Os beagles e a demanda por afeto na cidade


No início do século XX, o sociólogo alemão Georg Simmel escreveu um dos mais célebres ensaios da história da sociologia, entitulado “A Metrópole e a Vida Mental”. O grande mérito desse ensaio foi levantar questões que iam além de sua época, mostrando como as intensas forças sociais existentes na cidade fazem com que, paradoxalmente, as pessoas sejam mais individualistas, convivendo em um ambiente mais impessoal, como uma espécie de afirmação em um ambiente que suprime o indivíduo. Esse trecho reume bem o que ele quis dizer em seu ensaio:

“Os mesmos fatores que assim redundaram na exatidão e precisão minuciosa da forma de vida redundaram também em uma estrutura da mais alta impessoalidade; por outro lado, promoveram uma subjetividade altamente pessoal Não há talvez fenômeno psíquico que tenha sido tão incondicionalmente reservado a metrópole quanta a atitude blasé..” SIMMEL, 1979, p. 15

No entanto, o mundo mudou muito desde o início do século XX. O desenvolvimento de artefatos técnicos que permitiram a industrialização em massa, e, depois, a popularização das tecnologias da informação, acabaram fazendo com que esse individualismo impessoal e essa postura blasé se espalhasse não apenas pelas cidades, mas por praticamente todos aqueles que contam com acesso, em alguma medida, às diversas tecnologias de informação existentes.

Dito isto, atentemo-nos aos fatos da última semana, mais especialmente a invasão do Instituto Royal, no último dia 18, por ativistas dos direitos dos animais, para o resgate de cerca de 200 cachorros da raça beagle, sob a justificativa de que o instituto estaria cometendo maus tratos aos animais.

A intenção aqui não é fazer um julgamento sobre “quem está certo” ou “quem está errado”. Mesmo porque esse tipo de assunto promove reações passionais desmedidas e a coisa que menos acrescenta a uma discussão é aquele monte de comentários “meu Deus, melhor texto que li na vida” ou “que lixo, é o pior texto que já li”.

A história da domesticação de animais é muito rica. Há registros arqueológicos de domesticação de cães há cerca de 18 mil anos, mas técnicas baseadas na leitura do genoma das espécies sugerem que muito antes disso os homens já utilizavam esses animais como ajudantes em caçadas e na proteção contra inimigos naturais.

No entanto, nos últimos 150 anos, a domesticação de animais atingiu um patamar completamente diferente. A ascensão de uma classe média relativamente bem remunerada na Europa, nos EUA, na Oceania e, posteriormente, na América Latina, na Ásia e até na África*, com necessidades e hábitos de consumo próprios, fez com que a domesticação de animais não fosse mais utilizada apenas com enfoque utilitarista, como para proteção ou para fornecimento de comida. E então os animais de estimação foram popularizados.

Existe uma diferença conceitual muito importante entre “animais domésticos” e “animais de estimação”: enquanto o animal doméstico tem como característica principal o fato de não ser selvagem, sendo útil ao homem exatamente por esse motivo, o animal de estimação tem como característica principal a relação afetiva, de caráter emocional, entre o animal e seu dono.

Animais de estimação não costumam ter defeitos aparentes. Em geral são dóceis, amáveis, proporcionam uma companhia que por muitas vezes as pessoas não têm. Os efeitos colaterais da presença deles em um ambiente familiar são quase sempre contornáveis. E quando o animal de estimação subverte esse princípio da amabilidade, como ocorre em casos de pitbulls que atacam pessoas a ermo, logo são colocadas em prática soluções extremas, como o sacrifício do animal ou a proibição de criação da espécie.

Uma outra característica da sociedade moderna, bem mais óbvia, é a da monetização das relações emocionais. E isso atinge aspectos cada vez mais diversos da vida: do sujeito que se sente impelido a pagar a conta do bar para todos os amigos sem ter dinheiro para isso apenas para ser aceito à necessidade de se comprar um animal de estimação para “ter companhia”.

Com a popularização dos animais de estimação e a monetização das relações emocionais, a consequência óbvia foi a criação e a expansão de um mercado imenso na área, especializado em venda de animais e de suprimentos de toda a espécie para eles. Um mercado que, só no Brasil, que faturou R$ 14,2 bilhões no ano passado. E isso excluindo o que faturam outros setores ligados ao cuidado com animais de estimação, como os médicos veterinários, por exemplo.

Outra característica importante de nossa sociedade é o incremento do custo de vida no último século. Até algumas gerações atrás, as pessoas tinham o máximo possível de filhos. Era algo quase inercial, vindo das sociedade antigas, com um motivo óbvio: quanto mais filhos, maior a quantidade de braços para ajudar nos trabalhos de casa. Ou nos trabalhos braçais, no campo.

