As falsas dicotomias políticas em que todo mundo acredita


As Dicotomias e a postura maniqueísta

A dicotomia é uma das formas mais fáceis de se empobrecer um debate. É uma simplificação grosseira, que, a rigor, consiste em “digitalizar a discussão”.  “Digitalizar a discussão” não é travá-la por um meio digital: é reduzi-la a posições binárias.

O que é uma posição binária? É a posição baseada na lógica do interruptor, que é a mola-mestra de toda a tecnologia de disseminação de informação desenvolvida nas últimas décadas. Um interruptor só conta com duas posições possíveis: a posição zero, “desligado”, e a posição um, “ligado”. Com essa lógica, foram desenvolvidos transistores, chips, microprocessadores, computadores, notebooks, tablets e smartphones. O armazenamento de informações nesses dispositivos não é nada além do armazenamento de um monte de sinais de “ligado” ou “desligado” em chips  que consigam fazer esse armazenamento de forma confiável.

No entanto, a principal característica das dicotomias é “ser binária”. Ser binário, reduz a discussão a dois pontos de vista possíveis, e isso quer dizer necessariamente que:

“Se você não está comigo, está contra mim”
“Se você não concorda com o que eu falo, concorda necessariamente com o que o meu inimigo fala”
“Se você não concorda comigo em todos os aspectos, você concorda com o meu inimigo em todos os aspectos”

É idiota. É estúpido. É totalmente sem noção. Mas acontece cada vez mais, especialmente nas redes sociais. Nas redes, a audiência do que você escreve conta mais do que a relevância daquilo que é escrito. E, para conquistar audiência, as pessoas assumem posições “polêmicas”, que vão provocar contestação, ou incentivam dicotomias, para despertar sentimentos intensos de amor ou ódio por uma causa.

Esse tipo de redução também tem outro nome: maniqueísmo. O maniqueísmo é uma forma deliberada de reduzir o espaço do debate e foi utilizado, em muitos momentos da história, como elemento de justificativa de posturas condenáveis, como a Inquisição Católica nos séculos XVI e XVII e o holocausto contra judeus, negros, ciganos e homossexuais realizado pelos nazistas durante a II Guerra Mundial. As discussões não precisam ser assim, a postura maniqueísta é empobrecedora e perigosa.

A função de uma disucssão é servir para o aprendizado, expondo os acertos e os erros nas posições de todas as partes envolvidas. E por isso é necessário desmascarar falsas dicotomias: para não restringir a discussão a uma série de argumentos pobres convenientes às pessoas que discutem. Na política existem muitas, mas, em nosso contexto, o realce em algumas poucas basta:

PT x PSDB

A quem interessa a dicotomia? Aos partidários de ambos os partidos, que, vendendo a imagem da antítese entre os projetos, vendem também que PT e PSDB são os dois pólos da ideologia política no Brasil. 

São os partidos que, somados, governam o Brasil há 20 anos. Mais do que isso: desde 1994, são os dois primeiros colocados em todas as eleições. Também é verdade que os dois partidos sempre estiveram em lados opostos na política nacional, nesses últimos 20 anos. Poxa, então é óbvio que são as duas únicas opções políticas no Brasil, certo? Errado.

Em primeiro lugar, é impossível negar a força de ambos os partidos. Na última eleição presidencial, PT e PSDB tiveram, somados, 79,52% dos votos válidos no primeiro turno. No entanto, esses 79,52% viram 59,48% se somarmos votos brancos, nulos e abstenções.

Isso não parece dizer tanta coisa. Mas o fato seguinte diz mais: dos 513 deputados do Congresso Nacional, apenas 136 são do PT ou do PSDB (89 do PT, 47 do PSDB). Isso dá apenas 26,51% da composição da Câmara. No Senado, a situação não muda: só 23 dos 81 Senadores são do PT ou do PSDB (13 do PT e 10 do PSDB). Dá 28,39% da composição do Senado.

