Registros biográficos, redes sociais e os perigos de uma história única


A polêmica da semana envolve uma série de textos feitos por analistas e celebridades assumindo diferentes posições sobre um tema aparentemente relevante: a legalidade ou não na publicação de biografias não-autorizadas, e a eventual cobrança de royalties a cada biografia dessas. E isso porque um grupo de músicos e artistas formou um grupo, o “procure saber”, defendendo que biografias só podem ser publicadas com autorização do biografado e devem render direitos autoriais.

Nesses últimos dias, as pessoas criaram uma impressão errônea de que a discussão está baseada na dicotomia notoriedade x privacidade. Não está. Para falar a verdade, isso nem é uma dicotomia. Notoriedade e privacidade não são conceitos opostos, e na maioria das vezes nem entram em conflito. Mas a discussão vai além.

A primeira dúvida reside no conceito de biografia. Qual é o conceito de biografia? Uma biografia não é nada além de um registro histórico feito sob foco de um indivíduo ou de um grupos de indivíduos (uma banda, por exemplo). A história contada não é apenas a história de quem é o “alvo” da biografia. Também é a história de todo o contexto do período e da relevância do biografado nele. E a História, por definição, é pública.

Obviamente, isso gera conflito, pelo fato de que o foco da história é o biografado. Por isso toda biografia, autorizada ou não, deve ser muito bem documentada, com referência a todas as fontes. Se a informação não for verídica ou comprovável, o biografado ou sua família contam com todo um aparato de proteção jurídica à imagem.

Existe um outro aspecto importante: se há demanda por uma biografia, é porque o biografado é admirado pela sociedade, é uma pessoa pública que merece ter sua vida documentada, por qualquer motivo que seja. Se algum louco fosse fazer uma biografia sobre mim, por exemplo, provavelmente teríamos apenas uma cópia vendida para minha mãe e uma para minha esposa, e ainda assim só para elas gurdarem de recordação. E por isso mesmo é óbvio que ninguém fará biografias, autorizadas ou não, de mim. Porque a confecção de biografias não é apenas história: é um negócio.

Tendo a consciência de que biografias são um negócio e, em geral, são extremamente rentáveis, os artistas querem regulamentá-lo e ganhar dinheiro com isso. O que para eles é algo extremamente necessário em uma época em que o mercado fonográfico está em baixa e a principal fonte de renda dos artistas são os shows. Mais do que isso: a maioria dos artistas que aderiram ao grupo já tem mais de 50 anos de idade, o que, em algum tempo, provocará um decréscimo inevitável de qualidade e de interesse do público em seus shows (afinal, nenhum deles é o Bruce Springsteen). Ou seja: cobrar direitos autorais de biografias é inclusive uma forma de manutenção do padrão de vida para o biografado e para seus filhos e netos.

Há mais um componente relevante nessa equação: artistas vivem da imagem que constroem, da aura de idolatria construída por uma legião de fãs. O medo desses artistas é que essas biografias destruam essa imagem idolatrada pelos fãs, e isso vai muito além da prerrogativa de que as informações contidas do registro biográfico são verdadeiras. E essa preocupação não ocorre apenas com artistas: ocorre com todos os que sobrevivem de sua imagem, como políticos e esportistas. Na prática, ocorre com toda pessoa pública.

Essas pessoas públicas tem em si a prerrogativa de que são os exemplos a serem seguidos pela sociedade. É uma postura arrogante e ególatra? Sim, é. Mas é quase impossível culpar alguém por esse tipo de postura, quando constatamos que eles vivem em um mundo cercado de fãs ou de puxa-sacos. A noção de realidade dessas pessoas é deturpada e elas realmente passam a acreditar no fato de que elas vivem em um mundo repleto de pessoas que as idolatram.

É aí que entram as redes sociais, como promotoras de um CHOQUE DE REALIDADE nessas celebridades. Em ambientes como o do Twitter e o do Facebook, as pessoas têm acesso às celebridades não apenas para puxar o saco delas, mas também para criticar. Por isso que algumas pessoas públicas, como a Xuxa e a Luana Piovani, acabaram saindo do Twitter, enquanto outras diversas, incluindo políticos e jornalistas, bloqueiam todos os que os criticam. Para alimentar a ilusão da unanimidade, da admiração, da imagem intocada de um ídolo imune a críticas.

No final, a intenção dessas pessoas públicas é essa: manter essa imagem de idolatria intocada. De separação das “pessoas comuns”. Essas celebridades não querem ter seus defeitos expostos. Não querem ter os detalhes de sua vida expostos. Quando elas deletam suas contas das redes sociais ou quando querem censura prévia de biografias, a mensagem é a mesma: “não mexam com nosso status de ídolos”.

Esse status de ídolo é uma forma de poder. Porque o ídolo é o exemplo pra sociedade, é aquele em quem os outros se espelham (ou, no caso dos políticos, por exemplo, é aquele de quem a sociedade espera soluções). E a tentativa desesperada de não ter esse status comprometido tem muito a ver com o discurso estereotipado da História Única. Um discurso que não é feito apenas por celebridades, mas também pela mídia e pelos governos.

Quando concordamos que deve haver uma única história contada, autorizada pelo autor, que ganha com ela e utiliza essa história para consolidar sua imagem de ídolo, concordamos com o discurso da história única. E, para vocês entenderem os riscos de concordar com esse discurso, recomendo que vocês assistam o vídeo abaixo, da escritora nigeriana Chimamanda Adichie, mostrando como histórias únicas podem criar estereótipos simplistas e incompletos, turvando nossa compreensão da sociedade e do mundo.

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Uma resposta para Registros biográficos, redes sociais e os perigos de uma história única

  1. 1515deabril disse:

    Parabéns!! Como sempre muito bom.

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