O Sistema Político Brasileiro e o Mito do Eleitor Reacionário


Jair Bolsonaro foi o deputado federal mais votado no Rio de Janeiro. Celso Russomanno foi o mais votado em São Paulo. Outros diversos ídolos dos reacionários de Internet, como o Coronel Telhada ou Marco Feliciano, também tiveram votação expressiva. O próprio Levy Fidélix, que teve 0,06% dos votos em 2010, quando era só o “candidato do Aerotrem”, chegou a 0,43% dos votos com seu discurso homofóbico em 2014, pouco atrás da “sensação das redes sociais” Eduardo Jorge, com seu discurso progressista.

Nem é necessário falar da repetição de cenários na eleição presidencial. Desde 1994, PT e PSDB se alternam nas duas primeiras colocações do pleito presidencial. Nem a tragédia envolvendo Eduardo Campos mudou isso. Soa bastante desalentador para quem acha que o Brasil precisa de uma terceira via que não seja o PT ou o PSDB (e muita gente quer essa terceira via)

Além disso, as bancadas do país agora estão divididas em 28 partidos. O PT perdeu 18 deputados, o PSDB ganhou dez. E esses dez parecem ter um perfil muito mais conservador que a média do partido.

Além disso, há uma eclosão de candidatos defensores de pets. O problema dos candidatos defensores de pets é que a defesa dos animaizinhos suplanta os direitos humanos e a valorização da vida, encontrando-se com as ideologias mais reacionárias existentes. Entre o animal e a vida do terceiro, o animal passa a ser a escolha. Além disso, a defesa do animalzinho é essencialmente a defesa do animal enquanto propriedade de uma pessoa. É a mercantilização dos animais como instrumento de representação política.

Com esses dados, é possível dizer que o eleitor brasileiro se tornou reacionário? A esquerda se esgotou? A direita soube se reinventar? Não, talvez e não.

O mito do brasileiro reacionário, especialmente em estados como São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro, é algo muito recorrente. “Ah, mas vocês reelegem o Alckmin mesmo sem água”. “Ah, mas vocês votam no Bolsonaro”. Isso não é ser reacionário, é ser refém do sistema.

O sistema político brasileiro leva a essas situações. É um sistema extremamente conservador. E isso ocorre porque os partidos são estruturas institucionalistas. São fruto de instituições já consolidadas da sociedade. E o modelo brasileiro de financiamento de campanha, sem grandes restrições, está tornando a eleição algo tão caro que existem, em quase todos os casos, apenas três formas de se eleger: você pode investir um caminhão de dinheiro, controlar uma instituição que ajude na sua eleição ou ter destaque prévio na mídia, por qualquer motivo.

É por isso que hoje em dia vemos muito mais policiais, pastores e apresentadores de TV  sendo campeões de votos do que médicos e advogados, como se via antigamente. Não que isso seja melhor ou pior, não há juízo de valor: é só um fruto da estrutura política atual, com partidos pouco democráticos internamente e um sistema de financiamento de campanha que permitiu que a campanha de 2014 custasse o equivalente a três Copas do Mundo.

Daí, nesse sistema, a representação política fica quase restrita a três tipos sociais que se complementam:

– Quem tem muito dinheiro.
– Quem tem o controle de instituições, usando-as para angariar dinheiro e votos.
– Quem tem exposição na mídia, e com isso consegue arrecadar dinheiro para a campanha.

Além disso, os partidos são fortemente oligarquizados. Existem 32 legendas no Brasil hoje, e 28 delas conseguiram representação na Câmara dos Deputados para o ano de 2015 (só PPL, PSTU, PCB e PCO ficaram de fora). Mas a maioria desses partidos é controlada por “caciques” que impõem a regra do jogo. E a regra do jogo é sempre a mesma: a de que eles devem estar mandando. E isso ocorre porque cada um desses 32 partidos políticos tem acesso ao dinheiro do Fundo Partidário, um fundo público feito originalmente para garantir a representação política de todos os setores da sociedade. O que era para ser um instrumento de democratização da política se tornou um instrumento de dominação.

