguagem que servem de base a esse trabalho todo da imprensa tradicional parecem não ser mais suficientes para dar conta do tanto de novas interrelações que vão se desenhando entre meios e atores emergentes, o discurso e as plataformas do jornalismo tradicional não conseguem acompanhar a velocidade dessas mudanças todas. Aí rola um curto circuito, o espaço de eminência historicamente construído por essa imprensa se vê entrelaçado a uma narrativa que não dá conta do momento contemporâneo. E surge aquela dúvida: mas se os próprios jornais precisam se reinventar pra que o que fazem continue sendo jornalismo, o que é jornalismo no fim?

Eu ainda não sei o que seria a definição desse novo jornalismo, tipo Jornalismo com j maiúsculo e tal. Mas creio que dá pra saber se uma ou outra coisas são jornalismo, porque suas práticas e regras básicas, bem como sua noção de investigação e organização da informação do mundo, são alguns aspectos que, acho, ainda definiriam a coisa toda. Então em algum sentido o que faço, e vários outros sites independentes andam fazendo, talvez tenha a ver com esse grande esforço de reinvenção, de experimentação com novas ferramentas e funções e produtos. É uma manifestação da tal crise do jornalismo, não tenho dúvida. Mas, se a gente parar pra pensar, é bem possível que o jornalismo esteja em crise desde que surgiu, é só ver o tanto que ele se redesenha ao longo de sua vida curta.

3) Você claramente posta notícias tendo como variável o fato de achar que aquilo é interessante e o de que muitas pessoas acharão interessante. Essa sensibilidade em relação aos interesses das pessoas, juntamente com as relações sociais construídas com base nesses interesses em comum, pode ser considerada uma chave para se fazer bom jornalismo?

A noção do jornalista como um curador ganha nova evidência e importância com a enxurrada de informação da web, isso é inegável. É como uma intensificação de um papel básico do jornalismo, que é o esforço de tentar estabelecer nexos entre os diversos aspectos da ação e da inteligência humana. E essa é uma das grandes funções sociais e políticas do jornalismo, mas vem acompanhada de coisas também essenciais, como a atenção à realidade dos fatos, o cuidado no tratamento da informação, a responsabilidade no que diz respeito às relações a serem construídas nessas narrativas – práticas que, com o aumento da velocidade no fluxo das informações, vem se tornando cada vez mais delicadas. A sensibilidade para a construção de um determinado recorte editorial é algo bacana, é o que faz as pessoas se sentirem atraídas pelos assuntos e pela explicação de mundo que se desenha ali. Mas o essencial mesmo, acho, é que isso seja feito sempre sob o sistema de pesos e contrapesos formulado no conjunto de regras e instrumentos da prática jornalística.

4) Não é necessário citar valores, mas você ganha algo com esse trabalho? É algo mais rentável do que seria trabalhar em uma redação tradicional? Você vê alguma forma desse trabalho ser mais rentável (ou rentável, se não é hoje) no futuro?

No que diz respeito a dinheiro mesmo, por enquanto o retorno é zero. Mas na verdade o OPlanoB foi criado porque eu estava interessado em experimentar com algumas novas possibilidades editoriais. E também porque achei que seria massa construir um site que tratasse de tecnologia, política e cultura numa pegada um pouco mais voltada a alguns dos assuntos que eu e o Rafael acompanhamos em nossas pesquisas, como a questão da vigilância e o uso industrial e governamental de tecnologias de informação para a organização da economia e da sociedade. Certamente é menos rentável que trabalhar numa redação tradicional (embora, na verdade, exista ainda bem pouco espaço em redações tradicionais para o que eu e o Rafael fazemos). Todo mês pago o servidor do site – mas estamos vendo com alguns amigos a migração do OPlanoB para algum outro servidor que hospede projetos do tipo.

Talvez daqui a um tempo o trabalho de curadoria e remix de informações seja algo mais presente nos desenhos editoriais das redações, e talvez o trabalho e o acervo do OPlanoB interessem a algum veículo. Ou talvez nosso trabalho no site venha a gerar ofertas de freelances e tal. Acho difícil que o site chame a atenção de anunciantes – ou, mesmo na improvável hipótese de que isso aconteça, que consigamos lucrar com anúncios o bastante para que isso se torne parte importante de nosso salário. Mas na verdade pensamos pouquíssimo sobre isso tudo.

5) Você acha que o que você faz tem uma “função social”? Como você avalia a repercussão do que você posta?

Bom, há uma discussão política latente na proposta do OPlanoB, desde o nome até elementos do layout, bem como no recorte das pautas. Tocar o site é também um ato político, e nisso talvez dê pra dizer que estamos cumprindo nossa função social como cidadãos imersos no debate público – além de oferecer um espaço de informação e organização de dados para outros cidadãos e cidadãs também interessados na coisa toda. E nisso há alguma repercussão até, boa parte dos posts ganham uma capilaridade bacana e, desconfio, acabam pautando outras coisas. Mas a gente acompanha a repercussão do que publicamos de maneira bem tranquila, não ficamos analisando o engajamento das pautas e dos usuários diariamente com análise de métricas e relatórios e tal. No fundo, enquanto for divertido é sinal de que está funcionando.

* * *

Para ver a lista completa de entrevistas, clique aqui.

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2 respostas para Caminhos do Jornalismo – Tiago C. Soares (@elgroucho)

  1. Marcus Pessoa disse:

    Ótima entrevista. Nem sabia do Plano B, já assinei.

  2. Pingback: Nova série – Caminhos do Jornalismo | Aleatório, Eventual & Livre

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