Ok, existe a base de apoio. Mas o grosso dessa base de apoio estará na situação independente de quem estiver no poder. O PMDB é o maior exemplo disso: foi situação no governo FHC, no governo Lula e continua sendo no governo Dilma.

Nem cabem comparações aqui sobre quem é melhor ou pior: isso é o que os partidários da dicotomia querem. O fato é que a política brasileira não se define com uma divisão entre PT e PSDB. Pelo contrário: ambos os partidos são chantageados pelo fisiologismo de partidos como o PMDB e o PSD, de Gilberto Kassab, que consideram normal a política patrimonialista da negociação de apoio em troca de cargos estratégicos no governo.

Esse fisiologismo representa o que há de mais atrasado na política brasileira. Gente que se apega ao poder desde sempre, não importando quem seja o chefe do executivo. Aliado ao revanchismo entre PT e PSDB, que é fruto dessa falsa dicotomia, o resultado é catastrófico: nossa política passa a ser discutida com argumentos tão maduros quanto os usados na quinta série para zoar os coleguinhas.

Esquerda x Direita

A quem interessa essa dicotomia? Aos partidários de um dos lados, que têm devoção quase religiosa aos seus autores e políticos preferidos. 

Essa é uma dicotomia diferente da “PT x PSDB”, apesar de ter alguns pontos de intersecção. Pontos de intersecção incentivados por ambos os partidos, inclusive. Muitos militantes de esquerda ou direita identificam PT ou PSDB como “esquerda e direita” justamente como elemento de “marketing da dicotomia”. De forma pejorativa, inclusive.

Direita e Esquerda - Razões e Significados de uma Distinção Política, de Norberto Bobbio

Direita e Esquerda – Razões e Significados de uma Distinção Política, de Norberto Bobbio

Direita e esquerda, ao contrário do que se propaga nas redes sociais atualmente, não são definições decorrentes do “capitalismo de livre mercado” e do “socialismo marxista”. Obviamente foram apropriadas por essas correntes de pensamento político, mas são anteriores. O conceito se originou na Revolução Francesa. Na Assembléia Revolucionária, os partidos mais conservadores (com maioria de girondinos), se sentavam à direita do presidente da Assembléia, e os partidos que pregavam reformas sociais mais profundas (com maioria de jacobinos) se sentavam à esquerda.

Um livro muito esclarecedor sobre o assunto é Direita e Esquerda – Razões e Significados de uma Distinção Política, de Norberto Bobbio (o da figura). Mas, caso você não queira ler um livro inteiro, recomendo muito esse texto do professor Fernando Nogueira da Costa. Especialmente o excerto a seguir, que fiz questão de transcrever:

Politicamente, os jogos de interesses são muitos. Os diversos blocos, partidos e tendências têm entre si convergências e divergências. São possíveis as mais variadas combinações de umas com as outras. O maniqueísmo – doutrina que se funda em princípios opostos, bem e mal, segundo a qual o Universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis: Deus ou o bem absoluto, e o mal absoluto ou o Diabo – não é a forma adequada de se encarar essa distinção política: quem não é de direita é de esquerda ou vice-versa.

No entanto, boa parte das pessoas reduz a discussão política ao maniqueísmo. Um maniqueísmo planejado, obscuro, que tem como maior objetivo rechaçar todo e qualquer discurso que não concorde integralmente com o “pacote programático”.

O discurso e a prática política da direita da da esquerda continuam sendo diferentes entre si. Existem temas em que há uma oposição real e difícil de ser superada entre os discursos. No entanto, a maioria das nuances da política dos séculos XX e XXI não está na literalidade do discurso de direita ou de esquerda, mas nos diversos gradientes existentes entre esses discursos. Gradientes que se reduzem à atitude individual em relação às mazelas do mundo, em muitos casos.