Dois fenômenos, em conjunto, contribuíram para mudar essa realidade, sendo o segundo decorrente do primeiro: a urbanização e a transformação nas relações de trabalho. A natureza das relações de trabalho na cidade é intrinsecamente diferente da natureza das relações de trabalho nas zonas rurais. Enquanto a terra e o que ela produz são o componente principal do trabalho nas zonas rurais, as relações de trabalho na cidade se dão à partir da compra e da venda da força de produção no setor industrial ou no de serviços. E a urbanização em larga escala é uma das principais características do século XX. NO caso brasileira, essa mudança foi rápida e dramática, como mostra o gráfico abaixo:

Urbanização

Com a urbanização, a lógica de “criar o máximo possível de filhos para ajudar no trabalho” se inverteu completamente. Além de não poder contar com os filhos no trabalho desde cedo, a vida na cidade fez com que a criação dos filhos se tornasse algo extremamente caro. O valor gasto na criação de um filho pode variar de R$ 53,7 mil a mais de R$ 2 milhões, dos 0 aos 23 anos de idade. Em uma sociedade urbana e de consumo, ter filhos não é vantajoso do ponto de vista econômico.

A mudança do perfil populacional provoca efeitos demográficos em escala global. As taxas de fertilidade estão em queda em todos os continentes, e a população européia deve decair em valores absolutos nos próximos anos. E essa tendência deve continuar pelas próximas décadas, à medida em que as taxas de urbanização aumentam em todo o mundo. A própria ONU atestou essa tendência em estudo recente, que verificou tendência de queda na taxa de crescimento da população mundial e na taxa de fertilidade em todos os continentes (Figuras 1, 2 e 3)

População Mundial

Crescimento Populacional 2050

Fertilidade

O que tudo isso tem a ver com com animais de estimação? É simples: basta voltar às conclusões do ensaio de Simmel, dizendo que a vida nas cidades tornam as pessoas mais individualistas e a vida mais impessoal. As estruturas familiares são menores e cultivamos uma necessidade de afeto externo maior. Os animais de estimação preenchem essa necessidade de afeto em muitas pessoas, e por isso elas compartilham fotos no Facebook e se chocam quando surgem suspeitas de tratamento cruel contra animais.

Na sociedade capitalista, urbana e individualista do século XXI, animais de estimação são defendidos com unhas e dentes porque refletem características que gostaríamos de ver no ser humano: amabilidade, docilidade, postura afetuosa, gratidão. E o ônus não é tão alto quanto o de criar um filho. E animais de estimação ainda podem ser tratados como propriedade. A defesa ensandecida aos animais de estimação tem bases emocionais muito fortes, ao somar a noção de propriedade ao apelo emocional.

Com toda essa base emocional de fundo, era de se esperar que realmente surgisse um ativismo em prol dos animais de estimação. Mas é necessário esclarecer que há uma diferença essencial entre os grupos de defesa dos animais, que condenam os maus tratos e já foram responsáveis por vitórias importantíssimas para a humanidade, como a moratória internacional da caça às baleias, dos grupos de defensores dos animais de estimação, que tem buscado inclusive representação política e está envolto nessas bases emocionais intensas, fazendo uma defesa de animais de estimação que ultrapassa os limites da racionalidade e raramente produz efeitos práticos.

A dicotomia que se desenhou em todo esse caso da invasão do Instituto Royal não é entre ciência e ativistas: é entre o uso utilitarista dos animais e o uso afetuoso dos mesmos. No entanto, essa é uma falsa dicotomia: os dois usos fazem parte de um mesmo conceito de sociedade antropocêntrica, em que o respeito à natureza fica apenas nas aparências.

No final das contas, toda essa história envolvendo os beagles que foram retirados do Instituto Royal diz exatamente isso sobre nossa sociedade: no mundo de hoje, com disseminação de histórias em real-time pelas redes sociais, importa mais a aparência do que o caráter. Importa mais parecer legal para os amigos, com opiniões simplistas “pró-ciência” ou “pró-animais” do que efetivamente refletir e analisar que os dois discursos contém erros e incoerências, com raízes históricas, e que essa discussão toda, com opiniões apaixonadas de lado a lado, nem deveria estar acontecendo.

* Sim, a África tem uma numerosa classe média, ainda que a pobreza continue quase generalizada. Essa classe média pode ser identificada com mais facilidade nos países mais ricos e populosos, como África do Sul, Nigéria, Gana, Senegal, Egito e Quênia

Referências

SIMMEL, G., A Metrópole e a Vida Mental, in Velho, Otávio Guilherme (org.), O Fenômeno Urbano,. 4ª Edição da Zahar Editores, Biblioteca de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, 1979

United Nations Departament of Economic and Social Affairs/Population Division – World Population to 2300

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3 respostas para Os beagles e a demanda por afeto na cidade

  1. Luci Zeferino dos Santos Silva disse:

    Adorei o texto, fico impressionada com o aumento de lojas Pet Shop nas cidades ultimamente, a cada esquina há uma, sinal realmente que as pessoas estão buscando no animalzinho o que não encontram mais nas pessoas, é uma pena que eles ainda falam. Se falassem, acho que os donos deprimidos mandariam eles embora, pois diriam cada coisa. ! Por exemplo, não nasci para usar roupas e enfeites e nem para aguentar esse transtorno de ansiedade que vc tem, e por ai afora …

  2. Guilas disse:

    Ótimo texto.

    Esse individualismo exacerbado também reflete nas declarações das pessoas, que sempre reforçam sua preferência por animais de estimação em detrimento a pessoas que passam por necessidades urgentes, como os moradores de rua.

    A nossa sociedade está arruinada nesse sentido, muito por culpa do individualismo capitalista.

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