Tá todo mundo louco


Qual é o grande problema do mundo hoje? A escalada da extrema-direita na Europa? O conflito na Ucrânia? O Tea Party nos EUA? Os conflitos em andamento na África? As bizarrices diversas que estão acontecendo na América Latina? A descrença com a política no Brasil? A crise econômica nos emergentes? Não é nada disso.

Se existe uma frase que define o momento atual, no Brasil, na Ucrânia ou na República Centro Africana, é a de que “está todo mundo louco”. E isso ocorre porque as pessoas estão esquecendo da história e levando ao extremo a abordagem situacional baseada no benefício pessoal.

A memória das grandes insanidades que a humanidade cometeu serve de parâmetro para que a humanidade não cometa novas atrocidades. Em uma era de informação em real-time, esses parâmetros são sufocados pelo fluxo intenso e contínuo de novas informações. É como se as informações fossem um rio invadindo a cidade na época da cheia e levando tudo. Só sobram as coisas mais bem fincadas, aquelas que são feitas com os melhores alicerces. O resto se perde.

A recordação de nossas atrocidades está se perdendo nesse mar de informações que consome o ser humano todos os dias. E isso faz com que as pessoas percam referências essenciais, como a da valorização da vida acima de qualquer outra coisa.

Essa perda de referência, aliada a um sentimento de “somos bons demais para cometermos os erros de nossos antepassados”, colocam a humanidade em uma situação perigosa mentalmente. Na última vez em que a prepotência em escala global se aliou à desvalorização da História, no início do século XX, em um contexto de desenvolvimento econômico, imperialismo e positivismo, o planeta amargou as duas guerras mais abrangentes já vistas.

É óbvio que também pode ocorrer o inverso. As pessoas podem se escandalizar com a escalada de violência e de desrespeito à vida e mudarem os seus modos de atuação política. Mas o descrédito geral das “classes políticas” ao redor do mundo também é um sintoma preocupante. Foi em cenários de descrédito político generalizado que surgiram os movimentos fascistas e nazistas, na década de 20. Menos de 20 anos depois, eles estavam promovendo a maior atrocidade que a humanidade já viu.

E o Brasil?

O Brasil tem um contexto um pouco mais complicado. Porém, a situação do país é igualmente preocupante. O Brasil nunca teve uma tradição de estabilidade política, e, desde a Proclamação da República, vive em “ondas de democracia” cercadas por períodos de autoritarismo. Vejam só:

Autoritarismo #1: de 1889 a 1894 – logo após a Proclamação da República, o país teve dois presidentes militares que se utilizaram de violência em diversas oportunidades para garantir a manutenção do regime.

Democracia #1: de 1894 a 1930 – era uma república Oligárquica, mas que mantinha eleições e costumava respeitar o resultado delas. Alguns direitos políticos foram conquistados nessa época, e até mesmo movimentos sociais surgiram, como o dos anarquistas entre os imigrantes italianos na São Paulo da década de 10.

Autoritarismo #2: de 1930 a 1945 – o momento democrático que o Brasil vivia foi abaixo com a Revolução de 1930, que alavancou Getúlio Vargas ao poder. A repressão aumentou em 1937, com o Estado Novo, que aumentou os poderes de Vargas após as frustradas Intentonas Integralista e Comunista.

Democracia #2: de 1946 a 1964 – em 1945, no contexto da 2ª Guerra Mundial, Vargas aceitou eleições para Presidente. Mesmo com diversos fatos dramáticos, como o suicídio do próprio Vargas em 1954, a democracia se sustentou até 1964, quando os militares, através de um Golpe de Estado contra o Presidente João Goulart, estabeleceram-se no poder.

Autoritarismo #3: de 1964 a 1985 – a ditadura militar foi provavelmente o momento de maior repressão política na História do Brasil. E também foi catastrófica em diversos outros sentidos. Foram 21 anos que colocaram o país em um abismo econômico sem precedentes e em uma situação política insustentável.

Democracia #3: de 1985 até sabe-se lá quando – a primeira eleição para presidente só ocorreu em 1989, mas já em 1985 tínhamos um presidente civil, José Sarney, vice-presidente de Tancredo Neves, que havia sido eleito pelo Congresso e faleceu antes de assumir a presidência.