Também não podemos esquecer que o PT tem culpa sim em muitos “votos de direita”. Enquanto “representante da esquerda”, o PT ficou muito aquém das expectativas. Não pelos programas sociais, que melhoraram de fato a vida de muita gente, mas pela leniência com a corrupção e pela aliança com grupos conservadores. Vale lembrar que gente como Marco Feliciano e Jair Bolsonaro, apesar dos discursos inflamados contra Dilma, fazem parte da base aliada do governo petista.

O mínimo a se fazer por parte do PT e de seus aliados nesses casos seria cobrar coerência: se você quer incitar a antipatia geral ao governo do PT, ao menos deixe de ser hipócrita e vá para a oposição. Mas não, o PT é bunda mole, os partidos aliados também são, e o “cálculo eleitoral” vale mais. Nesse sentido, perder 18 deputados, como o PT perdeu, foi até pouco. Mereciam ter perdido mais.

Além disso, a direita não se fortaleceu enquanto discurso, apesar de ter se fortalecido nas urnas. A direita se esconde atrás do discurso institucionalista sectário. Os “campeões de votos” da direita tem com eles entidades de classe, como Bolsonaro ou Paulinho da Força, igrejas, como Marco Feliciano, ou a mídia, como Celso Russomanno. O discurso conservador cai bem em uma sociedade com sérios problemas de violência e estruturas públicas que não funcionam bem. As pessoas defendem coisas como “aumento do policiamento” e “proibição do casamento gay” sem nem pensar nas implicações práticas disso.

E esse discurso institucionalista de gente como Bolsonaro e Feliciano cai justamente naquilo que foi comentado antes: campanhas eleitorais só tem sucesso se tiverem dinheiro, mídia ou o apoio de instituições.  Não é o eleitor que é reacionário. São as instituições que levam o eleitor ao voto reacionário. Tanto isso é verdade que, mesmo com todos os escorregões do PT e com uma mídia crítica, para dizer o mínimo, o brasileiro mantém um partido “de esquerda” (com muitas aspas) há doze anos no poder. E há chance considerável desses doze anos virarem dezesseis.

Qual é a solução pra todo esse cenário? Enquanto a Reforma Política não sai (e tomara que não saia nessa próxima Legislatura, que promete ser péssima), duas coisas podem ser feitas:

– A democratização interna dos partidos, com a disputa de prévias para a disputa de todo e qualquer cargo. Prévias que permitam os votos de todos os filiados ao partido, com barreiras claras para impedir o “sequestro ideológico” dos partidos por grupos fisiológicos que só querem poder e cargos. Dois exemplos: só pode votar quem tiver ao menos um ano de filiação e só pode votar quem respeitar as diretrizes ideológicas do partido”. Isso valeria para definir o ingresso em coligações, inclusive.

– A restrição aos métodos de financiamento eleitoral. Já era para estar em vigor a proibição de doações de campanha por pessoas jurídicas. Foi aprovada pela maioria dos Ministros, mas a votação foi interrompida porque o Ministro Gilmar Mendes pediu vistas do processo, há vários meses atrás, a pedido de deputados interessados em doações de pessoas jurídicas, como Eduardo Cunha (PMDB/RJ). Foi isso que impediu as eleições desse ano de ficarem mais “baratas”. Sem doações de pessoas jurídicas e com forte repressão a esquemas de Caixa 2 de campanha (Dilma quer transformá-los em crime), as campanhas não seriam tão dominadas pelo dinheiro, pelas instituições ou pela mídia. Teriam mais discussão ideológica e programática.

Eu escrevi tudo isso só para mostrar o quão simplista é dizer que “o eleitor brasileiro é reacionário”, mesmo em estados como São Paulo, que vai completar 24 anos de PSDB. Não é o eleitor que quer ser reacionário: é o sistema político atual que o torna mais reacionário. O sistema político atual é excludente a ponto de criar uma crise de representação. Setores fortemente institucionalizados, como igrejas e associações de classe, são sobrerrepresentados, enquanto outros setores menos institucionalizados e endinheirados, como a academia e os movimentos sociais, acabam preteridos do processo, com raras exceções.

