Está na hora de combater o conservadorismo no esporte


Na noite do domingo, o atacante Émerson, do Corinthians, postou no Instagram uma foto dando um selinho em um amigo. As intenções dele ao postar a foto podem ser discutidas, mas o fato é que essa foto provocou um certo estardalhaço entre torcedores de futebol, que se dividiram basicamente em três grupos: 1) o que apoiou a iniciativa do Sheik “contra a homofobia (e sobre isso o Fábio Chiorino fez um texto ótimo no Esporte Fino), 2) o torcedor rival do Corinthians que ficou fazendo piada e dizendo que o Corinthians é “time de gay” 3) e o corinthiano que se revoltou com o jogador e disse que “não tem lugar para gay no clube”, inclusive com faixas no treinamento de hoje.

Torcedores protestando contra selinho de Sheik no treinamento (Fonte: UOL)

Torcedores protestando contra selinho de Sheik no treinamento (Fonte: UOL)

A questão é que todo esse frisson envolvendo o atacante do Corinthians representa apenas uma ponta do iceberg, uma pequena mostra do que realmente interessa: o esporte está envolvido em uma aura de conservadorismo extremamente retrógrada. Não é só homofobia. É conservadorismo. Administrações atrasadas e corruptas, eventos esportivos mandados intencionalmente para países que não prezam a democracia e os direitos mais básicos das pessoas, movimentos de extrema-direita infiltrados nas torcidas de diversas modalidades e outros muitos exemplos provam que o esporte em geral, como símbolo de competição, de virilidade e de auto-afirmação individual, está muito mais impregnado pelo ranço conservador do que deveria.

O ano de 2013 foi marcante nos EUA no combate a esse conservadorismo. Em abril, Jason Collins se tornou o primeiro atleta da NBA a se assumir gay. Em maio, Kevin Grayson, ex-aspirante à NFL, também se assumiu homossexual. E Robbie Rogers, segundo jogador de futebol na história a se assumir gay, foi contratado pelo Los Angeles Galaxy. (O primeiro foi o inglês Justin Fashanu, que se assumiu gay em 1990 e foi vítima de muito preconceito, até se suicidar em 1998)

Mas o conservadorismo persiste. Semana passada, durante o Mundial de Atletismo disputado em Moscou, Yelena Isinbayeva, campeã e recordista mundial do salto com vara feminino, apoiou publicamente a lei russa que restringe a “propaganda homossexual” no país, criticando atletas que se manifestaram contra ela. Depois, disse que “foi um mal-entendido”

Mas isso não foi o mais grave: a IAAF (International Association of Athletic Federations), que controla a prática do atletismo no mundo, mandou a sueca Emma Green-Tregaro remover seu esmalte com as cores do arco-íris das unhas, pelo apoio implícito ao movimento gay. E isso porque o COI (Comitê Olímpico Internacional) PROÍBE, em seu código de conduta, quaisquer manifestações políticas ou comerciais por parte de qualquer atleta durante as competições.

Para ter ideia do histórico conservador no esporte, pelas regras atuais, Tommy Smith e John Carlos, medalhistas dos 200 metros rasos na Olimpíada de 1968, na Cidade do México, conhecidos por usar a luva dos Panteras Negras no pódio olímpico, teriam suas medalhas cassadas. Foi exatamente isso que aconteceu em 1968. Em 45 anos, nada mudou. O atleta de alto rendimento é tratado pelas confederações, cada vez mais, como um sujeito alienado, que se isola do mundo ao redor para viver exclusivamente por seu resultado.

Esse foco no rendimento traz algumas consequências: a principal delas é a tolerância à corrupção e à incompetência em clubes e federações, por parte inclusive dos atletas.

Clubes e federações esportivas sempre foram alvo de corrupção, mas a relação vertical entre dirigentes e atletas favorece isso. A federação fornece insumos, define o calendário de treinamentos, e o atleta é uma espécie de burro de carga que está lá única e exclusivamente para dar resultados. Nos clubes a situação é análoga e o envolvimento político dos atletas é visto como uma exceção, e não como uma regra.

E quem são esses dirigentes? Inúmeros exemplos mostram que, além de maus administradores ( dívida dos 20 maiores clubes de futebol do Brasil está em R$ 4 BILHÕES atualmente, e os dirigentes pleiteiam a ANISTIA de 90% dessa dívida junto ao governo), os dirigentes esportivos, não só no Brasil, são oriundos das parcelas mais conservadoras da sociedade, que detém um poder político e econômico quase aristocrata. Os clubes de futebol e federações esportivas são alguns dos últimos redutos em que eles podem exercer esse poder caudilho e impositivo sem grandes restrições, afinal, para eles, a busca pelos resultados justifica tudo.

Merece muito ser enfatizado o apoio desses líderes a regimes ditatoriais e atitudes retrógradas. Vamos ficar em alguns poucos exemplos:

– Alexandre Kalil, presidente do Atlético Mineiro, defendeu, antes da final da Copa Libertadores da América, José Maria Marin, presidente da CBF e notório apoiador da repressão de Estado no Brasil de 1964 a 1985, e ainda disse que o Golpe Militar foi a “Revolução de 1964” (nome dado APENAS por apoiadores do regime e por militares da reserva)

– Jérôme Valcke, secretário-geral da FIFA, disse em abril que o “excesso de democracia” atrapalha a organização de eventos como a Copa do Mundo. Não é à toa que as sedes de 2018 e 2022 já foram escolhidas – a Rússia, que vive um regime semi-ditatorial comandado por Vladimir Putin, e o Qatar, um emirado do Oriente Médio comandado por algumas poucas famílias com poderio econômico quase infinito.

