Precisamos falar sobre obesidade


Hoje eu li uma notícia dizendo que a obesidade diminui em oito anos a expectativa de vida, em média. No Brasil, os números são alarmantes: temos 54% mais pessoas obesas do que há seis anos atrás. E, entre as crianças, a quantidade de obesos subiu 1000% (isso mesmo, MIL POR CENTO) nos últimos quarenta anos.

Não dá pra negar que obesidade é uma enfermidade. Que tem efeitos enormes na qualidade de vida da pessoa. Que traz riscos enormes. E que ela está cada vez mais presente no dia a dia das pessoas. O fato de que a obesidade dobrou no mundo nos últimos 30 anos, paralelamente a um movimento de urbanização massiva, de mecanização da agricultura e de industrialização da produção de alimentos se mostra extremamente grave.

Por outro lado, essa percepção leva a um outro extremo: o da necessidade de se cuidar das pessoas desde a concepção, como ocorre com as mães que forçam crianças a praticar exercícios físicos desde muito cedo e proíbem que elas comam docinhos em festas, pro exemplo.

No meio de todo esse furacão, sobra uma figura: o obeso. Que, ao mesmo tempo, sofre com a percepção de que é sim um enfermo e com a pouca aceitação de uma sociedade que impõe um padrão de beleza associado à magreza excessiva, qualificando quem não se enquadra nisso como uma pessoa “relaxada”, “sem força de vontade”, associada ao pecado da glutonaria.

Em primeiro lugar, é bom dizer: comer é bom sim. É prazeroso. O estômago manda sinais para o cérebro que associam a saciedade com a satisfação e a fome com a insatisfação, e isso vem desde os primórdios da humanidade, quando a oferta de alimentos era menor, como uma forma de garantir nossa sobrevivência como espécie. As papilas gustativas mandam mensagens para o cérebro descrevendo os sabores dos alimentos que comemos, e esses sabores proporcionam prazer. A comida traz uma lógica similar à do sexo: se não fosse algo prazeroso, correríamos muito mais riscos de extinção enquanto espécie, porque não nos sentiríamos incentivados a fazer.

A relação que leva à obesidade envolve diversos fatores que variam de pessoa para pessoa, como metabolismo, nível de produção de grelina (o hormônio produzido pelo estômago que faz com que sintamos fome) e disponibilidade quantitativa e qualitativa de alimento disponível. Mas, depois de incluídos todos esses fatores, a obesidade resulta de uma relação matemática: se você consome mais calorias do que elimina, vai ganhar peso.

Em sociedades urbanas em que as pessoas passam dez horas por dia trabalhando, oito dormindo, duas se locomovendo e mais três ou quatro estudando ou se divertindo ou com a família, a prática de exercícios acaba cada vez mais restringida e individualizada. É por isso que a quantidade de academias cresce cada vez mais, enquanto os campos de várzea dão cada vez mais lugar aos empreendimentos imobiliários. Quem não gosta do exercício individual, fisicultural e customizado que é praticado em academias encontra cada vez menos opções para equilibrar essa “conta de energia” cotidiana.

Pra piorar, comer também é algo cada vez mais fácil e customizável. As comidas pouco saudáveis e de fácil digestão, industrializadas, são cada vez mais frequentes. Tudo com elevado índice de gordura, glicose e carboidratos, que contribuem muito nessa “conta calórica”.

Somando tudo, fica fácil compreender porque quase metade da população brasileira está acima do peso. E porque o Brasil é o segundo país do mundo em número de obesos mórbidos, perdendo apenas para os EUA.

Dito isto, eu me posiciono: sou um sujeito que provavelmente não passei um único dia de minha vida, desde o início da adolescência, no “peso ideal”. Não sou melhor ou pior do que ninguém por causa disso, só tenho larga experiência em ser obeso e nos efeitos que isso traz, e posso compartilhar isso com vocês. Mas não me orgulho disso.

Pra começar, vamos deixar bem claro: ser gordo é uma bosta. Sua saúde piora, você não tem disposição para nada, não dorme bem, parece ter mais fome que os outros, se sente mal porque acha que é um descontrolado com pouca força de vontade e ainda sofre porque a sociedade acha que você é sim um descontrolado egoísta. Eu já perdi oportunidades demais na vida por ser obeso e pela obesidade destruir minha auto-estima diariamente. Não quero me colocar como vítima aqui porque não sou, mas obesidade é o típico caso de conciliação entre genética (que define nosso metabolismo, por exemplo) e ambiente, criando condições para o acúmulo de gordura, que nada mais é do que um mecanismo biológico que animais tem para a autopreservação em épocas de escassez.