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5 respostas para O Sistema Político Brasileiro e o Mito do Eleitor Reacionário

  1. Guilherme disse:

    Seu texto comete o mesmo erro que eu vejo por aí internet afora: empregar o termo “direita” como se todo direitista fosse um conservador reacionário.

    É possível sim, ser de direita defendendo o liberalismo econômico, a não-intervenção do Estado na economia porém respeitando as liberdades individuais (aborto, casamento gay, legalização das drogas, etc)

    O problema é que as pessoas vêem um Rodrigo Constantino da vida falando asneira numa revista de alta circulação e já o colocam como “ícone da direita”.

    Você mesmo já escreveu um texto criticando as dicotomias que viraram senso comum e no entanto, faz uso delas neste texto.

    Um abraço.

    • Léo Rossatto disse:

      Na verdade eu quis pontar no texto que esses eleitos institucionalistas são uma “falsa impressão de direita”, mas parece que talvez não tenha ficado tão claro assim. A questão é que eu caio às vezes no erro recorrente de tentar simplificar a forma e acabar comprometendo um pouco o conteúdo, dando margem a generalismos.

      Mas você tem razão, ser “de direita” é bem diferente de “ser reacionário”. Mas quando a gente cita Constantino como “ícone da direita” a gente acaba entrando em outra discussão, a de relevância x audiência, em que o cara vira ícone não por falar algo relevante, mas por falar um monte de asneira que gera buzz num veículo com repercussão.

      Enfim, tem razão no comentário, relendo o texto não ficou clara a separação entre “reacionário” e “de direita”

  2. Parabéns! Tem cientista político renomado que não consegue ser tão preciso!

  3. Jose Eduardo disse:

    Excelente análise! De fato, o sistema político brasileiro continua bastante arcaico por obra e (des)graça de suas elites que não são elites. E não só! Pois enquanto a mídia oligárquica comportar-se desavergonhadamente como partido de oposição nada mudará também. A mídia é a voz unívoca dos interesses da Casa Grande que é e sempre foi anti-democrática, anti-popular e anti-nacional. Desqualificar e destruir a política é sua pauta única, como bem sabemos! É por causa dela, acima de tudo, que o debate da reforma política fica travado. E o PT e as esquerdas em geral não têm força, ou lhes falta uma vontade maior, para contrapôr-se a esse poder ainda avassalador embora declinante. Essa luta encarniçada pelo desenvolvimento soberano do país segue sendo dramática desde ao menos a Revolução de 1930. É disso de que se trata. Estamos sempre entre a cruz e a espada, entre o avanço e o retrocesso. Triste país esse!

  4. Rodrigo disse:

    Tudo certo, todos nos concordamos que o PT tem errado muito e se afastado das suas raizes, e que tem que se afastar de PMDB, PR e outros do tipo, mas e aí, como ele vai governar?

    O PT vai ter só 70 deputados no ano que vem, o PCdoB que é o aliado mais proximo, diminiuiu para 9 o numero de deputados. Óbvio que você pode pescar nomes bons em outros partidos, mas será que chega a 150 já somados com os do Pt e do PCdoB? Mais uma vez, como governa?

    Mais do que uma discussao sobre financiamento publico ou privado, tem que se por na mesa uma educação sobre legislativo. Quais as funcões de um vereador, deputado estadual, federal, senador. O povo não tem ideia do quanto eles sao importantes.

    Será que 513 deputados não e muita coisa? Será que um estado como SC precisa ter 40 vagas para estadual? Não seria bom dar mais poder ao presidente, e menos ao legislativo? Isso é possivel numa democracia.

    Essa é a veia que eu não vejo ninguem pegar.

    Outro ponto que tem que ser urgentemente discutido é a regulamentação da midia.

    Eu fico com pena, pq tem um monte de pessoas com ideias boas em todas as areas, mas a politica acaba afastando.

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