O tabuleiro de Diplomacy explica: a Rússia precisa mais da Criméia do que da Ucrânia


Diplomacy é um jogo de estratégia extremamente popular nos Estados Unidos e na Europa. John F. Kennedy foi um de seus jogadores mais famosos. É um ótimo jogo para semear discórdias e o seu cenário é um mapa europeu de 1901, pouco anterior à Primeira Guerra Mundial. O objetivo é dominar a Europa, conseguindo, com suas frotas e exércitos, possuir 18 dos 34 “centros” da Europa. Cada jogador começa o jogo com uma das sete potências européias do início do século XX: Inglaterra, França, Itália, Alemanha, Império Austro-Húngaro, Império Otomano e Império Russo.

A graça do jogo é a de que o fator sorte não existe (exceto na escolha da potência européia que você vai encarnar). É tudo baseado em estratégia, em negociação, em fazer alianças e em rompê-las na hora certa. Hoje em dia existem até aplicativos para jogos on-line na App Store, para iPhones e iPads, e no Google Play, para aparelhos equipados com sistema Android.

A parte mais interessante do jogo é o mapa. E, em um exercício similar ao que foi feito com o War (Risk) no Slate, vamos ver o que é dito sobre a Ucrânia no Diplomacy:

Mapa do jogo Diplomacy (Fonte: http://people.hsc.edu/)

Mapa do jogo Diplomacy (Fonte: http://people.hsc.edu/)

Vamos às considerações:

– A Ucrânia está dentro do Império Russo. No entanto, está dividida em dois locais: Ucrânia, que corresponde ao atual oeste do país, e Sevastopol, que corresponde ao sul e ao leste. Uma pequena parte do atual território ucraniano está na Galícia, que na época pertencia ao Império Austro-Húngaro, mas essa parte não entrará nessa análise.

– A primeira percepção é: Sevastopol é um centro do jogo e a Ucrânia não é. Para os objetivos estratégicos do Império Russo no começo do século XX, a Criméia era mais importante que a Ucrânia.

– A segunda percepção: numa adaptação tosca, a separação entre Sevastopol e Ucrânia reflete a separação étnica na Ucrânia ainda hoje:

UkrEthnicReparem nas divisões entre os dois mapas. Não são precisas, mas refletem, de alguma forma, às divisões entre russos e ucranianos até hoje na Ucrânia.

Os locais:

– Ucrânia: dá acesso à Galícia e à Romênia, no Império Austro-Húngaro. E ainda protege Varsóvia, na Polônia (que também faz parte do Império Russo no jogo). Geralmente é utilizada em estratégias russas de ataque ao centro da Europa e na proteção a Moscou.

– Sevastopol: dá o controle do Mar Negro ao Império Russo e uma posição privilegiada em relação ao Império Otomano. Tem ligação direta com a Armênia, com a Romênia, protege Moscou e dá acesso, via Mar Negro, à Bulgária e aos centros de Constantinopla e Ancara, no Império Otomano. Além disso, dá acesso ao Mar Egeu, protegendo completamente a Rússia pela via marítima.

Resumo:

Em uma análise meramente estratégica, a Criméia é mais necessária que a Ucrânia. O papel de proteção exercido pela Ucrânia no início do século tinha outros atores envolvidos. Hoje em dia, a área do mapa em que estava o Império Austro-Húngaro é dividida em áreas de 9 países (Áustria, Hungria, Rep. Tcheca, Eslováquia, Romênia, Eslovênia, Bósnia, Croácia e Ucrânia), nenhum deles com grande força militar. Nesse cenário, o papel “protetor” de Kiev em relação a Moscou é limitado.

Por outro lado, o controle do Mar Negro continua sendo essencial para a Rússia exercer influência no Oriente Médio (representado pelo Império Otomano no jogo, e o papel de Sevastopol nisso é crucial. Para a Rússia, Sevastopol já era mais importante que a Ucrânia em 1901. E continua sendo ainda hoje.

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4 respostas para O tabuleiro de Diplomacy explica: a Rússia precisa mais da Criméia do que da Ucrânia

  1. Pingback: A Queda do Avião da Malaysian Airlines no Contexto da Guerra Civil no leste da Ucrânia | Um Pouco de Prosa

  2. Rodrigo disse:

    Excelente texto!

  3. Muito joia o post. Só preciso fazer uma correção (pequena mas necessária).
    A escolha da potência (no jogo) é feita por sorteio normalmente para facilitar o processo e para não dar vantagem aos jogadores mais experientes.
    A regra oficial não envolve sorte nem mesmo nesse item. A escolha da potência é feita através de um processo complexo de lista de escolhas que envolve uma estratégia fortíssima (só joguei desse jeito uma vez).
    Sei que isso não interfere no teor do texto, mas como sou chato… 😉
    Abraço!

    • Léo Rossatto disse:

      Você tem razão. Já ouvi falar desse processo de escolha mas nunca joguei assim. (E nem entendi como funciona, na verdade)

      Inclusive estou com um tabuleiro em casa. Se algum dia você vier pra SP com tempo podemos chamar uma turma pra fazer um jogo. =)

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