A Falácia da Terceirização como instrumento de liberdade econômica


Vi as propagandas da Confederação Nacional da Indústria e editoriais de jornais como Folha e Gazeta do Povo defendendo a terceirização e preciso falar uma coisa:

Quem associa terceirização com liberdade econômica ou é mal intencionado ou não entende nada de economia.

Como nasceu a terceirização? Bem, há serviços na minha empresa que não são minha especialidade então subcontrato quem é especialista nisso.

Só que nos países capitalistas periféricos, com uma elite acostumada ao trabalho escravo, terceirização virou precarização do trabalho. E hoje essa elite patrimonialista quer aplicar a terceirização em tudo pra aumentar suas taxas de lucro às custas do salário do trabalhador

Na prática, se a terceirização for aprovada, a concentração de renda vai aumentar absurdamente em um país que já é extremamente desigual (o nosso).

Um exemplo é o México: a violência, que já era um problema lá, explodiu depois da lei das subcontratações de 2012. Já se contratavam terceirizados de maneira precária lá antes, mas a lei regulamentou isso e fez dobrar o número de terceirizados em meros 3 anos (link: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/40147/prometendo+modernizar+lei+terceirizacao+no+mexico+consagrou+precarizacao+diz+especialista.shtml)

Além disso, o Brasil, que já investe pouco em inovação e em pesquisa, vai investir ainda menos com salários menores. Não tem atrativo pra mão de obra qualificada ser algo além de medíocre em um lugar onde ela sempre terá um contrato de trabalho precário e mal remunerado.

E quem tentar investir em pesquisa e desenvolvimento em um mercado fechado com relações de trabalho precarizadas vai falir, simples assim. Não é preciso inovar em um cenário medíocre e cômodo pros empresários, e isso é o resumo da história das políticas industriais no Brasil.

Porque os mesmos empresários que querem a terceirização pela LIBERDADE ECONÔMICA fazem lobby pra economia nacional continuar fechada. Pra produtos de fora serem sobretaxados. Pra continuarem vivendo das linhas de crédito com juros subsidiados oferecidas pelo governo.

Porque nossos empresários em geral são pouquíssimo produtivos, nos últimos 30 anos a produtividade da nossa indústria CAIU 15% (link: http://brasileconomico.ig.com.br/ultimas-noticias/em-30-anos-produtividade-da-industria-nacional-caiu-15_114488.html)

E daí o Brasil tá na rabeira de todos os rankings de liberdade econômica não “por ser comunista” mas porque é conveniente pro empresariado. Porque só assim um empresariado de produtividade ridícula sobrevive sem gastar quase nada em inovação (é bom lembrar que, além do Brasil, só Argentina, Indonésia, Rússia e Índia, dentre as 20 principais economias do mundo, contam com mais investimentos públicos do que privados em ciência)

E daí a imprensa e as associações de empresários defendem que a terceirização vai “aumentar a liberdade econômica”. Não, amigos, só vai aumentar a desigualdade econômica e consolidar a nossa posição de país periférico que tem um empresariado medíocre pagando muito mal por uma mão de obra medíocre.

Estilo o México, em que a violência explodiu porque compensa mais financeiramente fazer parte dos cartéis de tráfico de drogas do que trabalhar subcontratado de forma precarizada, ganhando um salário miserável.

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6 respostas para A Falácia da Terceirização como instrumento de liberdade econômica

  1. Pingback: Mulheres, terceirização e precarização do trabalho |

  2. Excelente texto meu amigo, compartilhado! Já ouvi comentários de que “os empregos que serão terceirizado são os peão, duvido que uma VW da vida vá terceirizar o setor de desenvolvimento”, como se as empresas realmente investissem de forma pesada nisso aqui no Brasil.

    Boa parte das empresas, e nisso se incluem as montadoras que povoam o ABC, pouco investem em pesquisa e desenvolvimento, tratando no máximo ideias enviadas pelas matrizes, nacionalizando produtos. Ainda assim, nada as impediria de terceiriza-los também.

    • Léo Rossatto disse:

      Sem contar que o pouco é que é investido em pesquisa e desenvolvimento geralmente é em pesquisa superficial, que facilmente poderia ser substituída por serviços prestados por empresas externas.

      • Um exemplo disso foi a GM, que arriscou investir em P&D na planta de São Caetano, que desenvolveu modelos como o Ágile e o novo Vectra.

        Foram boas experiências para o mercado nacional, apesar das críticas aos modelos. Porém a empresa deixou de lado esta estratégia e resolver “mundializar” sua linha com suas plataformas globais, talvez com a justificativa da competitividade.

        Ou seja, o custo falou mais alto e eles meio que “primerizaram” (perdoe o neologismo) a área. Com pouca demanda novamente, o que os impediriam de terceirizar com a mesma justificativa de competitividade?

        • Léo Rossatto disse:

          Exatamente. A GM é um caso emblemático nesse sentido. As indústrias brasileiras basicamente são produtoras internacionais de motores e veículos que saem a preços competitivos, mas são vendidos aqui a preços absurdos, por causa da reserva de mercado e dos incentivos que sempre foram dados a essas empresas.

          Nada de errado em querer incentivar um setor da economia. Tudo de errado se esse incentivo vem sem contrapartidas claras, como o investimento em pesquisa e desenvolvimento.

  3. Paulo S. disse:

    É meu amigo… concordo com você.

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