– Para a UEFA, tida como “vanguarda” das federações de futebol, na Eurocopa de 2012, o racismo da torcida da Croácia rendeu uma punição menor (80 mil euros) do que uma propaganda na cueca de Niklas Bendtner (cem mil euros)

Quando o patrimonialismo em clubes e nas federações de diversos esportes encontra a questão financeira, o resultado é a corrupção. A apropriação pessoal, por meios escusos, de recursos que deveriam ser utilizados para a criação e a manutenção de uma estrutura adequada para os clubes e para os atletas como um todo. Os conchavos para a utilização de marcas consagradas no mundo do esporte, ou para a “venda” de eventos como a Copa do Mundo de futebol, por exemplo. Os resultados negativos são os mais diversos e atingem todos os envolvidos: o dirigente que se apropria ou vende voto, o jogador que vende a partida por causa de esquemas de apostas e o torcedor que “vende” seu apoio à diretoria do clube em troca de benefícios como financiamento de ingressos são apenas alguns exemplos.

E a corrupção geralmente se mistura à incompetência, tendo em vista que a subordinação de todas as demais prioridades ao dinheiro cria bizarrices que não são necessariamente fruto de corrupção. Exemplos? As regras estapafúrdias impostas pela Rede Globo às ligas nacionais de vôlei (que vai ter sets de 21 pontos) e de basquete (que vai ter decisão com soma do resultado agregado)

Outra consequência desse foco absurdo no rendimento é o doping. O caso de Lance Armstrong, ano passado, com leniência do governo dos EUA, mostra que o doping não é apenas uma falha moral individual, e sim algo muito mais grave: é uma forma de burlar o sistema incentivada por equipes e treinadores na prática (e às vezes até por Confederações – o caso da Alemanha Oriental nas décadas de 70 e 80 é notório). No discurso, todos são contra o doping e combatem “essa praga que assola o esporte. Na prática, o doping é uma vantagem competitiva, e o espírito competitivo sem limites acaba impondo um interesse em desenvolver novos produtos que sejam capazes de trazer vantagem competitiva aos atletas sem serem detectados nos exames anti-doping.

E o doping é uma das maiores formas de conservadorismo no esporte conhecidas. A Federação do Djibouti, por exemplo (que conquistou medalha no Mundial de Atletismo, ao contrário do Brasil), não tem meios de desenvolver um complexo programa de dopagem aos atletas que implique em uma vantagem competitiva. Nenhuma federação pequena tem. Quem tem essa expertise? Os clubes ou federações esportivas que estão na vanguarda do esporte e que historicamente ganham mais medalhas ou títulos. E para que eles fazem isso? Para manter o status quo do esporte inalterado, para se manterem sempre no topo. E não há nada mais conservador do que garantir a manutenção de um status privilegiado por meios ilegais.

Conclusão

Está na hora de encarar todo o ranço conservador e retrógrado que envolve o esporte como um todo. Desde as questões morais, como racismo, machismo e homofobia, até as questões administrativas e competitivas, como a corrupção e o doping. É necessário entender que o problema do conservadorismo aristocrata não está restrito apenas a um esporte, a uma federação ou a um país. É algo generalizado, com exemplos que se espalham por todo o mundo, e está intimamente ligado ao poder econômico e à manutenção do status quo de determinada parcela da sociedade.

O esporte pode ser mais popular? Sim. Pode ser algo que ensina lições de vida, ao invés de dar maus exemplos? Pode. Mas isso só vai acontecer se compreendermos que existem, no esporte, muito mais do que vencedores e perdedores: existem pessoas que aprendem, pessoas que mudam as suas vidas, pessoas que mudam a sociedade e o mundo ao seu redor através do esporte. O esporte pode e deve ser um agente transformador da sociedade.

As pessoas amam praticar e assistir transmissões esportivas porque o esporte é lúdico: a opressão que você sofre todos os dias do trânsito, do seu chefe, do pouco dinheiro no fim do mês e dos diversos problemas da vida pode ser revertida, ainda que apenas por um momento, quando o seu time ganha. Ou quando o seu time perde, mas mostra caráter.

Porque, no final das contas, é esse caráter que nós queremos ter. O de lutar sempre. O de chegar até o final. O de atingir um objetivo. Somos atletas no cotidiano. E não podemos deixar que essas lições de vida sejam estragadas por uma mentalidade conservadora, preconceituosa e baseada meramente nas relações econômicas.

Se for assim, que pelo menos os dirigentes não sejam mais hipócritas e joguem fora de vez o “O importante não é vencer, mas competir. E com dignidade.”, que o Barão de Coubertin enunciou ainda no século XIX e que deveria continuar válido até hoje.

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4 respostas para Está na hora de combater o conservadorismo no esporte

  1. Pingback: Está na hora de combater o conservadorismo no esporte | O LADO ESCURO DA LUA

  2. profjeanmagno disse:

    Reblogged this on Blog do Prof. Jean Magno and commented:
    Ótimo texto! Leitura mais do que recomendada.

  3. Muito boa síntese sobre a enferrujada mentalidade de nossos administrados do esporte brasileiro.
    Eu sou Corinthiano ,e o meu maior ídolo é o Sócrates , tanto como pessoa como jogador . Sua conduta (apesar de problemas com a bebida fora de campo) foi magnífica por brigar pelos direitos dos jogadores. Acredito que os ”torcedores” que foram ”protestar” lá no CT do Corinthians nem sabem o que Sócrates deixou de exemplo , mas agora tudo isso que o Emerson está passando não passa de uma besteira, se algumas pessoas tivessem uma mentalidade mais avançada. Gostei do post , Parabéns !

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