O padrão é simples de perceber: no Brasil, as transições entre regimes autoritários e regimes democráticos é sempre pacífica, mas as transições entre regimes democráticos e autoritários não são.

O grande problema de transições pacíficas entre regimes autoritários e democráticos é que essas transições, ao não desqualificarem os regimes autoritários, deixando sem punição os crimes cometidos por governos repressores, fazem com que a semente do autoritarismo permaneça viva no país. E essa sanha autoritária se manifesta nos próprios regimes democráticos, com coisas inaceitáveis como a repressão policial e a tolerância ao “justiçamento” – o triste hábito de alguns cidadãos em acharem que podem tomar o papel do sistema judiciário, julgando outras pessoas, condenando-as e executando a pena por conta própria.

Repressão policial é inaceitável. “Justiçamento” geralmente não é justiçamento, é vingança. É descontar em uma pessoa qualquer a frustração pela repressão ou pela omissão do Estado. E ambas as coisas são intoleráveis em qualquer regime que se diz democrático.

No entanto, repressão e “justiçamento” são marcas históricas no Brasil. E isso ocorre, entre outros motivos, porque o país não desqualifica a repressão e é partidário de transições pacíficas entre regimes autoritários e democráticos.

Quem enxerga o mundo através de dicotomias políticas intransigentes não enxerga isso. Infelizmente, a loucura brasileira é essa: a da subordinação dos fatos à ideologia política. A pergunta de boa parte dos militantes, especialmente na Internet, não diz nada a respeito da “apuração dos fatos”. Ela é mais simples, mais cretina e repleta de mau-caratismo.

A pergunta do milhão entre os loucos políticos brasileiros é: “como os fatos se adaptam à minha conveniência ideológica e a minha militância política?”

Obviamente, é uma pergunta errônea. Uma pergunta que corrobora o discurso tosco da repressão, de parte à parte. Não é errado defender ideias. Errado é se recusar a subordiná-las aos fatos.

Quando o autoritarismo começa a recrudescer, através do discurso maniqueísta típico dos tempos mais obscuros da ditadura, é hora de relembrar a História. Hora de talvez, 30 anos depois da última redemocratização, completar o processo, lutando pela desqualificação de todo tipo de repressão na sociedade, seja ela vinda da arena policial, seja vinda de cidadãos revoltados com o “estado de coisas” na sociedade. Só assim a semente do autoritarismo, que permanece viva no Brasil, pode ser definitivamente expurgada um dia.

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3 respostas para Tá todo mundo louco

  1. Pingback: Uma ditadura sem “lado bom” | Um Pouco de Prosa

  2. Marko A Costa disse:

    Não esquecendo q o período “democrático” entre 1894-1930 foi marcado pela:
    – restrição do voto, prerrogativa masculina e letrada num país então majoritariamente rural e analfabeto,
    – fraude eleitoral ostensiva e explícita, caracterizada na base pelo voto aberto controlado diretamente pelos senhores rurais locais, e no topo pela alternância d poder executivo com cartas marcadas pelas elites rurais.
    – Série d rebeliões populares provocadas pelo abuso do poder das oligarquias rurais e autocracias urbanas, e à partir da década d 1920 tb por rebeliões do baixo oficialato do exército

    Que os períodos ditatoriais d 1889-94 e 1930-45 foram igualmente impostas, co-dirigidas e sustentadas militar e politicamente pelo exército, sendo o período militar 1964-85, o 3º do gênero na história do país, e não o 1º.

  3. Eduardo disse:

    Mas o que são os “fatos”, meu caro? Nietzsche já disse que os fatos não existem, apenas interpretações. E depois dele, a fenomenologia, os estruturalistas, os pós-estruturalistas, a hermenêutica etc. Se isso acontece, é porque a compreensão dos fatos só pode ser mediada pela linguagem – que, enquanto representação das coisas, nunca coincidirá com as coisas-em-si – e também porque não existe perspectiva externa, transcendente, privilegiada, absoluta. Tudo é imanência e construção, inclusive o sujeito que se vê diante dos fatos que percebe. Um exemplo é o próprio conceito de democracia. Quantas definições e graus de democracia existem?

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