Como a Ascensorista Que Não Veio Trabalhar Explica a Estrutura Social do Brasil


Esses dias entrei num prédio público. Dos três elevadores que deveriam estar funcionando, um estava em manutenção. Até aí tudo bem, quem conhece o serviço público sabe que na maioria das vezes a manutenção predial é deficiente e os equipamentos quebrados demoram para ser consertados.

No entanto, quando subi o elevador, uma conversa entre a ascensorista e uma funcionária do prédio me surpreendeu. Pra começo de conversa, o fato do elevador do prédio ter ascensorista já surpreende, mas a gente acha até “comum” depois de algum tempo. No prédio em que eu trabalho também tem ascensorista.

A conversa entre as duas foi:

– Tem um elevador em manutenção, né? Aconteceu alguma coisa?
– Não, nada demais, foi só a Maria* que não veio.
– Mas daí o elevador não funciona?
– É, só pode funcionar com ascensorista.
*Maria é um nome fictício para nossa personagem.

Imediatamente eu me perguntei quais os motivos possíveis para que o elevador pudesse funcionar só com o auxílio de uma ascensorista. A primeira coisa que eu pensei foi na segurança. Mas o ascensorista não tem nada a ver com isso, na prática. Na entrada do prédio só pedem o seu RG, anotam e dão um cartão de visitante. Provavelmente não era isso.

A pergunta que me incomodava era: qual é a necessidade de uma ascensorista a ponto do elevador não poder funcionar quando ela não está lá? Pensei também numa postura corporativa, algo do tipo “eles fecham o elevador pra manterem seus empregos, para que ninguém possa perceber como o ascensorista é inútil e as coisas funcionariam perfeitamente mesmo sem ele”.

Mas daí eu pensei mais um pouco e cheguei em outra resposta. Existem dois tipos de pessoas que trafegam por esses prédios públicos: as pessoas comuns e as “autoridades”. A figura do ascensorista, como prestador de serviços, é benéfica, mas faz pouca diferença para as pessoas comuns. E isso porque as pessoas comuns não se incomodam em pegar o elevador com os colegas e em apertar elas mesmas o botão do andar.

No entanto, pras autoridades, a figura do ascensorista é essencial. Porque as autoridades querem exclusividade, querem evitar o contato com o público. E o papel do ascensorista é justamente o de “fechar” o elevador pra essas autoridades. Em prédios empresariais privados, o papel do ascensorista é semelhante. Em alguns deles, existe até hoje um elevador exclusivo para a diretoria, que só para no estacionamento e no andar em que os diretores trabalham. É surreal, mas é verdade.

O que isso tem a ver com nossa sociedade? Muito.

Porque nossa sociedade cada vez mais prioriza os serviços de baixo valor agregado, como o de ascensorista, que servem basicamente para eternizar privilégios em uma sociedade fortemente acostumada com o patrimonialismo e com o paternalismo. Mas não é só o ascensorista: existem diversos serviços de baixo valor agregado por aí, que em um país que se importa com seu futuro não deveriam nem existir mais: do cobrador de ônibus ao segurador de placa na rua, em muito nossa produtividade segue estagnada porque o país é cada vez mais dependente prestadores de serviço de baixo valor agregado.

De acordo com os dados de 2013, 69,4% do PIB brasileiro é gerado pelo setor de serviços. Além disso, nossa taxa de investimento em relação ao PIB é de 19%, uma das mais baixas do mundo. Esses dados ajudam a mostrar como o problema de uma economia baseada em serviços de baixo valor agregado é crônico e prejudica o país.

Há também um fato moral aí: a necessidade das pessoas de terem alguém servindo como forma de afirmação social. Em uma sociedade que foi historicamente escravocrata, em que empregadas domésticas não tinham direitos até poucos anos atrás (e patrões reclamam desses direitos até hoje), “ter empregados” ainda é uma forma de se afirmar como parte de uma casta superior. É algo meio jeca, é anacrônico, soa até ridículo, mas o Brasil ainda tem uma quantidade relevante de governantas, mordomos e motoristas particulares, por exemplo. E o problema não só é esses profissionais existirem nessa quantidade, mas também o de serem estigmatizados como “inferiores” por seus empregadores. Isso já era falado por Gilberto Freyre em sua obra máxima, Casa Grande & Senzala:

a tradição conservadora no Brasil sempre se tem sustentado do sadismo do mando, disfarçado em “principio Autoridade” ou “defesa da Ordem”. Entre essas duas místicas- a da Ordem e da liberdade, a da Autoridade e a Democracia- é que se vêm equilibrados entre nós a vida política, precocemente saída do regime de senhores e escravos. (…) Talvez em parte alguma se esteja verificado com igualdade o encontro, a intercomunicação e até a fusão harmoniosa de tradições diversas, ou antes, antagônicas, de cultura, como o Brasil. (…) o regime brasileiro, em vários sentidos sociais um dos mais democráticos, flexíveis e plásticos. (pag.114-115)