Mas a obesidade é uma merda porque é uma bola de neve interna química e psicológica. Você começa a comer mais e pior, seu estômago começa a produzir mais grelina, seu fígado começa a produzir mais bile pra processar mais gordura, seu pâncreas começa a produzir mais insulina pra processar mais açúcar, e seu corpo começa a operar num “modo gordo”, em que há uma impressão falsa de que você precisa de uma maior quantidade de nutrientes para sobreviver. Esses “nutrientes extras” se acumulam no seu corpo em forma de gordura e fazem com que você tenha menos disposição de gastar energia. Daí, quanto mais você engorda, mais fica propenso a engordar. E é por isso que a obesidade mórbida pode levar à morte facilmente, porque não há um limite, a pessoa passa a engordar quase numa escala logarítmica, em alguns casos extremos pessoas superobesas (à partir de IMC 60) chegaram a engordar 15 quilos em uma semana (!!!).

Por mais que seja errado atribuir culpa em um caso desses, é normal que a sociedade veja o obeso como o culpado por sua situação. O preconceito contra enfermidades é uma característica histórica da humanidade e tem um fundo bem definido, o de que as pessoas não gostam de ver pessoas enfermas por pensarem que correm o risco de ficar na mesma situação um dia. Na antiguidade esse preconceito era com leprosos, na Idade Média com pessoas que tinham manchas ou outras coisas que poderiam sugerir pestes, no século XIX com tuberculosos, no final do século XX com aidéticos. E ocorre com obesos, por mais que se saiba que a obesidade não é algo “contagioso”, mas fruto de um desequilíbrio energético que pode ter as causas mais diversas.

Qual é o problema com isso? Bem, o problema é que o obeso já tem problemas demais antes do preconceito social. Como eu já disse: ser gordo é uma merda, você não tem disposição para nada, não consegue dormir direito (a proporção de obesos com apnéia do sono, por exemplo, é enorme), não tem uma alimentação minimamente regrada, não consegue ter uma vida social saudável, não consegue nem fazer sexo direito, em muitas ocasiões (seja porque ninguém quer fazer sexo com você ou porque o ato sexual é fisicamente mais difícil quando você tá envolvido por uma enorme camada de gordura).

Quando tudo isso se soma ao preconceito social, a situação fica catastrófica. No Brasil, sete em cada dez empresários não querem contratar obesos. É um índice de rejeição maior do que o de qualquer outra minoria. E arrisco a dizer que isso se transfere para outras áreas da vida além da profissional. Sete (ou mais) em cada dez pessoas não quer manter relacionamentos amorosos com obesos. Sete (ou mais) em cada dez pessoas não querem ter um filho obeso. O obeso acaba tendo toda a sua vida social ofuscada por atrás da primeira percepção: a de que “ah, ele(a) é gordo(a)”, como se isso fosse impedimento para toda e qualquer percepção menos superficial sobre aquela pessoa.

Isso só contribui para afundar o psicológico do obeso e acelerar o processo de degeneração da saúde do sujeito. Porque, na maioria das vezes, o obeso, quando lida com a rejeição social, vai se refugiar na comida. E daí fica mais obeso. E é mais rejeitado. E vai se refugiar mais ainda na comida. É uma bola de neve descendo a montanha, e uma hora a situação fica completamente incontrolável.

Ah, mas como o obeso deve ser tratado? Como uma pessoa normal. Porque, acreditem, não existe nenhum gordo no mundo cuja característica principal é “ser gordo”. Existem pessoas por trás da camada de gordura. Pessoas muitas vezes maravilhosas, que só estão esperando uma chance de mostrarem todo o seu brilho quando você vai além da superficialidade da primeira impressão. Pessoas que em geral não “tem culpa” de estarem obesas, apesar delas mesmas acreditarem nisso. Pessoas que talvez até consigam emagrecer e ficar mais saudáveis se tiverem amigos, pessoas próximas, chance de desabafar, apoio.

Porque a falta de aceitação por parte da sociedade só agrava o maior conflito cotidiano que o obeso sente consigo mesmo: o de não conseguir ter uma saúde melhor. O de sempre se imaginar magro em algum momento no futuro e nunca conseguir emagrecer de fato. Se você perguntar para QUALQUER obeso “qual é o seu sonho”, a maioria deles pode até não responder por vergonha, mas certamente vai pensar “estar no peso certo, saudável”.

Obviamente não vai resolver em todos os casos, mas a melhor forma de ajudar TODOS os obesos nesse sonho em comum é deixando de lado as posturas excludentes, tendo em mente que o gordo é uma pessoa comum, igual você, complexa, repleta de qualidades e defeitos, e a capa de gordura que atrapalha na primeira impressão é só um problema que o obeso quer resolver e não consegue sozinho. Talvez o seu companheirismo e a sua aceitação sejam decisivos para isso.

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Uma resposta para Precisamos falar sobre obesidade

  1. Paulo S. disse:

    Bela análise, realmente muitas vezes tratamos de afundar mais a pessoa do que ajuda-la, quase sempre para dizer a verdade. Precisamos mudar a postura como você disse.
    Abraços.

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