Ninguém É “de direita” ou “de esquerda”. A discussão ideológica, em muitas oportunidades, se reduz à dicotomia entre a liberdade para a maximização de benefícios individuais e a maximização do bem estar coletivo. Mas essa dicotomia é falsa. Você pode ser a favor da maximização dos benefícios individuais em alguns aspectos da vida e a favor da maximização do bem estar coletivo em outras. Não é uma questão fechada.

PS: eu, particularmente, sempre me incomodo com a nossa sociedade, em que pessoas tentam eternizar seus privilégios enquanto outras sofrem com a privação de suas necessidades mais básicas e considero que deve haver sim um sistema de proteção social eficiente para que as capacidades intrínsecas das pessoas sejam maximizadas. E também considero que nossas liberdades, enquanto espécie, devem ir muito além da liberdade econômica. Inclusive considero o foco excessivo na questão econômica um elemento empobrecedor do debate, por reduzir todas as liberdades da sociedade à liberdade de consumo.

Conclusão

Muitas outras dicotomias políticas são possíveis. Entre partidos políticos, diversas outras dicotomias estão por aí há décadas: PSOE x PP na Espanha, Democratas x Republicanos nos EUA ou Trabalhistas x Conservadores na Inglaterra são alguns exemplos. A questão é que essas dicotomias provocam uma perda do foco. Não apenas na discussão, mas na ação política.

Quando a discussão se torna dicotômica e maniqueísta, a ação política é completamente perdida. E isso ocorre porque o foco da ação política das pessoas deixa de ser o “fazer o certo” e passa a ser o “estar certo”.

Quando você faz política pensando em “fazer o certo”, você pensa em aprender diariamente, em compartilhar experiências, em replicar boas ações, em procurar soluções definitivas para os problemas. Quando você percebe que está errado, não tem problemas em reconhecer o erro e mudar suas atitudes enquanto agente público. É a postura que todo político e que todo militante deveria ter, independente do viés ideológico.

No entanto, quando você faz política pensando em “estar certo”, você pensa em sufocar as opiniões dissonantes. Em chegar ao poder e, uma vez no poder, em se eternizar nele. Quando a mentalidade é essa, o caminho mais fácil é a apologia da dicotomia mesmo. É o maniqueísmo, a simplificação grosseira e o apelo ao ódio pelo inimigo único como forma de esconder as próprias mazelas.

Na política (e na vida), o nosso foco deve ser sempre o de “fazer o certo”, e não o de “estar certo”. Se você apóia um partido político, deve ser sempre porque você apóia as ideias e o programa desse partido, e confia na capacidade de realização do mesmo quando ele chega ao poder.

É exatamente por isso que partidos políticos, ao redor do mundo, sempre tentam reduzir a discussão política às dicotomias: ir além disso dá trabalho, requer boas ideias, um plano de governo e uma capacidade de realização que vão além do que a grande maioria (pra não dizer todos) os partidos do Brasil podem oferecer.

No final, apelar para o maniqueísmo é só uma forma de tentar desviar o foco daquilo que realmente interessa: a falta crônica de ideias e de planejamento na política brasileira, aliada com a necessidade de acessar ou de permanecer no poder, que guia a ação da maioria dos políticos do país.

Nesse ano de 2014, não dê atenção pra quem insufla o pensamento dicotômico, e sim em quem pensa em fazer o certo, sem medo da rejeição ou vergonha de admitir erros. Porque o antídoto para o pensamento dicotômico e para o maniqueísmo é a ação humilde, a crença nas ideias, a disposição ao aprendizado e a autocrítica constante. O resto é consequência disso.

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2 respostas para As falsas dicotomias políticas em que todo mundo acredita

  1. Oi tudo bom?
    Parabéns pelo texto. É bastante lúcido.
    Os TED talks de Jonathan Haidt sobre esquerda/direta são bem bacanas. No talk “How common threats can make common (political) ground”: https://www.youtube.com/watch?v=v3o-F94S4FI ele comenta justamente sobre como a polarização esquerda/direita é prejudicial para democracia.
    Talvez possa lhe interessar.
    Um abraço.

  2. Pingback: Meu autismo | Brasil Decide

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