A questão é que a afirmação de autoridade e integração social sempre caminharam juntas no Brasil, ainda que isso possa parecer um contrassenso. E nisso é necessário ressaltar uma coisa: a afirmação de autoridade só se torna clara quando, de alguma forma, essa “casta superior” sente essa autoridade questionada. E isso tem ocorrido como nunca nos últimos anos.

Essa necessidade de “afirmar autoridade” quando ela está sob ameaça ajuda a explicar um sem número de coisas, dentre elas:

– Os protestos contra faixas de ônibus e ciclofaixas nas grandes cidades, sob a justificativa de que eles atrapalham o trânsito.

– A eclosão de estabelecimentos “gourmet”, como espécie de uma reafirmação dessa lógica de diferenciação entre as classes privilegiadas e o resto (sobre isso, leiam esse link)

– A priorização brasileira aos serviços de baixo valor agregado, que ajuda a explicar a baixa taxa de investimento da nossa economia.

– As relações escusas entre os governos e diversos setores da economia, eternizando esse ciclo de dominação, impedindo a “destruição criativa” comum aos processos de inovação, a modernização dos sistemas produtivos, a implantação de novas tecnologias e o investimento em ciência e tecnologia. Um exemplo claro no Brasil é o setor automotivo (sobre isso, recomendo esse texto)

Enfim, seria possível enumerar diversos outros problemas que em alguma medida derivam do nosso modelo de sociedade, baseado na afirmação de autoridade de um grupo específico sobre o restante das pessoas. Também é prudente dizer que isso não ocorre apenas no Brasil, mas remete a uma construção social existente na maioria dos países do mundo, mas especialmente consolidado na América Latina, governada por caudilhos e latifundiários durante séculos.

Esses grupos dominantes nunca pensam em “como melhorar o Brasil”, mas na manutenção do poder. Isso ajuda a explicar por que a indústria brasileira é estagnada e também por que muitos empresários sobrevivem ás custas de incentivos estatais, em diversos setores. Além disso, ajuda a explicar por que se investe tão pouco em inovação no país, por que os processos de produção não são renovados e melhorados, e por que os próprios sindicatos preferem a “estabilidade” à “inovação”. É uma relação de desconfiança mútua entre a “autoridade” política ou econômica e o restante das pessoas, que fica mais tenso a cada questionamento a essa relação de autoridade.

Para finalizar, só uma mostra de como esse tipo de situação faz com que o mercado de trabalho no Brasil beire o ridículo. Foi divulgada mais uma dessas listas de “profissões em alta no mercado”. TODAS elas relacionada à burocracia ou às vendas. Nenhuma relacionada ao desenvolvimento de qualquer coisa. Isso merece duas considerações:

1) A burocracia é, essencialmente, um ato de desconfiança. A burocracia só existe à partir do momento em que há uma desconfiança latente de que o outro lado pode agir do jeito errado. Além disso, a burocracia é uma forma de criar dificuldades para vender facilidades de forma ilícita. Só demonstra praticamente por A + B essa relação de desconfiança mútua entre a “autoridade” e as pessoas comuns.

2) Investimento em vendas e em marketing como prioridade é um absurdo, por um motivo extremamente simples: o maior investimento deve ser sempre para desenvolver um produto, e não para vendê-lo. Se você prioriza a maior parte de seu investimento na atividade de venda de produto, você está admitindo que seu produto é ruim. Bons produtos se vendem quase sozinhos.

Daí você percebe que burocracia e marketing caminham lado a lado tanto no setor privado quanto no setor público. No final, os mesmos políticos que fecham o elevador porque a ascensorista não veio, porque precisam de exclusividade, poderão investir até R$ 73,9 BILHÕES em marketing político, só nessa eleição de 2014. Dá quase três vezes o total investido na Copa do Mundo, de R$ 25,6 bilhões. E só mostra que na política, assim como no setor produtivo, a prioridade não está na qualidade. Se a prioridade fosse a qualidade, não precisaríamos de tanta prioridade no marketing.

Referências

FREYRE, G., Casa Grande & Senzala, Editora Global, São Paulo, 2003

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