A Ditadura das Fotos de Bebê, Comida e Bichinho


Uma pergunta recorrente nas redes sociais é: “ah, mas por que as pessoas só postam fotos de bebês fofos, comida e bichinhos de estimação nas redes sociais ao invés de usarem elas para mudar o mundo?” Bem, o fato é que, ao mesmo tempo em que redes sociais são ferramentas de comunicação fascinantes, com potencial de transformar o mundo, elas também são uma fortíssima ferramenta de repressão informal que termina, de certa forma, atrapalhando de “mudança do mundo” preconizada pelos teóricos da área quando a Internet surgiu.

Mas por que isso acontece? Qual é o sentido dessa epidemia de fotos “BCB”* nas redes sociais?

* À partir de agora, “fotos de bebê, comida e bichinho” serão chamadas, nesse texto, de “fotos BCB”

Minha posição 

Antes de dissertar a respeito, é bom falar sobre minha posição pessoal: apesar de postar com relativa frequência fotos da minha filha nas redes sociais (mas só porque ela é uma graça e eu sou um pai coruja), eu passo mais tempo dando opiniões e interagindo com outras pessoas que dão opiniões nas redes sociais. Não estou neutro. Não sou uma eminência parda ou um E.T. olhando tudo de cima. Faço parte das engrenagens.

Dito isto, fico confortável em apresentar meu ponto de vista.

Fatores que Incentivam as Fotos BCB em Redes Sociais em Detrimento de Opiniões

1) Opiniões são tolhidas na Internet

A maioria das pessoas nem percebe tanto, mas quem usa as redes sociais mais intensivamente sabe: existe um Índex de assuntos “proibidos” na Internet. E a discussão desses assuntos só é desincentivada por “medo de represálias”. Isso mesmo, existem diversos assuntos que geram discussões imensas com um tweet ou um compartilhamento. Discussões essas repletas de opiniões firmes de pessoas que em muitas oportunidades querem mostrar seu ponto de vista, mas que em muitas oportunidades só querem ganhar a discussão. (Sobre aprender x ganhar a discussão, leiam esse texto)

Essa sanha da maioria das pessoas em “provar o seu ponto de vista” ou “ganhar a discussão” em boa parte das vezes resulta em ofensas ou na interdição do debate. Com isso, as discussões ganham duas características essenciais: são cansativas e contraproducentes.

Com isso, as pessoas deixam de dar opiniões sobre diversos assuntos. Questões relativas à sexualidade, gênero, política, religião, esportes, problemas psicológicos, crimes, agressão a animais, papel da imprensa, e sobre qualquer outro tema que desperte paixão ou ódio exacerbado.

Daí surge uma nova variável: até onde vai o direito de se dar uma opinião? Uma opinião “ruim” tem o direito de ser dada? Amigos, se a tal opinião não representa nenhuma apologia a atitudes criminosas, você DEVE respeitar a tal opinião, ainda que não concorde com ela. E deve rebatê-la com ARGUMENTOS, não com falácias (o argumento ad hominem é uma falácia, vamos lembrar sempre)

Outra forma de tolher uma opinião é expô-la ao ridículo para um grupo específico. Ao tentar ridicularizar o sujeito pela opinião emitida, passa-se a mensagem “eu não te dou o direito de emitir essa opinião”. Tolhimento. Puro e simples.

Com todos esses riscos, ninguém mais discute. É mais fácil fazer algo que não provoque polêmica, que não seja cansativo e que não degrade a sua imagem pública.

2) O Império da Imagem

Se existe uma vantagem da imagem sobre o texto é que na imagem não há produção de conteúdo: o conteúdo fala por si só. É mais fácil “não errar”. E os “erros” adquirem ares dolosos, como no caso do revenge porn.

O fato é que, ao postar imagem, você terceiriza o sentido das coisas para a própria imagem. A imagem exige uma resposta neural mais simples. Enquanto você lê um texto e tenta extrair sentido dele, processando-o em sua mente, a imagem traz uma reação neural imediata e simples: você vê e “acha bonito”. Em uma arquitetura de redes sociais baseada em botões como o “Curtir”, as imagens conseguem refletir melhor do que os textos esses impulsos simples.

E isso se materializa nas “fotos BCB”. Porque todos sabem que bebês, comidas e bichinhos fofos tem o simbolismo, em nossa sociedade, de alegria, de realização, de renovação da vida. Fotos de viagem também tem esse simbolismo. São as coisas mais próximas da unanimidade que você vai encontrar na Internet. Com isso, o risco de polêmica e de exposição da imagem pública torna-se diminuto.

A maioria das pessoas posta na Internet representações do que elas consideram “ideal”. A quantidade de pessoas que compartilham a felicidade é infinitamente maior do que as que compartilham tristezas. E isso ocorre porque as redes sociais estão baseadas no conceito de “imagem”. E não estou falando aqui da imagem da “foto BCB”. Estou falando da imagem que as outras pessoas constroem de você na Internet, baseada em suas postagens e opiniões.

3) Há Vida Lá Fora

Falar de fotos de bebês, comida e bichinhos também reflete uma coisa óbvia, que poucas pessoas percebem: bebês, crianças e bichinhos são muito prezados pelas pessoas em suas vidas cotidianas. E isso acontece por motivos um tanto quanto óbvios: com exceção de situações muito específicas, bebês, comidas e cachorros não aborrecem ninguém.

Os bichinhos são tão prezados que já tem até lobby político por eles. Existe até um projeto na Câmara dos Deputados obrigando a instalação de câmeras de segurança nos Pet Shops, para prevenir os bichinhos de maus tratos. Bebês são encantadores (e sempre foram durante a História, exceto para sujeitos como Herodes) porque representam a renovação da vida. E comer, assim como viajar, diz respeito a um momento de prazer individual. São coisas que mostram para os outros, em alguma medida “vejam como eu sou bem sucedido”. Não tem nada de errado em mostrar isso. Mas, nas redes sociais, é quase uma garantia de ganhar repercussão sem gerar polêmica. E ainda passar uma imagem de sujeito bacana que aproveita a vida.

E daí?

E daí nada. Só dei umas opiniões sobre esse lance de dar opinião na Internet. É um negócio meio Inception.

Mas algumas coisas precisam ser ditas.

– Boa parte das pessoas nas redes sociais estão atrás de reconhecimento e de admiração.

– Polêmicas geram compartilhamentos, mas cansam e, em boa parte das vezes, são contraproducentes.

– Opiniões ruins também devem ser dadas (e rebatidas com outras opiniões, e não com falácias)

– As tais “fotos BCB” não são ruins. Mas são uma forma mais cômoda de conseguir repercussão, reconhecimento e admiração sem gerar polêmica.

– Esse negócio da foto do Instagram ser quadrada me irrita profundamente, porque me lembra as fotos 2 x 2 que eram a última moda da década de 50.

– Nas redes sociais, você é a imagem que você constrói. Para o bem e para o mal.

Forte abraço a todos.

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