Informação e Depressão


“A Internet me deprime”

Você já deve ter ouvido ou lido isso em algum lugar. Com variações diversas como “redes sociais”, por exemplo. Existem, inclusive, pesquisas que embasam essa impressão, e é possível ler sobre aqui, aqui e aqui.

Antes de corroborar ou refutar essa hipótese, é bom ressaltar uma coisa importante: a Internet não é um monstro de dez cabeças com vida própria. A estrutura não serviria de nada se não existissem as pessoas que operam essas estruturas. E essas pessoas são o programador da empresa de Internet e o empresário do setor, mas também são, em alguma medida, o usuário médio: você, eu, seu tio no Facebook, sua tia mandando e-mail com corrente ou com gatinho.

Isso já traz uma modificação importante para o argumento: se há algo que deprime, esse algo não é a “internet” em si, mas o que existe dentro dela: informação, interações, impressões pessoais. E aí está o cerne da discussão.

A Internet é uma lente de expansão do que já existe no mundo. Ela potencializa vícios que já existiam, como o de obter o máximo de informações possíveis e o de se socializar com o máximo de pessoas possíveis. Com uma diferença importante: não há contato físico.

O contato físico é um limitador essencial, para o bem e para o mal. Todos policiam suas atitudes ao olhar para o rosto das pessoas, ver a expressão facial delas e estar vulnerável a todo tipo de interação física (desde as mais positivas, como beijos e abraços, até as mais negativas, como a agressão física). Em um ambiente virtual, caracterizado pela falta de interação física, isso não acontece. E a falta dessa vulnerabilidade abre espaço para opiniões e atitudes extremas. Por trás de um computador ou de qualquer outro equipamento com acesso à Internet, não há nenhum risco palpável. E daí as pessoas revelam o melhor e o pior de si mesmas.

Essas informações e interações sem filtro podem deprimir sim. Porque trazem à tona coisas que, até outro dia, estavam relegadas a uma espécie de porão das nossas vidas. São coisas que, antes da existência da Internet, não fazíamos questão de saber. Violência, discriminação dos mais diversos tipos, decepções pessoais trazidas por pessoas que criaram boas expectativas e se revelaram canalhas. A exposição a coisas desse tipo justifica a tese de que a “Internet deprime”.

Por outro lado, a rede de informações e interações criadas no ambiente virtual traz toda uma gama de possibilidades. A aquisição de conhecimentos que seriam impossíveis de obter de outra maneira, a possibilidade de novas formas de entretenimento, a interação positiva, que proporciona novas amizades e que frequentemente desemboca no mundo real, em uma mesa de bar, em uma caminhada, em uma conversa de meia hora que vale por meses.

No final, a Internet não faz nada por si mesma. As coisas que acontecem no mundo nos deprimem, mas também podem nos trazer novas catarses. As pessoas nos decepcionam, mas também nos trazem boas lembranças. A Internet é só uma ferramenta. E sua função é apenas a de criar, organizar e dinamizar conexões, conferindo maior intensidade à experiência humana. Para o bem e para o mal.

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